Uma Raiz, Muitos Nomes
Poucas plantas causam tanta confusão no Brasil quanto o Inhame. No Nordeste, é uma raiz grande de casca áspera. Em boa parte do Sudeste, o nome era usado para outra planta, de outra família. E o Cará, conforme a região, é o mesmo Inhame ou uma planta diferente.
Por trás dessa confusão há uma história que liga 3 continentes. O Inhame atravessou o Atlântico na rota da escravidão, virou comida sagrada no Candomblé e é celebrado em festivais de colheita na Nigéria. Também deu origem a um capítulo decisivo da história da química.
Esta é a história da raiz que deu seu nome a línguas de todo o mundo.
Dioscorea — Um Nome que Veio da África
Os Inhames verdadeiros pertencem ao gênero Dioscorea, da família Dioscoreaceae, com cerca de 870 espécies espalhadas pelas regiões tropicais do mundo. Apenas algumas são cultivadas como alimento, e muitas contêm substâncias tóxicas.
As principais espécies têm origens diferentes. O Inhame-da-costa, Dioscorea cayennensis, e o Inhame-branco, Dioscorea rotundata, são africanos. O Inhame-de-são-tomé, Dioscorea alata, é do Sudeste Asiático. O Cará, Dioscorea trifida, é americano e já era cultivado por povos indígenas antes dos europeus.
A palavra Inhame vem de uma língua da África Ocidental, provavelmente o fula, e foi levada pelos portugueses. Do português, passou para o inglês yam e para muitas outras línguas.
Da África Ocidental ao Brasil pela Rota da Escravidão
A África Ocidental é o grande centro do Inhame no mundo, no chamado cinturão do Inhame. Ele vai da Costa do Marfim a Camarões e concentra a grande maioria da produção mundial. A Nigéria sozinha responde por cerca de dois terços dela.
Nos séculos do tráfico atlântico, o Inhame embarcou nos navios negreiros como alimento de viagem e foi plantado no Brasil nas roças dos africanos escravizados. Iorubás, fons, jejes e outros povos trouxeram junto técnicas de cultivo e receitas.
No Nordeste brasileiro, o Inhame-da-costa se tornou cultura tradicional, sobretudo na Paraíba e em Pernambuco, e é comido cozido no café da manhã e no almoço.
Diosgenina — A Raiz por Trás da Pílula
Como alimento, o Inhame é rico em amido e fibras, e traz potássio, vitamina C e vitamina B6. Precisa ser sempre cozido: várias espécies têm substâncias tóxicas ou irritantes quando cruas.
Algumas espécies de Dioscorea guardam um composto chamado diosgenina. Em 1942, o químico americano Russell Marker encontrou no México um Inhame selvagem gigante, a cabeça-de-negro, cujas raízes pesavam até 45 kg, rico em diosgenina. Ele desenvolveu um método para transformá-la em progesterona, e em 1944 fundou a empresa Syntex no México.
Foi com base nesse trabalho que a Syntex sintetizou, em 1951, a noretindrona, um dos primeiros hormônios usados na pílula anticoncepcional. Os cremes de “Inhame selvagem” vendidos hoje, porém, não viram progesterona no corpo: essa conversão só acontece no laboratório.
Oxaguiã, o Orixá Comedor de Inhame
No Candomblé, o Inhame é comida sagrada. Oxaguiã, a forma jovem e guerreira de Oxalá, é chamado de orixá comedor de Inhame pilado. Em sua festa, o Pilão de Oxaguiã, o Inhame cozido e amassado no pilão é oferecido e partilhado.
Para Oxum, o prato é o ipetê: Inhame cozido e amassado com cebola, camarão seco e azeite de dendê.
Na Nigéria, o povo Igbo celebra todo ano o Iri Ji, o Festival do Inhame Novo, no fim da estação chuvosa. Por tradição, ninguém come o Inhame da nova colheita antes que o líder da comunidade o ofereça aos deuses e aos ancestrais.
A Confusão Resolvida em 2001
Durante décadas, o Brasil usou os nomes Inhame e Cará de forma trocada. No Sudeste, Inhame era o nome popular da Colocasia esculenta, uma planta asiática da família Araceae, a mesma da Costela-de-adão. No Nordeste, Inhame era Dioscorea.
Em 2001, o 1º Simpósio Nacional sobre as Culturas do Inhame e do Cará, em Venda Nova do Imigrante, no Espírito Santo, propôs uma padronização. Inhame passou a designar as espécies de Dioscorea, e Taro, a Colocasia esculenta, seguindo o uso internacional.
Na prática, muitas feiras do Sudeste ainda chamam o Taro de Inhame, e a confusão resiste.
Paraíba, Pernambuco e a Mesa Nordestina
No Nordeste, o Inhame-da-costa é plantado sobretudo na Zona da Mata e no Agreste da Paraíba e de Pernambuco. Ele aparece no café da manhã com manteiga de garrafa, charque ou carne de sol, cozido com sal, e em sopas e caldos.
O Inhame também chegou às cozinhas do Sudeste e virou ingrediente de purês, pães e receitas saudáveis. Muitas vezes, o que está no prato é o Taro, chamado de Inhame por força do hábito.
Nas mesas do Candomblé, nas feiras do Agreste e nas cozinhas das cidades, a mesma raiz continua carregando a memória da África Ocidental.
A Palavra que Atravessou o Atlântico
O Inhame viajou mais longe que a própria planta. Seu nome, vindo de uma língua africana, está hoje em português, inglês e dezenas de outras línguas.
A raiz alimentou africanos escravizados, sustenta milhões de famílias na Nigéria e virou oferenda de Oxaguiã e ipetê de Oxum. Uma espécie mexicana ajudou a criar os hormônios da pílula anticoncepcional. Poucas plantas conectam tão bem a comida do dia a dia, a religião, a ciência e a história da diáspora africana.
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Fontes
- Pedralli, G. et al. Uso de nomes populares para as espécies de Araceae e Dioscoreaceae no Brasil. Horticultura Brasileira, 2002. Link
- Science History Institute. Russell Earl Marker. Link
- Chemistry World. The birth of the pill. Link
- Wikipedia. Yam (vegetable). Link
- Wikipedia. New Yam Festival of the Igbo. Link
- Wikipédia. Ipeté. Link

