Pantanal: A Planície que Vive no Ritmo das Cheias

Entre Brasil, Bolívia e Paraguai, o Pantanal fica 80% alagado na estação das chuvas, guarda milhões de jacarés e abriga uma arara que depende de uma árvore plantada pelo seu próprio predador

 

Planície — O Bioma que Respira com as Cheias

No Pantanal, o calendário é feito de água. Na estação das chuvas, rios transbordam, campos viram lagoas e o gado é levado para as partes mais altas. Na seca, a água recua, os peixes ficam presos nas baías e milhares de aves chegam para comer.

Esse sobe e desce das águas, chamado de pulso de inundação, molda tudo no Pantanal. Define onde cada planta cresce, onde os animais se reproduzem e como as pessoas vivem, desde os povos indígenas canoeiros até os peões das fazendas de gado.

Esta é a história do Pantanal, a planície alagável do centro da América do Sul que guarda milhões de jacarés, uma arara que depende de uma árvore e de um tucano, e uma vegetação que aprendeu a conviver com a água e com o fogo.

 

Cheia — Uma Planície Entre 3 Países

O Pantanal fica no centro da América do Sul, entre Brasil, Bolívia e Paraguai. No Brasil, ocupa sobretudo o Mato Grosso do Sul e avança pelo Mato Grosso. As estimativas da área total variam entre 140 mil e 195 mil quilômetros quadrados, dependendo do critério usado para marcar os limites.

É uma planície muito baixa, entre 80 e 150 metros de altitude, por onde corre o rio Paraguai e seus afluentes. A maior parte da chuva cai entre novembro e março. Janeiro costuma ser o mês mais chuvoso, com cerca de 340 milímetros, e junho o mais seco, com apenas 3 milímetros.

Na estação chuvosa, cerca de 80% da planície fica submersa. No rio Paraguai, o nível sobe de 2 a 5 metros ao longo do ano. Como o terreno é quase plano, a água se move devagar, de 2 a 10 centímetros por segundo. Por isso, a cheia demora meses para atravessar o Pantanal, e um lugar pode ficar alagado mesmo depois que a chuva já parou.

 

Numa planície quase sem declive, a água das chuvas escoa tão devagar que leva meses para baixar — e as ilhas de mata mais altas viram refúgio na cheia

 

Aterro — Os Canoeiros Guató e os Morros Feitos à Mão

Os Guató são um dos povos indígenas que vivem no Pantanal há muito tempo. Sua vida sempre girou em torno da água. A principal forma de transporte é a canoa, chamada manum, feita da madeira leve do Cambará, defumada e untada com gordura animal para resistir à água e aos insetos.

Para escapar das cheias, os Guató construíram aterros, morros artificiais feitos com terra e conchas carregadas em cestos. Cada aterro pertence a uma família e leva o nome do patriarca. Sobre eles, os Guató plantaram palmeiras de Acuri e passavam a estação chuvosa em terreno seco.

A história do povo teve momentos duros. Na Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, muitos Guató lutaram e serviram de guias para soldados brasileiros. Depois vieram a varíola e a perda de terras para fazendeiros. Na década de 1950, chegaram a ser dados como extintos pelo governo. Em 1976, missionários reencontraram famílias Guató em Corumbá, e em 2014 o povo somava 419 pessoas.

 

Paratudo — Plantas que Convivem com a Água e o Fogo

O Pantanal tem cerca de 2.500 espécies de plantas. A maior parte veio de biomas vizinhos, como o Cerrado e a Amazônia, além do Chaco e da Mata Atlântica. Por isso, o Pantanal é um ponto de encontro de floras diferentes, misturadas numa mesma planície.

Os campos dominam a paisagem e cobrem mais da metade do bioma. As florestas ocupam perto de 20%, e áreas de vegetação parecida com o Cerrado ficam com outros 9%. A água limita quem pode viver ali. Quando o solo fica encharcado, os poros se enchem de água, o oxigênio some e muitas espécies não sobrevivem.

O Paratudo, Tabebuia aurea, mostra como algumas plantas aproveitam esse ambiente. A alternância de cheias e fogo favorece essa árvore de flores amarelas, que forma os paratudais, áreas onde ela domina sobre outras 35 espécies. O solo também guarda reservas. Amostras de lagoas temporárias perto de Miranda tinham sementes de 70 espécies esperando a próxima cheia para germinar.

 

As piúvas, os ipês-roxos do Pantanal, florescem no meio da seca, sem nenhuma folha — pintando de rosa a planície quando a água já recuou

 

Pacto — A Árvore, a Arara e o Tucano

No Pantanal, uma árvore liga o destino de 2 aves famosas. O Manduvi, Sterculia apetala, é onde a Arara-azul-grande constrói cerca de 90% dos seus ninhos. Sem árvores grandes e ocas de Manduvi, a arara fica sem lugar para criar os filhotes.

Quem planta o Manduvi é o Tucano-toco. Um estudo feito entre 2002 e 2005 na Fazenda Rio Negro, no Pantanal da Nhecolândia, mostrou que o tucano dispersa perto de 85% das sementes da árvore. Das 14 espécies de aves que comem o fruto, só o Tucano-toco e o Araçari engolem e espalham as sementes.

A surpresa é que o mesmo tucano também ataca os ninhos da arara. Segundo o mesmo estudo, o tucano responde por cerca de 53% da predação de ovos de Arara-azul-grande. Ou seja, a arara depende do seu próprio predador para que novas árvores nasçam. Os pesquisadores, entre eles Mauro Galetti e Neiva Guedes, chamaram atenção para essa relação para mostrar como a conservação precisa olhar para o conjunto.

 

Jacaré — Milhões de Olhos nas Águas

A fauna do Pantanal é fácil de ver, porque a paisagem é aberta e os animais se concentram perto da água na seca. Já foram registradas 463 espécies de aves, 269 de peixes, mais de 236 de mamíferos e 141 de répteis e anfíbios. Entre as aves estão 13 espécies de garças e 19 de papagaios e araras.

O Jacaré-do-pantanal, Caiman yacare, é presença constante em rios e baías. Dados de 1996 estimavam cerca de 10 milhões de jacarés na planície. A Capivara e a Jaguatirica também são comuns, e a Onça-pintada tem no Pantanal uma população grande e saudável.

A Arara-azul-grande, Anodorhynchus hyacinthinus, é o símbolo de uma recuperação lenta. A espécie sofreu muito com o tráfico de animais. Hoje, estima-se que existam cerca de 5 mil araras-azuis no Brasil, a maior parte no Pantanal. Apesar da riqueza, só cerca de 5% dos 1.213 vertebrados registrados ali não existem em nenhum outro lugar, já que muitos vêm dos biomas vizinhos.

 

Da bocaiuva, palmeira típica do Pantanal, sai uma polpa amarela e pegajosa que vira farinha, sorvete e bolo — e cuja semente é estudada para biodiesel

 

Pantaneiro — Gado, Parques e o Fogo de 2020

A criação de gado faz parte da história do Pantanal há gerações. Cerca de 99% das terras são particulares, divididas em aproximadamente 2.500 fazendas com até 8 milhões de cabeças de gado. Os peões pantaneiros conduzem rebanhos pelos campos e acompanham o ritmo das cheias.

Algumas áreas foram protegidas. O Parque Nacional do Pantanal Matogrossense foi criado em 1981 e se tornou área Ramsar, de importância internacional para áreas úmidas, em 1993. Em 2000, a Unesco reconheceu como Patrimônio Mundial um conjunto de áreas protegidas do Pantanal com 187.818 hectares.

O bioma também vive momentos de crise. Em 2020, o fogo atingiu cerca de 30% do Pantanal, perto de 4,5 milhões de hectares. Um estudo publicado em 2021 estimou que cerca de 17 milhões de vertebrados morreram nas chamas, entre cobras, aves, roedores, tatus, macacos e jacarés. Em 2024, segundo o MapBiomas, a superfície de água ficou 61% abaixo da média histórica.

 

Pulso — Uma Planície que Depende da Água

O Pantanal vive no ritmo das cheias. A água sobe, espalha sementes, peixes e nutrientes, e depois recua, deixando campos verdes e baías cheias de vida. Plantas como o Paratudo aprenderam a conviver com a água e com o fogo, e povos como os Guató ergueram morros para atravessar as enchentes.

Também é ali que a Arara-azul-grande depende do Manduvi e do Tucano-toco, e que milhões de jacarés vigiam as águas. Mas o fogo de 2020 e as secas recentes mostram como esse equilíbrio é frágil. Cada ano sem cheia muda a paisagem e a vida de quem depende dela. Proteger o Pantanal é proteger o pulso de água que mantém essa planície viva.

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