Margarida: A Flor que São Muitas, do Bem-me-quer à Marcha das Margaridas

Da Europa que a gerou ao campo de flores que simboliza inocência e amor — a Margarida foi a flor favorita de Maria Antonieta, é tecnicamente duas flores em uma e seu nome vem do grego margarítes, pérola

 

Uma Flor que São Muitas

Bem-me-quer, mal-me-quer. Muitas crianças aprenderam a perguntar sobre o amor arrancando as pétalas brancas de uma Margarida. O que quase ninguém sabe é que cada uma dessas pétalas é, na verdade, uma flor inteira.

A Margarida é uma inflorescência: dezenas ou centenas de florzinhas reunidas numa só cabeça, que engana os olhos e os insetos. Esse truque é a marca da família Asteraceae, a mesma do Girassol, do Crisântemo e da Alface.

Com um nome que significa pérola, a Margarida atravessou prados europeus, jardins de reis, livros de poetas e movimentos sociais. No Brasil, deu nome a uma grande mobilização de trabalhadoras rurais, em homenagem a uma sindicalista paraibana. Esta é a história de uma flor simples só na aparência.

 

Bellis e Leucanthemum — As Margaridas da Europa

O nome Margarida é dado a várias plantas parecidas. A pequena Margarida dos gramados europeus é a Bellis perennis, nativa do oeste, do centro e do norte da Europa. A Margarida-dos-campos, maior, é a Leucanthemum vulgare, nativa da Europa e da Ásia temperada. Nos jardins e floriculturas brasileiras, a mais comum é a Margarida-shasta, Leucanthemum × superbum, de flores grandes.

Todas pertencem à família Asteraceae, que reúne mais de 30 mil espécies espalhadas por quase todos os ambientes do planeta. No Brasil, uma parente de flores amarelas, nativa das Américas, também é chamada de margarida em muitos lugares: a Vedélia, Sphagneticola trilobata, comum em canteiros e taludes.

A Margarida-shasta tem uma origem curiosa. Por volta de 1890, o horticultor americano Luther Burbank cruzou a Margarida-dos-campos com outras espécies europeias e com uma Margarida japonesa, Nipponanthemum nipponicum. O resultado foi uma flor maior e mais branca, batizada em homenagem ao monte Shasta, na Califórnia, pela cor de neve das pétalas.

 

A Margarida é da família Asteraceae — cada uma é um capítulo, com as flores amarelas do centro e as pétalas brancas, cada uma sendo uma flor

 

Margaritēs — A Pérola que Virou Flor

O nome Margarida vem do grego margaritēs, pérola, pelo latim margarita. Em francês, marguerite é ao mesmo tempo nome de mulher e de flor, e foi por esse caminho que a palavra chegou ao português como nome da planta. A ideia faz sentido: as flores brancas espalhadas pelo gramado lembram pequenas pérolas.

Em inglês, a Margarida é daisy, uma forma desgastada de day’s eye, olho do dia. A pequena Bellis perennis fecha à noite e reabre pela manhã, e o poeta inglês Geoffrey Chaucer já a chamava de olho do dia no século 14. O nome do gênero, Bellis, vem provavelmente do latim bellus, bonito.

Com os colonizadores e o comércio de sementes, as Margaridas europeias se espalharam pelas regiões de clima temperado de todos os continentes. A Margarida-dos-campos, em especial, viajou misturada a sementes de pasto e de grãos. Hoje é considerada invasora em mais de 40 países, onde forma tapetes brancos que expulsam plantas nativas.

 

Bruisewort — A Erva dos Machucados

Na Europa medieval, a pequena Bellis perennis era conhecida em inglês como bruisewort, a erva dos machucados. Suas folhas e flores eram usadas em compressas contra contusões e feridas, pelo efeito adstringente. Ervanários antigos também a recomendavam em chás para tosse e inflamações. O botânico inglês John Gerard, no fim do século 16, incluiu a Margarida entre as plantas úteis contra ferimentos e dores nas juntas.

As folhas novas da Bellis perennis podem ser comidas cruas em saladas ou cozidas, como verdura. Os botões ainda fechados da Margarida-dos-campos podem ser conservados em vinagre e usados como alcaparras, um uso antigo que voltou à moda na cozinha de plantas silvestres.

Como outras plantas da família, as Margaridas contêm flavonoides, como a apigenina e a luteolina, estudados em laboratório por ações antioxidantes e anti-inflamatórias. Mas há cuidados. Pessoas alérgicas a plantas da família Asteraceae, como a Camomila e a Arnica, podem ter reações de pele ou respiratórias ao manipular Margaridas.

 

O nome vem do grego margarítes, pérola — e a Margarida-do-campo é nativa das pradarias da Europa e da Ásia temperada

 

Bem-me-quer — O Oráculo das Pétalas

Arrancar pétalas para saber se alguém nos ama é um jogo antigo. Em francês, effeuiller la marguerite é desfolhar a Margarida contando il m’aime, un peu, beaucoup, passionnément, à la folie, pas du tout. Em português, o bem-me-quer, mal-me-quer virou brincadeira de infância e até outro nome popular da flor. Em Portugal, malmequer é o nome dado a várias flores parecidas com a Margarida, que enfeitam campos e canteiros na primavera.

Na Idade Média, a Margarida era chamada em inglês de Rosa de Maria e se tornou símbolo de pureza e inocência. O nome Margarida também foi usado por rainhas e santas. No século 15, a rainha Margarida de Anjou, esposa de Henrique VI da Inglaterra, usava a flor como emblema pessoal, num trocadilho visual com o próprio nome. Margarida, Marguerite e Margaret passaram a ser, ao mesmo tempo, nomes de flor e de mulher.

As correntes de Margaridas, flores amarradas pelo caule umas às outras, são brincadeira tradicional das crianças inglesas. A Margarida-dos-campos é a flor nacional da Letônia desde 1994, escolhida por votação de uma sociedade botânica.

 

Capítulo — Uma Cabeça Feita de Flores

O centro amarelo da Margarida é formado por centenas de pequenas flores em forma de tubo, as flores do disco. As pétalas brancas são flores do raio, cada uma com uma única lígula. Juntas, formam o capítulo, uma estrutura que funciona como uma só flor para atrair polinizadores.

No centro, as flores se organizam em espirais que seguem a sequência de Fibonacci, como nas sementes do Girassol. Muitas Margaridas têm números de pétalas como 13, 21 ou 34, e isso torna o resultado do bem-me-quer menos aleatório do que parece.

Outro segredo está na força de espalhamento. Uma única planta de Margarida-dos-campos pode produzir até 26 mil sementes, que podem ficar viáveis no solo por quase 40 anos. E há um engano histórico famoso. Na foto de 1967 em que manifestantes contra a Guerra do Vietnã põem flores nos canos dos fuzis, no Pentágono, as flores eram cravos, e não Margaridas.

 

Do bem-me-quer, mal-me-quer ao inglês daisy, que vem de day's eye, olho do dia, porque a Bellis perennis se fecha à noite

 

Marcha das Margaridas — De Alagoa Grande a Brasília

No Brasil, a Margarida ganhou um significado político. Margarida Maria Alves, nascida em 1933 em Alagoa Grande, na Paraíba, presidiu por 10 anos o Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade. Em 12 de agosto de 1983, foi assassinada a tiros em casa por um pistoleiro, em represália à sua luta pelos direitos dos trabalhadores do campo.

Sua frase ficou famosa: “Da luta não fujo. É melhor morrer na luta do que morrer de fome”. Em sua memória, trabalhadoras rurais criaram, em 2000, a Marcha das Margaridas, que reúne periodicamente milhares de mulheres em Brasília, com a flor como símbolo. Em 2012, o dia 12 de agosto foi instituído como Dia Nacional dos Direitos Humanos, também em sua memória.

Nos jardins, a Margarida-shasta é cultivada em canteiros e usada em buquês, e a Vedélia cobre taludes e jardins públicos. Nas floriculturas, as Margaridas brancas continuam a ser flores simples e alegres de presentear, e aparecem em buquês de noiva, arranjos de festa e vasos de janela. Como gostam de sol e de clima ameno, crescem melhor nas regiões serranas e no Sul do país.

 

Uma Flor de Muitas Flores

A Margarida é uma flor que são muitas. Nasceu nos prados europeus, ganhou nome de pérola e virou erva de machucados, oráculo de namorados e emblema de rainha. Espalhou-se pelo mundo com as sementes de pasto e se tornou invasora em dezenas de países. Nas mãos de Luther Burbank, ganhou flores maiores e virou estrela de jardim.

No Brasil, virou símbolo da luta de uma sindicalista pelos trabalhadores do campo e deu nome a uma marcha. Da próxima vez que alguém arrancar suas pétalas no bem-me-quer, vale lembrar: cada pétala é uma flor, e cada Margarida guarda uma história maior do que parece.

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Fontes

  • Wikipedia. Bellis perennis. Link
  • Wikipedia. Leucanthemum vulgare. Link
  • Wikipedia. Leucanthemum × superbum. Link
  • Wikipédia. Margarida Alves. Link
  • Getty Images. George Harris sticks carnations in gun barrels. Link
  • History.com. Behind the Photo: Flower Power. Link

 

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