Cambuci: a Fruta Azeda da Mata Atlântica que Deu Nome a um Bairro de São Paulo

Com nome de pote de barro, o Cambuci sumiu da paisagem paulistana, sobreviveu em áreas de proteção e voltou à mesa graças a festivais e produtores da Serra do Mar

 

 

Azedo — Uma Fruta que Prefere a Panela

O Cambuci é uma fruta verde, achatada e perfumada, que pouca gente come direto do pé. Seu aroma é doce, mas o sabor é muito azedo. Por isso, ele costuma ir para a panela, o liquidificador ou a garrafa, e reaparece como geleia, sorvete, molho, licor e cachaça.

Essa fruta da Mata Atlântica já foi comum na região da cidade de São Paulo e deu nome a um bairro tradicional da capital. Com o avanço da cidade e o desmatamento, ficou rara e quase esquecida, até que produtores, pesquisadores e festivais começaram a trazê-la de volta.

Esta é a história da Campomanesia phaea, o Cambuci, cujo nome lembra um pote de barro, que sobrevive em áreas de proteção no extremo sul paulistano, que virou rota gastronômica em vários municípios da Serra do Mar e que só recentemente começou a ser estudada para domesticação.

 

Pote — Um Nome Tirado da Cerâmica Indígena

O nome Cambuci vem do tupi-guarani e se refere a um pote de barro. Segundo o Sustentarea, núcleo de pesquisa e extensão da Universidade de São Paulo, a palavra significa pote d’água, numa referência ao formato do fruto, que lembra as vasilhas de cerâmica dos povos indígenas.

A planta pertence à família das Mirtáceas, a mesma da goiaba e da pitanga. Ao longo do tempo, recebeu outros nomes científicos, como Abbevillea phaea e Paivaea langsdorffii, até ser classificada como Campomanesia phaea. A árvore é chamada de cambucizeiro, e o fruto, simplesmente de cambuci.

É importante não confundir o Cambuci com o Cambucá, outra fruta nativa, de nome parecido. O Cambuci é endêmico da Mata Atlântica do Sudeste brasileiro. Ele ocorre sobretudo em São Paulo, perto da Serra do Mar, e também aparece em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e, segundo algumas fontes, no Paraná. As listas de distribuição variam de uma fonte para outra.

 

A Campomanesia phaea pertence à família Myrtaceae — a mesma da goiaba, da pitanga e do eucalipto — e é endêmica da Mata Atlântica paulista, crescendo naturalmente apenas na Serra da Mantiqueira e arredores

 

Cidade — A Fruta que Batizou um Bairro

O Cambuci já foi abundante na região da cidade de São Paulo e acabou dando nome a um bairro tradicional da capital. Com o crescimento urbano e o desmatamento, porém, as árvores foram sumindo, e o nome do bairro passou a lembrar uma árvore que quase não se via mais nas ruas da capital.

Na capital, o Cambuci ainda é encontrado nas áreas de proteção ambiental Capivari-Monos e Bororé-Colônia, no extremo sul da cidade, nas regiões de Parelheiros e da Capela do Socorro. A primeira foi criada por lei municipal em 2001, e a segunda em 2006.

Em outras cidades da região, a fruta virou símbolo. Em Mogi das Cruzes, o Cambuci é considerado um dos símbolos locais, e em 2018 a prefeitura plantou mudas em parques para que os moradores conhecessem a árvore. A conservação da espécie, porém, enfrenta o desmatamento, a expansão urbana e a baixa taxa de propagação da planta.

 

Casca — Uma Árvore que Troca de Pele

O cambucizeiro é uma árvore semidecídua, que perde parte das folhas em certas épocas, e tem a casca que se solta do tronco de tempos em tempos. Sua altura varia conforme a fonte, de 3 a 9 metros. Os frutos têm forma de pires, são verde-escuros e chegam a cerca de 7 centímetros de diâmetro.

Mesmo maduro, o Cambuci continua verde, num tom opaco. Num estudo com 59 acessos de Natividade da Serra, os frutos pesavam em média 42 gramas, e a cor variava do verde ao verde-acinzentado e amarelado. A polpa é suculenta, com poucas sementes e aroma intenso e adocicado.

A acidez é sua marca. Nesse mesmo estudo, o pH da polpa ficou entre 2,39 e 2,83. A vitamina C variou de 31 a 139 miligramas por 100 gramas, com média de 72. Em outro trabalho, o ácido cítrico foi de 0,65% a 3,48% entre os acessos, e um deles teve acidez tão baixa que foi apontado como candidato para consumo ao natural.

 

O cambuci é considerado o fruto mais ácido do Brasil — com pH próximo ao do limão siciliano — e cresce numa faixa altitudinal específica entre 700 e 1.200 metros na Serra da Mantiqueira

 

Rota — Festivais que Trouxeram a Fruta de Volta

O Cambuci voltou à cena graças a uma rede de produtores e festivais. Segundo um projeto de lei da Câmara Municipal de São Paulo, a Rota Gastronômica do Cambuci promove desde 2008 um circuito anual de festivais. Desde 2012, ela é organizada junto com as áreas de proteção ambiental do sul da capital.

A rota passa por São Paulo, Rio Grande da Serra, Santo André, na vila de Paranapiacaba, Mogi das Cruzes, Salesópolis, Caraguatatuba e Paraibuna. Seu objetivo é recuperar o cultivo e o consumo sustentáveis da fruta, ajudar a conservar a Mata Atlântica e gerar renda para comunidades e agricultores familiares.

Em Ribeirão Pires, a 5ª edição do Festival do Cambuci, em dezembro de 2018, reuniu cerca de 5 mil pessoas, com apoio do Instituto Auá e da Rota do Cambuci. Na época, a rota já incluía mais de 10 municípios e mais de 15 eventos por ano. Um dos produtores, dono de restaurante no bairro do Cambuci, trabalhava havia 11 anos com a fruta.

 

Acesso — Uma Fruta Ainda por Domesticar

Apesar da tradição, o Cambuci quase não passou por melhoramento genético. Em 1997, um artigo na revista Economic Botany já o descrevia como uma fruta rara e com potencial econômico. Mesmo assim, até a década seguinte não havia trabalhos de domesticação da espécie.

Isso começou a mudar com pesquisas de campo. Pesquisadores propagaram 58 acessos a partir de sementes e os plantaram em 2006 em São Bento do Sapucaí, no interior paulista. Os resultados, publicados em 2016 na revista Bragantia, mostraram grande variação de tamanho, forma e acidez entre as plantas.

Outro desafio é multiplicar a árvore, que se propaga lentamente. Em 2021, um estudo apresentou a propagação do cambucizeiro em laboratório, e em 2022 a Universidade de São Paulo divulgou um protocolo de propagação para facilitar a produção de mudas. Quanto ao risco de extinção, as fontes divergem, porque a União Internacional para a Conservação da Natureza o classifica como pouco preocupante, enquanto estudos o descrevem como raro na natureza.

 

Quase extinto e quase esquecido até os anos 2000, o cambuci foi redescoberto pela gastronomia paulistana — hoje chefs premiados disputam a produção de pequenos agricultores de Paraibuna e região

 

Licor — Da Geleia à Cachaça

Na cozinha, o Cambuci aparece em sucos, geleias, molhos, licores, cachaças, bolos e sorvetes. Nos festivais, já foi servido em mousses, xaropes, cervejas, trufas, antepastos e até em bolo de rolo. Comunidades produtoras também fazem cosméticos e vendem mudas e sementes.

A química ajuda a explicar esse uso. Um estudo de 2021 publicado na revista Molecules analisou 10 acessos de 3 localidades e identificou o ácido cítrico como o principal ácido do fruto. Também encontrou teores de vitamina C comparáveis aos de frutas cítricas e diferenças de composição entre as amostras.

Para os pesquisadores da Bragantia, o baixo teor de açúcares e a alta acidez limitam o consumo do fruto fresco. Em compensação, o rendimento da polpa, a acidez e o ácido ascórbico tornam o Cambuci adequado para o processamento industrial, como bebidas fermentadas e doces. Assim, a mesma acidez que afasta quem morde a fruta crua atrai quem cozinha e fermenta.

 

Mata — Uma Fruta que Pede para Ser Lembrada

O Cambuci é uma fruta azeda e perfumada da Mata Atlântica, com nome de pote de barro e história ligada à própria cidade de São Paulo. Ele deu nome a um bairro, sumiu de boa parte da paisagem urbana e sobreviveu em áreas de proteção e quintais da Serra do Mar.

Nas últimas décadas, voltou à mesa por meio de festivais, produtores familiares e pesquisas que estudam suas plantas e seus frutos. Ainda pouco domesticado e com variedades que mal começaram a ser estudadas, ele segue como um exemplo de como uma fruta nativa pode gerar renda e ajudar a conservar a floresta. Cada geleia ou licor de Cambuci é também um pedaço de Mata Atlântica que continua de pé.

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