Pera: A Fruta da Paciência, do Tian Shan ao Jardim das Pereiras

Domesticada na China e perto do Cáucaso, a Pera passou pela Odisseia, virou poiré na Normandia, nomeou a ópera chinesa e hoje chega ao Brasil quase toda importada

 

Pomar — A Fruta que se Colhe Antes da Hora

A Pera é uma fruta de paciência. Quem planta uma pereira pode esperar anos pela primeira colheita, e quem colhe a fruta precisa tirá-la do pé ainda dura, para que amadureça fora da árvore. Acertar o ponto da Pera é quase uma arte.

Essa paciência atravessou milênios. A fruta nasceu nas montanhas da Ásia Central, foi domesticada em 2 cantos diferentes do mundo e apareceu em poemas gregos, livros romanos, jardins de reis e escolas de ópera chinesas.

Esta é a história do gênero Pyrus, das Peras-d’água asiáticas às variedades europeias de casca fina, passando por uma bebida fermentada antiga, por uma superstição chinesa e pelas caixas que chegam ao Brasil vindas da Argentina e de Portugal.

 

Tian Shan — As Montanhas onde Tudo Começou

O gênero Pyrus surgiu no sopé do Tian Shan, uma cadeia de montanhas no oeste da China. De lá, as pereiras selvagens se espalharam para o norte e para o sul, seguindo as cadeias de montanhas da Ásia e da Europa, e deram origem a dezenas de espécies.

A Pera foi domesticada pelo menos 2 vezes. Na China, o cultivo começou há cerca de 4 mil anos, com espécies como a Pyrus pyrifolia, a Pera asiática, redonda e crocante, que no Brasil costuma ser chamada de Pera-d’água. O outro centro ficava na Ásia Menor, perto das montanhas do Cáucaso, de onde veio a Pera europeia, Pyrus communis.

Na Europa, a fruta já era comida em tempos pré-históricos. Restos de peras foram encontrados em antigas aldeias construídas sobre estacas às margens do lago de Zurique, na Suíça. Hoje existem cerca de 3 mil variedades de Pera cultivadas no mundo, de frutas grandes e amanteigadas a pequenas peras amargas usadas só para bebidas.

 

A flor da pereira se reconhece pelas anteras vermelho-escuras no centro das pétalas brancas — na macieira, prima da mesma família, elas são amarelas

 

Alcínoo — Dos Jardins de Homero às Peras Amanteigadas

A Pera aparece na Odisseia, de Homero. No jardim do rei Alcínoo, descrito no canto 7, a fruta cresce ao lado de Romãs, Maçãs, Figos, Azeitonas e Uvas. O poema diz que ali pera amadurece sobre pera, num pomar que nunca para de dar frutos, em qualquer estação do ano.

Em Roma, o naturalista Plínio, o Velho, citou cerca de 3 dezenas de variedades e recomendou cozinhar a fruta com mel. Um livro de receitas romano, conhecido como De re coquinaria, também traz pratos feitos com peras.

Nos séculos 18 e 19, franceses e belgas se dedicaram a criar peras de polpa macia e sabor amanteigado, muitas delas com a palavra Beurré, manteiga em francês, no nome. O belga Jean-Baptiste Van Mons semeou pereiras por 60 anos e criou pelo menos 40 variedades, entre elas a Bosc e a D’Anjou. Para ele, o segredo era semear, semear de novo e semear para sempre.

 

Esclereídes — A Areia Dentro da Polpa

Quem morde uma Pera às vezes sente pequenos grãos, como areia. São as células pétreas, ou esclereídes, células de parede grossa e dura que ficam espalhadas pela polpa. A quantidade varia de uma variedade para outra. Essas células são parentes das que formam as cascas duras de nozes e caroços.

A Pera europeia tem outra particularidade. Se ficar madura no pé, a polpa pode ficar farinhenta, granulosa e passar rapidamente do ponto, principalmente no calor. Por isso, ela é colhida ainda firme e amadurece depois, em temperatura amena, por 1 a 3 semanas. Esse cuidado também reduz a formação das células duras e faz a fruta amadurecer de forma mais uniforme, por dentro e por fora.

A madeira da pereira tem seus próprios usos. Densa e de grão fino, é usada na fabricação de instrumentos de sopro de qualidade e de móveis. Por séculos, também serviu para entalhar blocos de xilogravura, usados para imprimir imagens antes da fotografia.

 

A pera cultivada descende de pereiras selvagens da Europa e da Ásia Ocidental — árvores altas, com galhos espinhosos e frutos pequenos e duros

 

Lí — A Fruta que Não se Divide

Na China, a Pera carrega uma superstição curiosa. A palavra para Pera, lí, tem o mesmo som da palavra que significa separar. Por isso, dividir uma Pera, fēn lí, soa exatamente como separar-se ou divorciar-se.

A regra é simples: 2 pessoas nunca devem dividir uma mesma Pera, sejam namorados, casais, pais e filhos ou amigos. Fazer isso seria como anunciar a separação. Se 3 ou mais pessoas dividirem a fruta, porém, não há problema. Pelo mesmo motivo, guias de etiqueta chinesa costumam desaconselhar peras como presente.

A Pera também deu nome a um capítulo da história da arte chinesa. Durante a dinastia Tang, o imperador Xuanzong, que reinou no século 8, criou em Chang’an, atual Xi’an, o Jardim das Pereiras, uma academia real de artes cênicas que formava centenas de músicos, dançarinos e atores. Seus alunos eram chamados de filhos do Jardim das Pereiras, e por séculos a expressão Jardim das Pereiras passou a designar todo o mundo da ópera chinesa.

 

Poiré — O Vinho das Peras para os Herdeiros

A Pera também vira bebida. O poiré, chamado de perry em inglês, é um fermentado de peras feito de forma parecida com a sidra de maçã. No século 4, São Jerônimo já mencionava uma bebida de peras chamada piracium.

As peras usadas no poiré são diferentes das de mesa. São adstringentes, ruins de comer cruas, e têm muito sorbitol, um açúcar que as leveduras não fermentam. Por isso, a bebida costuma manter um leve dulçor e uma textura macia. Na Inglaterra, o poiré se firmou entre os séculos 16 e 17 nos condados de Herefordshire, Gloucestershire e Worcestershire.

Na Normandia, na França, a região de Domfront tem denominação de origem para o poiré desde 2002. A bebida precisa ter pelo menos 40% da Pera Plant de Blanc. Um ditado diz que quem planta pereiras planta para os herdeiros: as árvores podem levar mais de 10 anos para dar frutos e produzir por até 250 anos.

 

Na Normandia e na Inglaterra, peras fermentadas viram o poiré, ou perry — uma "sidra" de pera feita com variedades amargas, próprias para bebida

 

Rocha — A Pera que o Brasil Compra de Fora

Em Portugal, uma árvore diferente chamou atenção em 1836 na propriedade de Pedro António Rocha, em Sintra. Seus frutos tinham uma qualidade incomum, e dela nasceu a Pera Rocha, hoje protegida como Pera Rocha do Oeste, com denominação de origem. Na Inglaterra, entre 1765 e 1770, outra árvore nasceu no quintal de um professor chamado John Stair, em Aldermaston. Divulgada por um viveirista chamado Williams, virou a Pera Williams. Nos Estados Unidos, ganhou o nome de Bartlett.

O mundo produziu cerca de 27,6 milhões de toneladas de Pera em 2024, e a China respondeu por 76% desse total. No Brasil, a produção é pequena. Em 2023, o país colheu cerca de 15,7 mil toneladas, em pouco mais de mil hectares. O Rio Grande do Sul produz quase metade, seguido por Santa Catarina e Paraná.

O Brasil compra de fora quase toda a Pera que consome. Em 2024, importou cerca de 169 mil toneladas, o que fez dela a segunda fruta mais importada pelo país. A Argentina forneceu 73,5% desse volume, e Portugal, 17,7%. Em Santa Catarina, produtores plantaram mudas de Pera Rocha trazidas de Portugal para tentar mudar esse quadro.

 

Paciência — Uma Fruta Feita de Tempo

A Pera nasceu nas montanhas do Tian Shan, foi domesticada na China e perto do Cáucaso e entrou nos jardins de Homero, nos livros de Roma e nos viveiros de Van Mons. Em cada lugar, ganhou uma forma diferente, da Pera-d’água crocante às peras amanteigadas da Europa.

Sua história também está nos detalhes: nas células que parecem areia, na colheita antes da hora, no poiré que atravessa gerações e na superstição chinesa que impede 2 pessoas de dividirem a fruta. Quem planta uma pereira aposta no futuro, e quem morde uma Pera madura no ponto certo está provando o resultado de muitas gerações de espera.

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