Urucum: O Pó Vermelho dos Rituais e das Receitas

Título sugerido: Urucum: O Vermelho que Caminha Descreveu em 1500 e Hoje Tinge o Cheddar Excerto Das margens dos rios amazônicos, onde foi domesticado, à carta de Pero Vaz de Caminha, aos cabelos dos Tsáchila e ao queijo cheddar, o Urucum é o corante natural que pintou povos inteiros e ainda colore boa parte da comida do mundo

 

A Primeira Planta Descrita no Brasil

Em 1º de maio de 1500, o escrivão Pero Vaz de Caminha terminou sua carta ao rei de Portugal. Entre as muitas descrições dos habitantes da terra recém-avistada, ele registrou os ouriços verdes cheios de grãos vermelhos, que, esmagados entre os dedos, faziam uma tinta com a qual os indígenas andavam pintados.

Os botânicos consideram essa a descrição mais precisa de uma planta em toda a carta. Era o Urucum.

Mais de 5 séculos depois, a mesma tinta vermelha continua pintando corpos em aldeias da Amazônia, colorindo o arroz das cozinhas nordestinas e dando cor a queijos na Europa. Esta é a história do vermelho mais antigo do Brasil.

 

Bixa orellana — Domesticada na Amazônia

O Urucum, Bixa orellana, pertence à família Bixaceae. É um arbusto ou pequena árvore de até 6 m, com flores rosadas ou brancas e frutos em cápsulas cobertas de espinhos macios, que se abrem ao secar e revelam dezenas de sementes vermelhas.

Um estudo publicado em 2015 na revista Economic Botany concluiu que o Urucum foi domesticado na Amazônia, a partir de uma forma selvagem chamada Bixa orellana var. urucurana, conhecida pelos moradores como Urucum-bravo. A forma selvagem tem frutos menores, que não se abrem sozinhos, e produz menos pigmento.

O nome Urucum vem do tupi e está ligado à ideia de vermelho. Em espanhol, a planta é chamada de achiote, do náuatle, e em inglês de annatto.

 

A Bixa orellana é da família Bixaceae — suas cápsulas espinhosas guardam sementes cobertas por um pigmento vermelho, a bixina

 

Da Amazônia ao Caribe e às Mesas da Europa

Muito antes dos europeus, o Urucum se espalhou das terras amazônicas para o Caribe e a Mesoamérica, levado de povo em povo. Os registros arqueológicos mais antigos da planta estão no Caribe, onde ela não cresce naturalmente. Isso mostra que as sementes viajaram com os humanos.

Na Mesoamérica, maias e astecas usavam o achiote para colorir de vermelho a bebida de cacau. Na península de Yucatán, a pasta de achiote ainda é a base do recado rojo, o tempero da cochinita pibil.

Depois da chegada dos europeus, o Urucum atravessou o Atlântico. Um dicionário holandês de 1743 é o registro mais antigo conhecido do seu uso para colorir queijos.

 

Bixina, Norbixina e o Corante E160b

A cor do Urucum está na camada cerosa que envolve as sementes. Ela concentra 2 pigmentos carotenoides: a bixina, que se dissolve em gordura, e a norbixina, que se dissolve em água. Essa dupla solubilidade é rara entre os carotenoides e permite usar o Urucum tanto em manteiga quanto em bebidas.

Na indústria, o corante de Urucum aparece com o código E160b. Dá cor a queijos como o cheddar, o Red Leicester e a mimolette, além de margarinas, embutidos, salgadinhos, sorvetes e cosméticos.

Diferente do betacaroteno da Cenoura, os pigmentos do Urucum não se transformam em vitamina A no corpo. O corante é considerado seguro, embora cause alergia em raros casos.

 

Povos indígenas pintam o corpo com Urucum em rituais e como proteção contra o sol e os insetos

 

A Pele Vermelha dos Tsáchila

Para muitos povos indígenas da Amazônia, pintar o corpo com Urucum marca festas, rituais de passagem e a identidade de cada grupo. Muitas vezes, a pintura é combinada com o preto do Jenipapo. Relatos etnográficos também citam a pintura como proteção contra o sol e os insetos.

No Equador, o povo Tsáchila molda o cabelo dos homens com uma pasta de achiote e gordura, num formato que imita o fruto da planta. A tradição oral conta que, durante uma epidemia de varíola, um xamã foi guiado pelos espíritos até um pé de achiote. Pintados com as sementes, os Tsáchila teriam visto as mortes diminuírem.

Os colonizadores espanhóis, que viam os Tsáchila sempre pintados de vermelho, acharam que aquela era a cor da pele deles e os chamaram de Colorados.

 

O Fruto que Aprendeu a se Abrir

A principal mudança da domesticação do Urucum está no fruto. No Urucum-bravo, as cápsulas ficam fechadas quando maduras. No cultivado, elas se abrem sozinhas e expõem as sementes, o que facilita a colheita. Essa mudança é rara em árvores domesticadas.

Os indígenas amazônicos ainda reconhecem as 2 formas e sabem que elas podem se cruzar. O Urucum-bravo cresce espontaneamente em florestas abertas e margens de rios.

O pigmento também guarda um paradoxo. O corante que colore tantos alimentos quase não tem sabor em pequenas doses. Em quantidade, dá um leve gosto adocicado e picante.

 

O Urucum é a base do colorau brasileiro — e, com o nome de annatto, dá a cor laranja ao queijo cheddar e ao queijo prato

 

Colorau, Arroz Amarelo e o Maior Produtor Mundial

No Brasil, o Urucum é a base do colorau, ou colorífico: pó de sementes de Urucum misturado com fubá ou farinha de mandioca e óleo. Ele dá cor ao arroz, ao feijão, às carnes e aos peixes. O Nordeste consome mais da metade do colorau do país.

Segundo dados do IBGE compilados pelo setor, o Brasil é o maior produtor mundial de sementes de Urucum, com cerca de 39% da produção em 2016. Em seguida vêm o Peru, a Costa do Marfim, Gana e o Quênia.

Das aldeias amazônicas ao queijo cheddar inglês, o mesmo pigmento atravessa culturas com funções diferentes: pintura sagrada, tempero e corante industrial.

 

O Vermelho que Nunca Saiu de Moda

O Urucum foi domesticado na Amazônia, levado de povo em povo até o Caribe e o México, descrito por Caminha no primeiro documento escrito sobre o Brasil e adotado pela indústria de alimentos do mundo inteiro.

Poucas plantas mantêm a mesma função por tanto tempo. Há milhares de anos, o Urucum serve para tingir. Mudaram só as superfícies: primeiro a pele e o cabelo, depois o chocolate asteca, o queijo europeu e o arroz de todo dia.

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Fontes

  • Moreira, P. A. et al. The Domestication of Annatto (Bixa orellana) from Bixa urucurana in Amazonia. Economic Botany, 2015. Link
  • Acta Botanica Brasilica. Flora e vegetação do Brasil na Carta de Caminha. Link
  • Wikipedia. Annatto. Link
  • Wikipedia. Tsáchila. Link
  • Maya Archaeology. Achiote in Maya ethnobotany. Link
  • O Urucum. Mercado (dados IBGE). Link

 

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