A Coroa das Frutas Tropicais
O Abacaxi parece ter sido desenhado para chamar atenção: casca em escamas, perfume forte e uma coroa de folhas no topo. Não por acaso, virou símbolo de luxo na Europa, enfeite de portões aristocráticos e ícone dos trópicos.
Mas sua história começa bem antes, no norte da América do Sul. Ali, povos indígenas o domesticaram há milhares de anos e o espalharam por boa parte do continente. Quando Colombo chegou ao Caribe em 1493, o Abacaxi já era cultivado de ilha em ilha.
Hoje, o Brasil está entre os grandes produtores do mundo, e o Pará lidera a produção nacional. Esta é a história de uma bromélia que ganhou coroa, virou moda entre reis e acabou no prato de todo dia.
Ananas — Uma Bromélia do Norte da América do Sul
O Abacaxi pertence à espécie Ananas comosus, da família Bromeliaceae, a mesma das bromélias ornamentais e da Barba-de-velho. É a única bromélia cultivada em grande escala por seu fruto. O nome Abacaxi vem do tupi i’bá ka’ti, “fruta de cheiro forte”, e Ananás vem de naná, outra palavra indígena para a fruta. Já os espanhóis a chamaram de piña, e os ingleses de pineapple, pela semelhança com a pinha dos Pinheiros.
Em 2015, um consórcio internacional publicou na Nature Genetics o genoma do Abacaxi. Os pesquisadores concluíram que ele foi domesticado no norte da América do Sul, possivelmente há mais de 6 mil anos. Seus parentes selvagens crescem em áreas abertas e secas da Amazônia e do Escudo das Guianas.
Os indígenas plantavam o Abacaxi por mudas, e não por sementes, então cada planta boa era copiada direto, sem cruzamentos. Segundo pesquisadores da Universidade de Illinois, esse tipo de propagação permite domesticar uma planta quase de uma só vez: basta escolher o melhor pé e multiplicá-lo.
Colombo — Do Caribe aos Palácios da Europa
Em novembro de 1493, na segunda viagem, Colombo e sua tripulação encontraram o Abacaxi na ilha de Guadalupe, no Caribe. A fruta já estava espalhada por boa parte das Américas, levada por povos indígenas em suas trocas e migrações. No século 16, o cronista espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo a descreveu com entusiasmo como uma das frutas mais belas e saborosas que já tinha visto.
Os portugueses e os espanhóis levaram mudas para a África, a Índia e o Sudeste Asiático ainda no século 16. Como a coroa pode ser plantada e aguenta viagens longas, o Abacaxi se espalhou com facilidade pelos trópicos.
Na Europa fria, porém, cultivá-lo era um desafio. Em 1675, o rei Charles II, da Inglaterra, recebeu um Abacaxi vindo de Barbados, e a cena foi registrada em pintura. Nas décadas seguintes, aristocratas britânicos construíram estufas aquecidas, as pineries, só para produzir a fruta. Um único Abacaxi podia custar uma pequena fortuna.
Bromelina — A Enzima que Digere a Carne
O Abacaxi tem vitamina C, manganês, fibras e açúcares naturais. Seu grande segredo químico é a bromelina, um conjunto de enzimas que quebram proteínas. É por isso que o suco de Abacaxi amacia carnes em marinadas, e o fruto cru impede que a gelatina endureça.
A mesma enzima explica a leve ardência na língua depois de comer muito Abacaxi: a bromelina começa a digerir as proteínas da boca, mas a saliva e o estômago logo a desativam. Cozido ou em lata, o Abacaxi perde boa parte da bromelina, porque o calor destrói as enzimas. Por isso, gelatina com Abacaxi em calda dá certo, e com Abacaxi fresco, não. Quem descasca Abacaxi o dia inteiro costuma usar luvas, porque a enzima irrita a pele das mãos.
A bromelina extraída do caule da planta é vendida como suplemento e estudada para inflamações e inchaços depois de cirurgias. Segundo o Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos, os resultados ainda são limitados e não permitem conclusões firmes.
Hospitalidade — Um Símbolo e Uma Lenda
Na Grã-Bretanha do século 18, o Abacaxi virou símbolo de riqueza. Era tão caro que muitas vezes nem era comido: ficava exposto no centro da mesa até estragar. Há relatos de Abacaxis alugados para festas, só para impressionar os convidados.
A fruta foi parar na arquitetura. Pináculos de pedra em forma de Abacaxi decoraram portões, telhados e casas de campo, sinal de que o dono tinha dinheiro e bom gosto. Um exemplo conhecido é o Dunmore Pineapple, na Escócia, um pavilhão de jardim do século 18 coroado por um enorme Abacaxi de pedra.
É comum ler que, na América colonial, o Abacaxi na porta era sinal de boas-vindas aos visitantes. Historiadores apontam que essa ideia tem pouca base em documentos da época e só ganhou força no século 20. O Abacaxi como símbolo de riqueza é bem documentado. Já o de hospitalidade é, em boa parte, uma lenda moderna, repetida hoje em hotéis, restaurantes e objetos de decoração.
Infrutescência — Duzentas Flores em Um Só Fruto
O Abacaxi não é um fruto só. Cada escama da casca corresponde a uma flor, e todas se fundem ao redor de um eixo central, formando uma infrutescência de dezenas a cerca de 200 frutinhos. O miolo duro é esse eixo, o caule da inflorescência.
Os Abacaxis cultivados quase não têm sementes, porque se desenvolvem sem precisar de polinização. Quando as flores são polinizadas por beija-flores, podem surgir sementes pequenas e duras. Em muitas variedades, como a Pérola, as folhas longas e duras têm espinhos nas bordas. Cada planta dá, em geral, um fruto por ciclo, e cada ciclo leva de 1 ano e meio a 2 anos desde o plantio.
A planta também economiza água de um jeito especial. O Abacaxi faz fotossíntese do tipo CAM: abre os poros das folhas à noite, quando está mais fresco, para captar gás carbônico, e os fecha durante o dia para não perder água. Por isso resiste bem a solos pobres e secos, e muitas bromélias parentes vivem até sobre galhos de árvores e pedras.
Tepache — Do Havaí às Feiras do Pará
Em 1901, o americano James Dole começou a plantar Abacaxi no Havaí e, anos depois, passou a vender a fruta em lata. O Abacaxi enlatado chegou a mesas do mundo inteiro e deu origem a pratos como o bolo invertido e a pizza havaiana, criada no Canadá.
No México, a casca do Abacaxi vira tepache, uma bebida fermentada levemente alcoólica, adoçada com piloncillo e temperada com Canela. O nome vem do náuatle, e a bebida antiga era feita com Milho. A fermentação começa sozinha, graças às leveduras que vivem na própria casca, e em poucos dias a bebida fica pronta. No Brasil, a casca vira chá, e o fruto entra em sucos, doces e no clássico Abacaxi com Hortelã.
O Pará lidera a produção brasileira, com destaque para o município de Floresta do Araguaia, e a Paraíba aparece logo depois. A variedade Pérola, de polpa clara, doce e menos ácida, domina o mercado interno. A Smooth Cayenne, de polpa amarela, é a mais usada na indústria e na exportação em vários países.
Uma Coroa que Viaja
O Abacaxi foi domesticado no norte da América do Sul, espalhado pelos povos indígenas e encontrado por Colombo no Caribe. Levado por navegadores, ganhou os trópicos da África e da Ásia. Na Europa, virou símbolo de riqueza, cultivado em estufas e exibido em mesas e portões.
Hoje, está no suco de todo dia, no tepache mexicano e nas feiras do Pará. Por trás da coroa verde há uma bromélia que economiza água, um fruto feito de até 200 flores e uma enzima que digere carne. E cada coroa plantada ainda pode virar uma nova planta, repetindo o gesto dos primeiros agricultores que a domesticaram.
Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!
Fontes
- Ming, R. et al. The pineapple genome and the evolution of CAM photosynthesis. Nature Genetics, 2015. Link
- University of Illinois, IGB. Pineapple genome sequences hint at plant domestication in single step. Link
- CNN. How pineapples once became the pinnacle of luxury. Link
- Dicionário Etimológico. Abacaxi. Link
- Adepará. Pará lidera a produção nacional de abacaxi. Link
- Embrapa. Produção Integrada de Abacaxi em Floresta do Araguaia. Link

