Goiaba: a Fruta dos Taínos que Virou Goiabada e Romeu e Julieta

Cultivada no Peru há cerca de 4.500 anos, a Goiaba ganhou nome caribenho, virou invasora em Galápagos e, no Brasil, substituiu a marmelada portuguesa

 

Perfume — Uma Fruta que se Anuncia de Longe

A Goiaba madura avisa que chegou antes mesmo de ser vista. Seu cheiro forte toma conta da cozinha, do pomar e da feira. Por dentro, a polpa pode ser branca, rosada ou vermelha, cheia de sementes duras, e vira doce, suco, sorvete e geleia.

Essa fruta das Américas é cultivada há milhares de anos e hoje cresce em quintais e pomares de muitas partes do mundo tropical. No Brasil, virou goiabada, encontrou o queijo e ganhou um apelido tirado de Shakespeare, criado por uma campanha de marketing. Também ganhou variedades próprias, desenvolvidas por pesquisadores e famílias de produtores.

Esta é a história da Psidium guajava, a fruta que deixou vestígios de cultivo no Peru há cerca de 4.500 anos, cujo nome vem da língua dos taínos, que se tornou invasora em ilhas como Galápagos e que tem no Brasil o maior produtor de goiaba de polpa vermelha do mundo.

 

Taíno — Um Nome das Ilhas do Caribe

A Goiaba pertence à família das Mirtáceas, a mesma da jabuticaba, da pitanga e do eucalipto. Sua área nativa é discutida. A Wikipedia cita o Peru e, segundo outras fontes, também o México, a América Central, o Caribe e o restante da América do Sul. Por ser cultivada há tanto tempo, é difícil traçar sua origem exata.

Sítios arqueológicos do Peru mostram indícios de cultivo da Goiaba por volta de 2500 antes da era comum. Ou seja, povos andinos já cuidavam da goiabeira milhares de anos antes da chegada dos europeus ao continente, quando a fruta ainda não tinha o nome pelo qual a conhecemos hoje.

O nome também tem raiz americana. Na língua taína, falada por povos aruaques do Caribe, uma forma da palavra guayabo designava a árvore. O espanhol adotou o termo como guayaba, e daí ele se espalhou pelas línguas europeias. O nome científico, Psidium, vem do grego e lembra a romã, por causa da polpa cheia de sementes.

 

A Psidium guajava tem mais vitamina C que a laranja — e suas folhas contêm taninos e flavonoides com ação antidiarreica confirmada pela OMS, tornando-a planta medicinal reconhecida internacionalmente

 

Galápagos — Uma Fruta que Viajou pelo Mundo

A Goiaba foi adotada em regiões tropicais e subtropicais da Ásia, na África tropical, na Oceania e em partes dos Estados Unidos, onde chegou à Flórida no século 19. Hoje, a Índia lidera a produção mundial e também é a maior exportadora.

Essa facilidade de se espalhar tem um lado preocupante. A Goiaba pode se tornar invasora em alguns lugares tropicais e é um problema sério nas ilhas Galápagos, no Equador, onde ameaça a vegetação nativa. Em ambientes isolados como esse, uma planta que se multiplica com facilidade pode ocupar o espaço de espécies que só existem ali.

No Havaí, o problema vem de uma parente. A goiaba-araçá, Psidium littorale, tornou-se agressiva nas ilhas e ameaça mais de 100 espécies de plantas de extinção. É um exemplo de como uma planta útil para as pessoas pode, fora de sua terra, se transformar num risco para ecossistemas inteiros, sobretudo em ilhas.

 

Polpa — Árvore Pequena e Madeira Dura

A goiabeira é um arbusto ou uma árvore pequena, sempre verde. Plantada a partir de sementes, pode florescer e dar frutos em 2 a 8 anos. Suas flores são polinizadas por insetos, e, nos pomares, a principal polinizadora é a abelha-europeia, Apis mellifera.

Os frutos variam muito de tamanho, desde o de um damasco até o de uma toranja. A casca costuma ser verde ou amarela, e algumas variedades têm a casca vermelha. A polpa pode ser branca, rosa ou vermelha. A goiaba de polpa branca é a mais procurada no comércio mundial, segundo a Embrapa.

A madeira da goiabeira também tem valor. No Havaí, é usada para defumar carnes e resiste ao ataque de insetos e fungos. Sua densidade, depois de seca em estufa, é de cerca de 670 quilos por metro cúbico, e na Nigéria ela foi considerada adequada para estruturas de telhado. As folhas servem de alimento para animais e até para certos bichos-pau.

 

A goiaba é nativa das Américas tropicais e foi domesticada pelos povos indígenas há mais de 2.000 anos — chegou à Índia pelos portugueses no século XVI e hoje o país é o maior produtor mundial

 

Goiabada — A Saudade da Marmelada

Na cozinha brasileira, a Goiaba ganhou seu papel mais famoso por causa de uma saudade. Segundo o site Tudo Gostoso, imigrantes portugueses que trabalhavam nos engenhos sentiam falta da marmelada, o doce de marmelo de Portugal. No Brasil, passaram a usar a Goiaba, abundante no país, que assim também podia ser conservada.

O queijo seguiu um caminho parecido. Ele chegou com os portugueses, mas no Brasil passou a ser feito sobretudo com leite de vaca, dando origem a queijos como o minas e o canastra. Nas mesas de café de Minas Gerais, queijo e goiabada estavam sempre por perto, e a união aconteceu com naturalidade.

O apelido veio muito depois. Nos anos 1960, a marca Cica fez uma parceria com a Turma da Mônica e lançou uma embalagem de goiabada com Cebolinha e Mônica vestidos de Romeu e Julieta. O sucesso de vendas ligou o casal de Shakespeare à dupla de queijo e goiabada, e o nome ficou para sempre.

 

Paluma — A Goiaba Criada em Jaboticabal

Por trás das goiabas vendidas no Brasil, há muito trabalho de melhoramento. A principal variedade do país é a Paluma, desenvolvida na Unesp de Jaboticabal a partir do cruzamento das variedades Rubi e Supreme. Ela tem polpa vermelha, sabor mais intenso, alta produtividade e tolerância à ferrugem.

Outras variedades também fazem parte da história. A Pedro Sato é cultivada em São Paulo e no Distrito Federal. A Kumagai foi desenvolvida em Valinhos e leva o nome da família que a criou. Comunidades de imigrantes japoneses ajudaram a introduzir variedades em São Paulo e no Distrito Federal.

No Espírito Santo, a partir dos anos 1990, surgiu a Cortibel. A variedade Cortibel RG pode durar até 4 semanas depois da colheita, tem baixa acidez e serve bem à indústria. O grande desafio dos pomares é o nematoide-das-galhas, um verme microscópico que ataca as raízes. Para enfrentá-lo, a Embrapa desenvolveu um porta-enxerto resistente.

 

A goiabada cascão e o queijo minas são o Romeu e Julieta brasileiro — uma combinação que atravessou gerações e regiões tornando-se uma das mais reconhecíveis expressões da doçaria colonial brasileira

 

São Francisco — Dos Pomares Irrigados a Valinhos

Segundo dados do IBGE de 2019 reunidos pela Embrapa, o Brasil produziu cerca de 584 mil toneladas de Goiaba em mais de 22 mil hectares, numa produção que valeu quase 930 milhões de reais. A maior parte vem de pequenos e médios produtores, que vendem a fruta fresca ou para a indústria de doces e sucos.

Pernambuco lidera, com cerca de 210 mil toneladas, 36% do total, e a maior produtividade média do país. O cultivo no Vale do São Francisco, onde a irrigação é essencial, começou no início dos anos 1980, quando lavouras de feijão, algodão e milho deixaram de dar lucro. São Paulo vem em seguida, com cerca de 194 mil toneladas, com destaque para Valinhos e Jaboticabal.

O Paraná é o 3º produtor, com Carlópolis à frente, e o Distrito Federal se destaca pela produtividade. No ranking mundial, o Brasil aparece como o 7º maior produtor e o maior produtor de goiaba de polpa vermelha. A maior parte fica no mercado interno, mas já houve exportações para Portugal, Holanda e Suíça.

 

Semente — Uma Fruta Americana em Cada Quintal

A Goiaba é uma fruta antiga das Américas, cultivada no Peru há cerca de 4.500 anos e batizada com uma palavra dos taínos do Caribe. Dali, se espalhou pelos trópicos do mundo, onde virou alimento, madeira de defumar e, em algumas ilhas, uma ameaça às plantas nativas.

No Brasil, ganhou o lugar da marmelada portuguesa, encontrou o queijo mineiro e virou Romeu e Julieta numa embalagem de goiabada. Hoje, sai dos pomares irrigados do Vale do São Francisco e das terras paulistas de Valinhos e Jaboticabal. Graças a variedades como a Paluma e a Cortibel, a fruta também ficou mais produtiva e resistente. Do pé do quintal ao doce de corte, a Goiaba segue perfumando a mesa brasileira.

Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

Artigos Relacionados