A Erva Mais Confiante da Botânica
Poucas plantas carregam no nome uma promessa tão grande. Sálvia vem do latim salvare, salvar, curar. Durante séculos, os médicos europeus levaram essa promessa a sério e repetiram um verso: por que morreria um homem que tem Sálvia no jardim?
Mas a Sálvia de cozinha é só uma entre quase 1.000 espécies. O gênero inclui a Chia dos astecas, a Sálvia-branca queimada em rituais indígenas norte-americanos, a Sálvia-vermelha nativa do Brasil e uma planta sagrada dos Mazatecas.
Esta é a história de um gênero que vai da horta de Carlos Magno às pesquisas sobre memória e Alzheimer.
Salvia officinalis — O Maior Gênero da Família da Hortelã
A Sálvia comum, Salvia officinalis, pertence à família Lamiaceae, a mesma da Hortelã, do Manjericão e do Orégano. É um subarbusto de folhas aveludadas cinza-esverdeadas e flores lilases, nativo das encostas pedregosas do Mediterrâneo, sobretudo dos Bálcãs e da costa do Adriático.
O gênero Salvia é o maior da família, com quase 1.000 espécies. Elas se concentram em 3 regiões: as Américas Central e do Sul, com cerca de 600, o Mediterrâneo e a Ásia Central, com cerca de 250, e o Leste Asiático, com cerca de 90.
Em 2017, estudos genéticos levaram o Alecrim para dentro do gênero. Ele passou a se chamar Salvia rosmarinus.
Plínio, Carlos Magno e a Escola de Salerno
O naturalista romano Plínio, o Velho, é o primeiro autor conhecido a descrever uma planta chamada Salvia, no século 1. Na mesma época, o médico grego Dioscórides a recomendava para feridas, tosse e disenteria.
No início do século 9, Carlos Magno incluiu a Sálvia no Capitulare de villis, o decreto que listava as plantas obrigatórias nas propriedades imperiais. A Escola de Salerno, na Itália, uma das primeiras escolas médicas da Europa, eternizou a planta no poema Regimen Sanitatis Salernitanum: “Cur moriatur homo cui Salvia crescit in horto?“
Na Idade Média, Hildegarda de Bingen receitava a Sálvia contra paralisia e excesso de catarro, e ela se tornou presença fixa nas hortas dos mosteiros.
Memória, Calor e a Tujona
A Sálvia é rica em ácido rosmarínico, ácido carnósico, cineol e cânfora. A ciência vem testando os usos tradicionais. Em 2003, um ensaio clínico no Irã com 42 pacientes com Alzheimer leve a moderado encontrou melhora cognitiva após 4 meses de extrato de Sálvia, em comparação com o placebo.
Em 2011, um estudo suíço com 71 mulheres na menopausa relatou redução das ondas de calor com Sálvia fresca, mas sem grupo controle. A Agência Europeia de Medicamentos reconhece o uso tradicional da planta para má digestão, suor excessivo e inflamações da boca e da garganta.
O cuidado está na dose. A Sálvia contém tujona, substância que em excesso pode causar convulsões. Por isso, óleos e extratos concentrados não devem ser usados sem orientação.
A Sálvia-branca e a Planta da Pastora
Nos Estados Unidos, a Sálvia-branca, Salvia apiana, nativa da Califórnia, é queimada em rituais de purificação por povos indígenas da região. A popularidade recente dos “bastões de Sálvia” levou à coleta excessiva da planta na natureza, e lideranças indígenas pedem que ela não seja usada como produto de consumo.
No México, os Mazatecas de Oaxaca usam a Salvia divinorum em rituais de cura e adivinhação e a chamam de ska María Pastora, a folha da Pastora. Seu princípio ativo, a salvinorina A, é um psicoativo sem nitrogênio, algo raro entre as substâncias desse tipo.
Na Europa, a Sálvia era associada à sabedoria e à longevidade. O inglês sage significa ao mesmo tempo Sálvia e sábio, mas as 2 palavras têm origens latinas diferentes.
A Alavanca que Dá Pólen
A flor da Sálvia esconde uma pequena máquina. Seus 2 estames funcionam como uma alavanca: quando uma abelha ou um beija-flor enfia a cabeça para alcançar o néctar, empurra uma placa e o estame desce, carimbando pólen nas costas do visitante.
Os botânicos consideram esse mecanismo, que surgiu pelo menos 2 vezes de forma independente no gênero, uma das razões para a Salvia ter se diversificado em quase 1.000 espécies. Cada formato de alavanca se ajusta a um polinizador diferente.
Outro segredo está na própria família: a Chia, Salvia hispanica, é uma Sálvia. Suas sementes eram cobradas como tributo pelos astecas e hoje são vendidas no mundo inteiro.
Da Saltimbocca à Sálvia-vermelha
Na cozinha italiana, a Sálvia vai na saltimbocca alla romana, fatia de vitela com presunto cru e uma folha da erva, e na manteiga dourada que acompanha nhoques e raviólis. Na Inglaterra, o recheio de Sálvia e cebola acompanha aves assadas.
O Brasil também tem uma Sálvia famosa. A Sálvia-vermelha, Salvia splendens, é nativa do país e foi descrita em 1822. Hoje é uma das plantas ornamentais de canteiro mais cultivadas do mundo, com flores escarlates tubulares.
Nas feiras brasileiras, a Sálvia de cozinha aparece fresca ou seca e em chás caseiros para garganta e digestão.
Um Gênero que Cabe no Mundo Inteiro
A Sálvia prometeu salvar e, de certa forma, cumpriu. Atravessou a medicina de Plínio, as hortas de Carlos Magno e os versos de Salerno, e chegou aos ensaios clínicos sobre memória.
Pelo caminho, se desdobrou em quase 1.000 espécies: a erva da saltimbocca, a Chia dos astecas, a Sálvia-branca dos rituais californianos, a folha da Pastora dos Mazatecas e a flor vermelha que nasceu no Brasil. Tudo sustentado por uma flor com uma alavanca.
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Fontes
- Wikipedia. Salvia. Link
- The Metropolitan Museum of Art. Salvia, Save Us (The Medieval Garden Enclosed). Link
- Akhondzadeh, S. et al. Salvia officinalis extract in the treatment of patients with mild to moderate Alzheimer’s disease. Journal of Clinical Pharmacy and Therapeutics, 2003. Link
- Drew, B. T. et al. Recircumscription of Salvia. Taxon, 2017. Link
- Wikipedia. Salvia splendens. Link
- Wikipedia. Salvia hispanica. Link

