Savana — A Floresta que Cresce para Baixo
À primeira vista, o Cerrado parece simples. Árvores baixas e tortas, cascas grossas, capim alto e um céu enorme por cima. Na seca, quase tudo parece queimado e sem vida. Mas boa parte dessa vegetação está escondida debaixo da terra, em raízes que descem muitos metros atrás da água.
O Cerrado é a grande savana do centro do Brasil. Ocupa planaltos e chapadas que alimentam os principais rios do país e abriga milhares de espécies de plantas e animais. Também é a região onde a agricultura avançou depressa nas últimas décadas.
Esta é a história do Cerrado, o bioma que guarda o crânio de Luzia, uma floresta chamada de invertida, o Pequi de caroço espinhento, o Lobo-guará e as nascentes que abastecem boa parte do Brasil.
Chapada — A Savana no Coração do Brasil
O Cerrado ocupa cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados, perto de 21% do território brasileiro. Está presente em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e no Distrito Federal. Pequenas partes avançam pelo Paraguai e pela Bolívia.
O clima tem 2 estações bem marcadas. Chove bastante no verão, e entre abril e setembro vem uma seca forte. A paisagem muda conforme o solo e a umidade, do campo limpo, só de capim, até o cerradão, com árvores de cerca de 9 metros e copas que cobrem metade do céu.
A diversidade é grande. O bioma tem cerca de 10 mil espécies de plantas, sendo perto de 800 de árvores. As leguminosas, família do Feijão, são as mais numerosas entre as árvores. Para muitos pesquisadores, essa vegetação é muito antiga, com raízes que podem chegar ao período Cretáceo, a época dos dinossauros.
Lapa — Luzia e os Primeiros Moradores do Planalto
A região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, é uma das janelas para os primeiros habitantes do Brasil. O naturalista dinamarquês Peter Lund chegou ao país em 1833 e passou mais de 10 anos explorando suas cavernas. Encontrou ossos de animais gigantes extintos, como preguiças-gigantes, e reuniu mais de 12 mil peças.
Na década de 1970, na Lapa Vermelha IV, em Pedro Leopoldo, foi encontrado o crânio apelidado de Luzia, com cerca de 11 mil anos. Ao longo de cerca de 170 anos de pesquisa, restos de 250 esqueletos humanos foram achados na região. Em 1892, o botânico Eugenius Warming publicou o livro Lagoa Santa, o primeiro relato detalhado da vegetação do Cerrado.
Muitos povos indígenas vivem no Cerrado, como os Xavante, os Karajá, os Krahô, os Xerente, os Xacriabá e os Avá-Canoeiro. Por muito tempo, a ocupação não indígena foi pequena. Isso mudou com a construção de Brasília e com as estradas que cortaram o planalto. Entre 1970 e 2010, a população da região passou de 35,8 milhões para 76 milhões de pessoas.
Raiz — A Floresta Invertida que Guarda as Águas
O Cerrado é chamado de floresta invertida. Suas árvores e arbustos podem ter raízes que descem até 15 metros, em busca de água no fundo do solo. Por isso, durante a seca, muitas plantas continuam verdes enquanto o capim em volta fica amarelo.
Essas raízes ajudam a recarregar a água que corre por baixo da terra. O Cerrado guarda nascentes de 8 das 12 regiões hidrográficas mais importantes do Brasil. Dali saem rios como o Paraná, o Araguaia, o Tocantins e o São Francisco, além das cabeceiras do Xingu e do Tapajós, que seguem para a Amazônia.
Sob o bioma estão os aquíferos Guarani e Urucuia, enormes reservas de água subterrânea. Por isso o Cerrado ganhou o apelido de berço das águas. Um estudo sobre 81 bacias do bioma mostrou que, entre 1985 e 2022, o volume dos rios caiu em média 15,4%. A projeção é de uma queda de 34% até 2050 se a perda de vegetação continuar.
Fogo — A Chama que Faz Parte da Savana
No Cerrado, o fogo não é sempre um inimigo. Ele faz parte da história do bioma há muito tempo. Raios provocam queimadas naturais, e povos indígenas também usaram o fogo para renovar o capim.
Muitas plantas se adaptaram às chamas. Várias árvores têm casca grossa e cheia de cortiça, que protege os tecidos vivos do calor. Outras guardam reservas nas raízes e nos caules subterrâneos e rebrotam pouco depois da queimada. Os troncos tortos e retorcidos, tão típicos da paisagem, também são marcas dessa convivência com o fogo e com a seca.
O problema é o fogo fora de hora e em excesso. Queimadas frequentes, muitas vezes ligadas à abertura de pastos e lavouras, impedem a regeneração e empobrecem o solo. Por outro lado, quando o fogo é totalmente excluído, árvores fecham o campo aberto. Hoje, cerca de 19% do bioma mostra esse adensamento de árvores, ligado a uma queda de perto de 30% na diversidade de plantas.
Lobo — Os Animais da Savana Brasileira
Um dos símbolos do Cerrado é o Lobo-guará, Chrysocyon brachyurus, de pernas longas e pelagem alaranjada. Ele divide o bioma com 161 espécies de mamíferos registradas, além de 837 de aves, 120 de répteis e 150 de anfíbios.
Entre as aves estão a Arara-azul-grande, o Tucano-toco e o Pato-mergulhão, ave aquática ameaçada de extinção. Cerca de 27% das aves do Cerrado só se reproduzem em áreas abertas, o que as torna sensíveis à troca do campo por lavouras. Os insetos também impressionam. Em algumas áreas, há até 4 mil ninhos de formigas-cortadeiras por hectare.
Parte dessa riqueza está protegida. Em 2001, os parques nacionais da Chapada dos Veadeiros e das Emas, em Goiás, foram reconhecidos como Patrimônio Mundial pela Unesco. Mas as unidades de conservação ainda cobrem uma fatia pequena do bioma, e boa parte da vegetação nativa que resta está em terras particulares, o que torna o Código Florestal importante para o futuro do Cerrado.
Pequi — O Fruto de Caroço Espinhento e a Soja no Planalto
O Pequi, Caryocar brasiliense, é um símbolo da cozinha do Cerrado. Sua polpa amarela tem sabor e cheiro fortes, mas o caroço esconde espinhos finos que podem ferir quem morde sem cuidado. Em 2022, a Embrapa Cerrados e a Emater de Goiás lançaram 6 cultivares, 3 delas sem espinhos, depois de 25 anos de pesquisa com produtores.
O solo do Cerrado sempre foi ácido e pobre. Até meados da década de 1960, a agricultura ali era pequena. A partir dos anos 1970, a Embrapa mostrou que calcário e fósforo podiam tornar a terra produtiva. Com incentivos do governo, o planalto virou área de soja, milho, algodão e gado, e hoje produz mais de 70% da carne bovina do Brasil.
O preço foi alto. Segundo o MapBiomas, o Cerrado perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024, cerca de 28% da cobertura original. Hoje, restam 51,2% de vegetação nativa. A região do Matopiba, entre Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, respondeu por 73% da perda nos últimos 10 anos.
Nascente — Um Bioma que Sustenta o Brasil
O Cerrado é uma savana com floresta escondida no subsolo. Suas raízes profundas guardam água, suas árvores tortas resistem ao fogo e suas chapadas fazem nascer os rios que correm para o Norte, o Nordeste e o Sul do país.
Ali estão o crânio de Luzia, o Lobo-guará, o Pequi de caroço espinhento e as nascentes de 8 das 12 grandes regiões hidrográficas brasileiras. Também está a fronteira da agricultura, que transformou quase metade da paisagem em poucas décadas. O futuro do Cerrado decide muito sobre a água que chega às torneiras, às lavouras e às usinas de todo o país. Cuidar do Cerrado, no fim, é cuidar das águas do Brasil inteiro.
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Fontes
- Cerrado (Wikipedia)
- El segundo bioma más grande de Brasil perdió 40 millones de hectáreas en 4 décadas (Meteored, dados MapBiomas)
- Desmatamento do Cerrado ameaça segurança hídrica de todo o Brasil (Poder360)
- The land of Luzia (Revista Pesquisa FAPESP)
- Cultivares de pequi sem espinhos chegam ao mercado brasileiro (Diário do Comércio)