Ayahuasca: O Cipó e a Folha que Viraram Sacramento na Amazônia

Da bolsa ritual de mil anos encontrada nos Andes aos seringais do Acre, onde nasceram o Santo Daime, a Barquinha e a União do Vegetal, a Ayahuasca une um cipó e uma folha numa química que o conhecimento indígena dominou muito antes da ciência

 

O Cipó e a Folha

A Ayahuasca não é uma planta, é uma bebida. Nasce do encontro de 2 plantas da floresta amazônica: um cipó que cresce enrolado nas árvores e as folhas de um arbusto. Separadas, uma quase não tem efeito visionário e a outra é neutralizada pelo corpo. Juntas, formam uma preparação engenhosa, criada pelo conhecimento indígena muito antes de a ciência entender por que ela funciona.

Povos da Amazônia ocidental usam essa combinação há séculos em rituais de cura, de caça e de contato com o mundo espiritual. No século 20, ela deu origem a religiões brasileiras nascidas nos seringais do Acre e de Rondônia.

Hoje, a Ayahuasca é estudada em universidades, reconhecida pelo Estado brasileiro para uso religioso e procurada por pessoas do mundo inteiro. Esta é a história de um cipó e de uma folha que viraram sacramento.

 

Banisteriopsis — O Cipó das Almas

O cipó da Ayahuasca é a Banisteriopsis caapi, da família Malpighiaceae, a mesma da Acerola. É uma liana nativa da Amazônia que pode passar de 30 metros de comprimento, torcendo-se em volta das árvores. Tem flores pequenas, rosadas ou brancas, que aparecem raramente.

A folha mais usada vem da Chacrona, Psychotria viridis, um arbusto da família Rubiaceae, a mesma do Café. Em algumas regiões, outras plantas substituem a Chacrona, como a Diplopterys cabrerana, conhecida como chaliponga.

O nome Ayahuasca vem do quíchua: aya significa espírito ou morto, e waska, cipó. Por isso é traduzido como cipó dos espíritos ou cipó das almas. Cada povo tem seu próprio nome: é yagé na Colômbia, caapi em partes do Brasil, nixi pae entre os Huni Kuin do Acre, e hoasca, vegetal ou Daime nas religiões brasileiras. O botânico inglês Richard Spruce descreveu o cipó para a ciência em 1851, depois de observar seu uso por povos da região do rio Uaupés, no alto rio Negro.

 

O cipó da Ayahuasca é a Banisteriopsis caapi, da família Malpighiaceae — conhecido no Brasil como Jagube ou Mariri

 

Tiwanaku — Uma Bolsa de Mil Anos

Não se sabe quando a combinação foi inventada. O uso tradicional por povos amazônicos é antigo, mas a floresta úmida conserva mal os vestígios. Por isso, uma das evidências mais antigas veio de um lugar inesperado: os Andes.

Em 2019, pesquisadores publicaram na revista PNAS a análise de uma bolsa ritual encontrada numa caverna do altiplano de Lípez, no sudoeste da Bolívia, a cerca de 4 mil metros de altitude. A bolsa tinha cerca de mil anos e era feita de 3 focinhos de raposa costurados. Os pesquisadores a ligaram à época da cultura Tiwanaku.

Dentro dela, a análise química encontrou harmina, a substância do cipó, e DMT, a da folha, além de bufotenina e cocaína. As plantas não crescem naquela altitude. Para os autores, o dono era provavelmente um especialista ritual que viajava ou fazia parte de redes de troca com as terras baixas. Segundo o estudo, é a primeira evidência de que povos antigos da América do Sul possivelmente combinavam essas substâncias.

 

Harmina — A Química do Encontro

O segredo da Ayahuasca está na combinação. As folhas da Chacrona contêm DMT, a dimetiltriptamina, uma substância visionária. Tomada sozinha por via oral, porém, a DMT é destruída no estômago e no fígado por uma enzima, a monoamina oxidase.

O cipó contém harmina, harmalina e tetra-hidroharmina, alcaloides que bloqueiam temporariamente essa enzima. Assim, a DMT consegue chegar ao cérebro. Os efeitos começam em cerca de 1 hora, atingem o pico entre 90 e 120 minutos e duram cerca de 4 horas. Vômitos e náuseas são comuns e, em muitas tradições, são vistos como parte da limpeza.

Em 2019, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte publicaram na Psychological Medicine um estudo com 29 pessoas com depressão resistente a tratamento. Uma única dose de Ayahuasca reduziu os sintomas mais que o placebo. Os estudos, porém, ainda são poucos e pequenos. Há riscos sérios: a Ayahuasca pode interagir de forma perigosa com antidepressivos e outros remédios e é contraindicada para pessoas com histórico de psicose.

 

Ayahuasca vem do quíchua, cipó dos espíritos — a bebida une o cipó às folhas da Chacrona, Psychotria viridis, e é preparada por povos da Amazônia ocidental

 

Rainha da Floresta — Do Seringal à Igreja

Em muitos povos amazônicos, pajés e especialistas conduzem a Ayahuasca e usam cantos para guiar a experiência. Entre os Huni Kuin, os desenhos geométricos chamados kene, pintados em tecidos, cerâmicas e no corpo, são ligados às visões da bebida.

No início do século 20, a bebida chegou aos seringueiros. Raimundo Irineu Serra, homem negro nascido no Maranhão em 1892, chegou ao Acre em 1912 para trabalhar na borracha. Na fronteira com a Bolívia, conheceu a Ayahuasca. Contou ter recebido de uma entidade, a Rainha da Floresta, identificada com a Virgem Maria, a missão de fundar uma doutrina. Em 1930, em Rio Branco, começou o Santo Daime. O nome vem das invocações dos hinos, como “dai-me força” e “dai-me luz”.

Outras religiões surgiram depois. A Barquinha foi fundada em 1945 por Daniel Pereira de Mattos, em Rio Branco. A União do Vegetal foi criada em 1961 pelo seringueiro baiano José Gabriel da Costa, o Mestre Gabriel. As 3 misturam cristianismo e tradições indígenas, africanas e esotéricas.

 

Feitio — O Preparo como Ritual

Nas religiões ayahuasqueiras, o preparo da bebida é um ritual em si. No Santo Daime, ele se chama feitio. Os homens batem o cipó com macetes de madeira até desfiá-lo, e as mulheres limpam as folhas da Chacrona, uma a uma. Depois, tudo é cozido por horas em grandes panelas, e o líquido passa por vários cozimentos até ficar concentrado. O trabalho pode durar dias, com orações e hinos cantados durante o preparo.

Outro segredo está na própria planta. Ao cortar o cipó, aparecem no interior desenhos parecidos com um coração ou uma flor, formados pelos feixes de madeira, que os daimistas associam a símbolos sagrados. A planta cresce devagar, e as comunidades mantêm plantações próprias para não depender da extração na floresta.

Há também uma questão jurídica. A DMT isolada é controlada internacionalmente, mas as plantas que a contêm ficaram fora das listas da Convenção sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971. Isso abriu espaço para decisões nacionais diferentes sobre a bebida.

 

A harmina do cipó impede que o corpo destrua o DMT da Chacrona — no Brasil, o uso religioso da Ayahuasca é regulamentado desde 2010

 

Hinário — Do Acre ao Mundo

No Brasil, a Resolução nº 1 do Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, de 2010, reconhece o uso religioso da Ayahuasca como expressão protegida pela liberdade de crença. A mesma norma proíbe a venda comercial, o turismo organizado em torno da bebida e a propaganda de curas sem base científica. Também recomenda avaliar a saúde mental de quem participa pela primeira vez.

As religiões ayahuasqueiras levaram a bebida a outros países. Em 2006, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu por unanimidade que a União do Vegetal pode usar a hoasca em seus rituais no país. Os hinos do Santo Daime, cantados em português, hoje ecoam em igrejas da Europa, da América do Norte e da Ásia.

Com a fama, veio também o turismo espiritual. Em países como o Peru, cresceram retiros comerciais, com casos de fraude, abusos e mortes. Muitos povos indígenas defendem que seus saberes sejam respeitados e que os benefícios dessa procura voltem para suas comunidades.

 

Um Sacramento da Floresta

A Ayahuasca nasce do encontro de um cipó e de uma folha, uma combinação que a ciência só entendeu no século 20. Povos da Amazônia a usam há séculos, e uma bolsa andina de mil anos mostra que essa sabedoria é antiga.

Dos pajés aos seringueiros do Acre, dos hinos do Santo Daime aos laboratórios da UFRN, a bebida atravessou culturas sem perder sua origem na floresta. Entendê-la é reconhecer um conhecimento indígena sofisticado e, ao mesmo tempo, respeitar seus riscos e seus contextos sagrados. Mais do que uma substância, a Ayahuasca é parte de culturas vivas, com regras, cantos e mestres próprios.

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Fontes

  • Miller, M. et al. Chemical evidence for the use of multiple psychotropic plants in a 1,000-year-old ritual bundle from South America. PNAS, 2019. Link e ScienceDaily
  • Wikipedia. Banisteriopsis caapi. Link
  • Ayahuasca: pharmacology, safety, and therapeutic effects. CNS Spectrums. Link
  • Palhano-Fontes, F. et al. Rapid antidepressant effects of the psychedelic ayahuasca in treatment-resistant depression. Psychological Medicine, 2019. Link
  • Wikipedia. Mestre Irineu. Link
  • Wikipedia. União do Vegetal. Link
  • CONAD. Resolução nº 1, de 25 de janeiro de 2010. Link

 

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