Da América tropical que a gerou ao Romeu e Julieta que o Brasil inventou, a goiaba é a fruta com quatro vezes mais vitamina C que a laranja — e que alimentou soldados da Segunda Guerra Mundial desidratada em pó.
A goiaba não é a fruta mais famosa do Brasil — mas talvez devesse ser. Tem mais vitamina C que a laranja, mais sabor que muitas frutas exóticas importadas, uma história que passa pelos Incas e pelos imigrantes portugueses que sentiram falta da marmelada e criaram a goiabada. Esta é a história da Psidium guajava — a fruta de sementes aglomeradas que o tupi chamou de coyab e o mundo chamou de guava.
Coyab — As Sementes Aglomeradas da América Tropical
A goiaba, Psidium guajava, é originária da América tropical — com origem que os botânicos situam entre o norte da América do Sul, as Antilhas e a América Central, ocorrendo naturalmente do México ao Uruguai. O nome científico vem do grego psídion — romã — porque os europeus comparavam a goiaba à romã pelo interior recheado de sementes. A goiaba chegou à Bélgica com o nome de pera-granada. O nome popular vem do tupi coyab — sementes aglomeradas. Para os astecas era xalxcocotl. Em Goa, na Índia, onde os portugueses a levaram, é chamada de per. Pertence à família Myrtaceae — a mesma da pitanga, da jabuticaba e do eucalipto. É uma árvore perene de porte médio que pode produzir frutos comercialmente por até quinze anos ininterruptos — uma das mais produtivas e resilientes da fruticultura tropical.
Dos Incas ao Mundo — Pelas Grandes Navegações e pelos Soldados da Segunda Guerra
Quando os europeus chegaram às Américas no século XVI, a goiaba já era cultivada e consumida pelos povos originários há séculos. O primeiro registro europeu da fruta foi feito em 1514 pelo escritor espanhol Gonzalo de Oviedo, que a descreveu no Caribe. Os portugueses e espanhóis a levaram às colônias africanas e asiáticas — onde se adaptou tão bem ao clima tropical que rapidamente se naturalizou. Na Segunda Guerra Mundial, a goiaba ganhou um papel inesperado — devido ao altíssimo teor de vitamina C, foi desidratada e reduzida a pó para servir como suplemento alimentar dos soldados aliados nas regiões frias da Europa — aumentando a resistência orgânica contra infecções respiratórias. Uma fruta tropical que cruzou o Atlântico para sustentar exércitos num continente em guerra.
Vitamina C, Licopeno e a Farmácia da Fruta de Quintal
A goiaba é uma das frutas mais nutritivas que existem — com concentração de vitamina C entre cento e oitenta e trezentos miligramas por cem gramas, o que representa quatro vezes mais que a laranja. Uma única goiaba pode suprir a necessidade diária de vitamina C de um adulto. Rica também em licopeno — o antioxidante presente na polpa vermelha que protege o coração e tem ação anticancerígena estudada —, fibras, potássio, fósforo, cálcio, ferro e vitaminas A e do complexo B. Suas folhas têm propriedades medicinais documentadas — o chá de folha de goiabeira é usado na medicina popular para tratar diarreias, inflamações da boca e da garganta e úlceras. A madeira da goiabeira é dura e compacta — usada pelos Incas para fazer utensílios e ornamentos, e chegou a ser utilizada na construção aeronáutica.
Oxum e a Goiabeira Sagrada nos Terreiros Brasileiros
No Candomblé brasileiro, a goiabeira é uma das árvores sagradas mais respeitadas — associada ao orixá Oxum, senhora das águas doces, da beleza, do amor e da fertilidade. As folhas da goiabeira são usadas em banhos de purificação e nos rituais de iniciação de Oxum — misturadas com outras plantas sagradas num conjunto chamado ewé. A própria goiaba fresca aparece como oferenda em alguns rituais — pela doçura e pela abundância que representa. Nos quintais das casas nordestinas, a goiabeira tem papel semelhante ao de planta protetora — cuja sombra abriga crianças e cujos frutos alimentam famílias inteiras. Uma fruta que nos terreiros é sagrada antes de ser alimento.
A Múmia Inca e os Ornamentos de Goiabeira
Um dos achados arqueológicos mais fascinantes ligados à goiabeira foi encontrado no Museu de Antropologia de Arequipa, no Peru. Junto à múmia de “Juanita” — uma adolescente inca com aproximadamente quinhentos anos, que teria sido sacrificada ao deus Apu Ampato — foram encontrados objetos e ornamentos feitos de madeira de goiabeira. A descoberta confirma que a goiabeira era valorizada pelos Incas não apenas como fruta mas como material nobre para rituais e ornamentos sagrados. E revela que a relação entre a goiabeira e a espiritualidade andina antecede em séculos o encontro com os europeus — numa tradição que os povos da América do Sul mantinham com essa árvore muito antes de qualquer nome científico existir.
A Goiabada que os Portugueses Inventaram — e o Romeu e Julieta que Virou Clássico
Com saudades da marmelada de sua terra natal, os imigrantes portugueses adaptaram a receita a uma fruta abundante no Brasil — a goiaba. Cozinhada com açúcar em tachos de cobre, a polpa da goiaba virou goiabada — mole, de corte ou cascão. A influência de imigrantes búlgaros introduziu o hábito de servir queijo com a goiabada. E numa campanha publicitária do desenhista Maurício de Souza, o queijo recebeu o nome de Romeu e a goiabada o de Julieta — numa referência à peça de Shakespeare. O sucesso foi tão grande que o nome Romeu e Julieta passou a designar todas as versões da combinação — um dos exemplos mais ricos de como uma fruta pode fundir culturas completamente diferentes numa única experiência gastronômica.
Brasil — O Maior Produtor Mundial de Goiaba Vermelha
O Brasil é o maior produtor mundial de goiaba vermelha — com a região Sudeste, especialmente São Paulo e Minas Gerais, liderando a produção nacional. A goiaba produzida no Brasil destina-se tanto ao consumo in natura quanto à indústria — de sucos e néctares a geleias, doces, sorvetes e cosméticos. O óleo de semente de goiaba tem propriedades hidratantes e antimicrobianas que a indústria cosmética valoriza crescentemente. A melhor época de colheita no Brasil vai de dezembro a abril. Da múmia inca de Arequipa ao Romeu e Julieta das festas mineiras, da sombra do quintal nordestino ao pó que alimentou soldados aliados no inverno europeu — a goiaba percorreu séculos sendo ao mesmo tempo fruta sagrada, alimento de guerra e símbolo de uma gastronomia genuinamente brasileira. Quer conhecer mais histórias sobre as plantas que moldaram o mundo? Explore o reino das plantas em A História das Plantas.

