Pampa: Os Campos do Sul que Guardam 56 Plantas num Metro Quadrado

Bioma que o Brasil divide com Uruguai e Argentina, o Pampa tem cerca de 3 mil espécies de plantas, viu o gado dos jesuítas se espalhar e a guerra de Sepé Tiaraju, e hoje perde seus campos nativos para a soja

 

Coxilha — O Campo que Parece Não Ter Fim

No sul do Brasil, a paisagem se abre em colinas suaves cobertas de capim, as coxilhas. Quase não há árvores, o vento corre livre e o horizonte parece não acabar. À primeira vista, é só pasto. De perto, é um tapete de plantas surpreendentemente variado.

Esse é o Pampa, um bioma de campos que o Brasil divide com o Uruguai e a Argentina. Ali, o gado pasta sobre capim nativo há quase 400 anos, e a vida no campo deu origem à cultura gaúcha, ao chimarrão e às estâncias.

Esta é a história do Pampa, a planície de capins que viu nascer as missões jesuíticas, a guerra de Sepé Tiaraju e um modo de vida inteiro, e que hoje perde seus campos nativos para lavouras e plantações de árvores.

 

Planície — Um Bioma Dividido entre 3 Países

O nome vem do quíchua pampa, que significa planície. O bioma ocupa cerca de 83,8 milhões de hectares no sul da América do Sul. A maior parte, 56%, fica na Argentina. O Uruguai tem 21%, e o Brasil, 23%, cerca de 19,4 milhões de hectares. A região inclui todo o Uruguai e 5 províncias argentinas, entre elas Buenos Aires.

No Brasil, o Pampa existe apenas no Rio Grande do Sul, onde cobre cerca de 63% do território do estado. Mesmo assim, representa só 2,3% da área do país. Foi reconhecido oficialmente como bioma pelo IBGE em 2004, e em 2024 completou 20 anos com esse status.

O relevo é baixo, quase todo abaixo de 300 metros de altitude, com planícies e coxilhas. O clima é subtropical, com temperatura média de 18,7 °C e cerca de 1.615 milímetros de chuva por ano, distribuídos ao longo das estações. No inverno, as geadas são comuns em toda a região.

 

O nome vem do quíchua e quer dizer “planície” — no Brasil, o Pampa só existe no Rio Grande do Sul, onde cobre mais da metade do estado

 

Missões — O Gado dos Jesuítas e a Guerra de Sepé

A partir de 1626, padres jesuítas espanhóis fundaram missões com os Guarani na região. Em 1634, o padre Cristóvão de Mendoza, fundador da redução de São Miguel Arcanjo, introduziu o gado no atual Rio Grande do Sul. Ele morreu em 1635, morto por indígenas na serra. O gado, porém, ficou e se multiplicou solto nos campos.

Esses rebanhos sem dono viraram a base da economia do Pampa. Entre 1682 e 1706, os jesuítas e os Guarani ergueram os Sete Povos das Missões, como São Miguel Arcanjo, São Borja e Santo Ângelo. Um censo jesuíta chegou a contar mais de 26 mil moradores nas 7 reduções.

Em 1750, o Tratado de Madri entregou aos portugueses as terras a leste do rio Uruguai, incluindo os Sete Povos. Os Guarani se recusaram a sair, e começou a Guerra Guaranítica. O líder Sepé Tiaraju morreu em 7 de fevereiro de 1756. Três dias depois, na batalha de Caiboaté, tropas espanholas e portuguesas mataram 1.511 indígenas.

 

Capim — 56 Plantas num Metro Quadrado

O Pampa parece pobre em plantas, mas é o contrário. O bioma tem cerca de 3 mil espécies de plantas, com mais de 450 de capins, perto de 150 de leguminosas e muitos cactos. Pesquisadores encontram, em média, cerca de 30 espécies de capins e ervas por metro quadrado, e já registraram 56 plantas diferentes num único metro quadrado.

Essa mistura forma um pasto de boa qualidade para o gado. Pesquisas mostram que bois criados em campo nativo ganham peso e dão retorno financeiro mais rápido do que os criados em campos convertidos para capins exóticos. No Uruguai, a carne de gado criado em campo nativo é valorizada como produto de qualidade.

Um capim virou símbolo do bioma. O Capim-dos-pampas, Cortaderia selloana, de plumas brancas e altas, é nativo da região. Além do pasto, os campos e os banhados do Pampa ajudam a retirar gás carbônico da atmosfera. Os banhados, áreas alagadas das planícies baixas, são grandes guardadores de carbono no solo.

 

O umbu, a árvore solitária dos campos gaúchos, quase não tem madeira de verdade — seu tronco é mole e esponjoso, e por isso é chamado de “erva gigante”

 

Cuia — O Chimarrão e a Roda do Campo

No Pampa, uma bebida virou ritual. O chimarrão é feito com a Erva-mate, Ilex paraguariensis, árvore nativa da América do Sul. Os Guarani foram os primeiros consumidores conhecidos da planta. Bebiam as folhas em infusão, usavam a erva como moeda e a tratavam como objeto de culto, um presente dos deuses.

Para filtrar a bebida, os Guarani usavam um canudo perfurado, antecessor da bomba, ou um filtro de taquara trançada chamado tacuapi. Os jesuítas chegaram a proibir o consumo no século 17, mas a proibição caiu por volta de 1630. Depois disso, a extração e o comércio da erva viraram uma atividade econômica importante na região.

No Rio Grande do Sul, a cuia passa de mão em mão numa roda, entre família, amigos e peões. Também Sepé Tiaraju virou símbolo. O líder guarani é lembrado como herói e mártir da luta pela terra, e a frase “esta terra tem dono”, ligada a ele, segue viva em movimentos populares. O Pampa ganhou assim seus rituais e seus heróis.

 

Ema — Os Animais dos Campos Abertos

O Pampa abriga quase 500 espécies de aves e mais de 100 de mamíferos terrestres. A Ema corre pelos campos, onde também vivem a Coruja-buraqueira, o Puma e a Capivara. Muitas dessas espécies dependem de campo aberto para viver e se reproduzir.

Algumas espécies só existem ali. O Tuco-tuco, Ctenomys flamarioni, é um roedor que vive em tocas na areia das dunas do litoral gaúcho e está ameaçado de extinção. O Veado-campeiro e o Cervo-do-pantanal também estão entre as espécies ameaçadas do bioma. A Onça-pintada e o Guanaco já desapareceram dos pampas. Enquanto isso, espécies vindas de fora, como o Javali, a Lebre-europeia e o Pardal, se espalharam pelos campos.

O Pampa também guarda um passado de gigantes. Até cerca de 12 mil anos atrás, a região tinha grandes mamíferos que foram extintos no fim da última era glacial. Hoje, a principal ameaça à fauna é a perda de hábitat. Quando o campo vira lavoura ou plantação de árvores, espécies com distribuição muito restrita podem desaparecer.

 

No Rio Grande do Sul, a tradição manda colher a marcela antes do nascer do sol na Sexta-feira Santa — para chá e para encher travesseiros

 

Estância — Gado, Soja e os Campos que Somem

Desde a colonização ibérica, a criação de gado em campo nativo é a principal atividade do Pampa. As estâncias, grandes fazendas de criação, moldaram a vida do gaúcho, com a lida campeira, o cavalo e o churrasco. Em 1985, a pecuária em campo nativo ocupava cerca de 9,8 milhões de hectares, o dobro da área agrícola.

Esse quadro mudou. Segundo o MapBiomas, a vegetação nativa caiu de 64% do bioma em 1985 para 44,5% em 2024, uma perda de 3,8 milhões de hectares. Os campos nativos encolheram 40%. A soja cresceu 385% no período e chegou a 3,2 milhões de hectares. As plantações de árvores, como eucalipto e pinus, passaram de 44 mil para 738 mil hectares.

A proteção é pequena. As unidades de conservação cobrem cerca de 3% do Pampa, a menor fatia entre todos os biomas brasileiros, segundo o MapBiomas. Mais de 87% das terras são particulares. Por isso, o futuro do bioma depende muito dos produtores que mantêm o gado sobre o campo nativo.

 

Horizonte — Um Campo que Precisa de Gente e de Gado

O Pampa é um bioma de capim, vento e horizonte. Seus campos guardam milhares de espécies de plantas, às vezes dezenas num único metro quadrado. Ali, o gado dos jesuítas se espalhou, os Guarani defenderam suas terras e a cultura gaúcha nasceu em volta da cuia de chimarrão.

Hoje, esse campo perde espaço para a soja e para as plantações de árvores. Diferente de uma floresta, o Pampa não precisa ser deixado intocado. Ele convive bem com o gado criado sobre o capim nativo. Basta olhar de perto para ver a riqueza escondida no capim. Cuidar do Pampa é manter de pé, ou melhor, rente ao chão, essa paisagem de capim, vento e horizonte.

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