Coca: A Folha Andina de 8 Mil Anos que Virou Anestésico, Refrigerante e Guerra

Das casas de coletores do norte do Peru, onde era mascada com cal há 8 mil anos, aos rituais incas, à anestesia moderna e aos tratados da ONU, a Coca é uma folha sagrada que deu origem a uma das drogas mais combatidas do mundo

 

Uma Folha, Dois Mundos

Nos Andes, a folha de Coca é chá para a altitude, oferenda à Mãe Terra e companheira de trabalho de camponeses e mineiros. Fora dos Andes, seu nome lembra imediatamente a cocaína, os cartéis e a guerra às drogas.

As 2 coisas vêm da mesma planta, mas não são a mesma coisa. A folha tem menos de 1% de cocaína e é usada há pelo menos 8 mil anos. A droga refinada é uma invenção do século 19, fruto de laboratórios europeus.

Entre um mundo e outro há uma história de impérios, missionários, médicos, publicitários e diplomatas. Esta é a história da folha que os Andes consideram sagrada e o mundo aprendeu a temer.

 

Erythroxylum — As Coca dos Andes

A Coca pertence ao gênero Erythroxylum, da família Erythroxylaceae. São cultivadas 4 variedades de 2 espécies: a Erythroxylum coca, dos Andes do Peru e da Bolívia, e a Erythroxylum novogranatense, da Colômbia e da costa do Peru.

É um arbusto de folhas ovais, verdes e lisas, com 2 linhas curvas paralelas à nervura central, detalhe que ajuda a reconhecê-la. Cresce nas encostas úmidas dos Andes orientais, entre 500 e 2 mil metros de altitude.

As folhas secas contêm entre 0,23% e 0,96% de cocaína, além de outros alcaloides. Também são ricas em cálcio, potássio, fósforo e vitaminas do complexo B, C e E.

 

A Erythroxylum coca é da família Erythroxylaceae — suas folhas têm 2 linhas curvas paralelas à nervura central

 

8 Mil Anos de Mastigação

Em 2010, a revista Antiquity publicou a descoberta de folhas de Coca mascadas sob o piso de casas no norte do Peru, junto de pedras ricas em cálcio usadas para fazer cal. Os restos têm cerca de 8 mil anos e anteciparam em pelo menos 3 mil anos o uso conhecido da planta.

A cal é o segredo da mastigação: ela torna a saliva alcalina e ajuda a liberar os alcaloides da folha. O hábito continua até hoje nos Andes, com a llipta, uma pasta de cinzas vegetais.

No Império Inca, a Coca era planta de Estado. Soldados, mensageiros e trabalhadores da mit’a, o trabalho obrigatório, a mascavam para suportar a fome, o frio e o cansaço. Depois da conquista espanhola, a Coca abasteceu os mineiros de prata de Potosí, na Bolívia.

 

Da Cocaína ao Colírio Anestésico

Por volta de 1860, o químico alemão Albert Niemann isolou a cocaína das folhas de Coca. Em 1884, o jovem oftalmologista austríaco Carl Koller descobriu que gotas de cocaína no olho permitiam operar sem dor. Foi o nascimento da anestesia local, uma revolução na cirurgia.

No mesmo ano, Sigmund Freud publicou um ensaio entusiasmado sobre a Coca, do qual depois se arrependeu. A cocaína se mostrou altamente viciante, e seus derivados sintéticos, como a lidocaína, substituíram-na na medicina.

A folha em si tem efeito suave, parecido com o do café. É usada como chá, o mate de Coca, contra o mal da altitude e o cansaço, prática legal no Peru e na Bolívia.

 

Nas encostas dos Andes, restos de folhas de Coca mascadas encontrados no Peru têm cerca de 8.000 anos

 

Pachamama e o K’intu de 3 Folhas

Nos Andes, a Coca é sagrada. Em cerimônias quíchuas e aimarás, as pessoas oferecem à Pachamama, a Mãe Terra, e aos espíritos das montanhas o k’intu: 3 folhas de Coca perfeitas, sopradas com uma prece.

Os especialistas rituais leem o futuro nas folhas jogadas sobre um pano, observando como caem. A Coca também é compartilhada em encontros, casamentos, funerais e trabalhos coletivos, como sinal de respeito e reciprocidade.

Para muitos povos andinos, mascar Coca é um ato de identidade cultural, e a folha é chamada de mama coca, mãe Coca.

 

A Coca que Está no Refrigerante

A Coca-Cola, criada em 1886 nos Estados Unidos pelo farmacêutico John Pemberton, levava extrato de folhas de Coca e de Noz-de-cola. Por volta de 1903, a receita passou a usar folhas sem cocaína.

Até hoje, a empresa química Stepan, em Nova Jersey, tem autorização especial para importar folhas de Coca do Peru. Ela extrai a cocaína para uso farmacêutico e fornece o extrato descocainizado usado como aromatizante.

No fim do século 19, a Coca também estava no Vin Mariani, vinho com extrato de folhas que se tornou famoso na Europa e nos Estados Unidos.

 

Na Bolívia e no Peru, o chá de Coca é bebida do dia a dia — e foi da folha que Albert Niemann isolou a cocaína, em 1860

 

A Folha nos Tratados e na Guerra

Em 1961, a Convenção Única da ONU sobre Entorpecentes colocou a folha de Coca na mesma lista da cocaína e exigiu o fim da mastigação em 25 anos. Os países andinos criticaram a decisão, tomada sem distinguir a folha da droga.

A Bolívia saiu da convenção em 2012 e voltou em 2013 com uma reserva que permite a mastigação tradicional em seu território. Em 2009, o presidente Evo Morales mascou uma folha de Coca durante uma reunião da ONU em defesa desse uso.

O cultivo ilegal para cocaína segue concentrado na Colômbia, que tinha 253 mil hectares em 2023, cerca de 67% da área mundial, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime. Peru e Bolívia vêm em seguida.

 

A Folha e a Droga

A história da Coca mostra como a mesma planta pode ter sentidos opostos. Nos Andes, há 8 mil anos, ela é folha, chá, oferenda e identidade. No mundo industrializado, virou anestésico, ingrediente de refrigerante e droga.

Separar a folha da cocaína é um debate que segue aberto nos tratados internacionais. Nas montanhas, enquanto isso, as 3 folhas do k’intu continuam sendo oferecidas à Mãe Terra.

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Fontes

  • Dillehay, T. et al. Early Holocene coca chewing in northern Peru. Antiquity, 2010. Link
  • Wikipedia. Coca. Link
  • Britannica. Carl Koller. Link
  • Transnational Institute. Bolivia wins a rightful victory on the coca leaf. Link
  • Colombia One. Over 67% of Coca Comes from Colombia, UN Report Says, 2025. Link

 

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