Cone — A Flor que Deu Amargor à Cerveja
A cerveja já existia milhares de anos antes do Lúpulo. Os povos da Mesopotâmia e do Egito fermentavam cereais sem ele. Mas foi essa trepadeira de cones verdes que deu à cerveja o amargor, o aroma e a capacidade de durar mais tempo, características que hoje parecem inseparáveis da bebida.
O que vai para a panela do cervejeiro são as inflorescências femininas, pequenos cones de escamas verdes. Dentro deles há um pó amarelo e pegajoso, a lupulina, onde ficam os compostos que mudaram a história da cerveja.
Esta é a história do Humulus lupulus, o lobinho que sufocava salgueiros, passou pelos mosteiros medievais, entrou numa lei bávara de 1516 e hoje começa a ser cultivado no Brasil, um país que ainda importa quase todo o Lúpulo que usa.
Lobinho — O Parente da Cannabis que Abraça as Árvores
O Lúpulo pertence à família das Canabáceas, a mesma da Cannabis. É uma trepadeira perene e vigorosa, que sobe enrolando seus caules em árvores, cercas e, nas lavouras, em fios e treliças. A planta é dioica, ou seja, há pés machos e pés fêmeas, e só as fêmeas produzem os cones usados na cerveja.
O nome científico conta parte dessa história. Lupulus significa pequeno lobo em latim. Segundo o naturalista romano Plínio, o Velho, o apelido vinha do jeito como a planta sobe pelas outras e as sufoca, como fazia com os salgueiros. A origem de Humulus é incerta, e uma das hipóteses aponta para uma palavra antiga do Irã que teria se espalhado pela Eurásia.
Estudos genéticos sugerem que o Lúpulo chegou à Europa há cerca de 1 milhão de anos. Seu pólen aparece em povoados do Neolítico, mas não se sabe se as pessoas já usavam a planta. Além da cerveja, os brotos jovens foram comidos como verdura, e as fibras viraram corda, papel e tecido.
Mosteiro — Do Gruit à Cerveja Lupulada
Antes do Lúpulo, a cerveja europeia era temperada com misturas de ervas, como mirto-do-brejo, milefólio, hera-terrestre, alecrim e sálvia. O Lúpulo aparece aos poucos nos registros. Um documento de um mosteiro da região de Hallertau, na Baviera, de 736, é citado como a menção mais antiga ao Lúpulo na cerveja, mas alguns historiadores dizem que falta prova firme para essa data.
Mais seguros são os estatutos de 822 do abade Adalhard, do mosteiro de Corbie, na França, que já ligam o Lúpulo à fabricação de cerveja. Por volta de 1150, a abadessa Hildegard von Bingen escreveu que o Lúpulo impedia que as bebidas apodrecessem. Um barco do século 10, encontrado em Graveney, na Inglaterra, levava Lúpulo, sinal de que a planta já era comercializada.
A partir dos séculos 12 e 13, cidades do norte da Alemanha exportavam cerveja lupulada. A moda chegou à Holanda por volta de 1390 e depois à Inglaterra, onde a primeira cervejeira registrada a usar Lúpulo foi Agnes Smyth, em Colchester, em 1412. O cultivo inglês começou entre 1511 e 1524, provavelmente em Kent, e em 1648 o Lúpulo já era plantado em Massachusetts, na América do Norte.
Lupulina — O Pó Amarelo que Conserva e Amarga
O segredo do Lúpulo está na lupulina, a resina amarela escondida entre as escamas dos cones. Ela guarda os ácidos alfa, chamados humulonas. Durante a fervura do mosto, esses ácidos se transformam e passam a dar o amargor típico da cerveja.
A quantidade varia muito entre as variedades. Os lúpulos nobres europeus têm em média de 5% a 9% de ácidos alfa, enquanto variedades americanas costumam ir de 8% a 19%. Além do amargor, os óleos essenciais dão aromas que lembram flores, ervas, resina e frutas, e por isso o mesmo estilo de cerveja pode mudar completamente com outro Lúpulo.
A lupulina também protege a bebida. A humulona e a lupulona, outro composto do Lúpulo, têm ação antibacteriana e dificultam o crescimento de bactérias que estragariam a cerveja. O Lúpulo ainda contém o xanto-humol, seu principal flavonoide, e a 8-prenilnaringenina, uma substância com forte efeito parecido com o do estrogênio, estudada por pesquisadores.
Travesseiro — O Sono Prometido pelo Lúpulo
Fora da cervejaria, o Lúpulo ganhou fama de calmante. Travesseiros recheados com cones secos de Lúpulo foram usados como remédio para dormir, e a planta entrou na medicina popular contra ansiedade, inquietação e insônia, de forma parecida com a Valeriana. Uma revisão científica de 2021, publicada na revista Economic Botany, registra o uso desses travesseiros como sedativo entre os usos tradicionais da planta.
A ciência, porém, ainda é cautelosa. As evidências desses efeitos em humanos são limitadas, e os estudos não permitem afirmar que o Lúpulo funciona como tratamento. A fama de planta do sono vem mais da tradição do que de provas.
Nem todos gostavam da planta. Hildegard von Bingen, que reconheceu o poder do Lúpulo de conservar as bebidas, não tinha simpatia por ele. Hoje, outra cautela é importante: o Lúpulo é tóxico para cães. Por isso, cervejeiros caseiros precisam guardar os cones e os restos da produção longe dos animais de estimação.
Pureza — A Lei Bávara de 1516
Em 23 de abril de 1516, o duque Guilherme IV da Baviera decretou uma regra que ficou famosa como Reinheitsgebot, a lei da pureza. Pela norma, a cerveja só podia ser feita com 3 ingredientes: água, cevada e Lúpulo. A lei tinha antecessoras, como uma regra de Munique de 1487.
A levedura não aparece no texto, porque seu papel na fermentação ainda não era conhecido, embora os cervejeiros a reaproveitassem de uma produção para outra. A restrição à cevada também tinha um motivo prático. Guardava o Trigo e o Centeio para os padeiros e ajudava a manter o pão barato. A lei também excluía plantas perigosas, como o Meimendro e a Beladona.
A regra se espalhou pela Alemanha e passou a valer em todo o país em 1906. Em março de 1987, depois de uma ação de cervejeiros franceses, o Tribunal de Justiça Europeu considerou a lei protecionista para cervejas importadas. A Alemanha, porém, continuou aplicando a regra às cervejas produzidas no próprio país.
Brasil — Um País Cervejeiro que Importa o Lúpulo
Hoje, os Estados Unidos e a Alemanha dominam a produção. Em 2020, os Estados Unidos colheram 47.541 toneladas e a Alemanha, 46.878 toneladas, somando cerca de 3/4 da produção mundial. Na Alemanha, a região de Hallertau tinha 912 fazendas de Lúpulo em atividade em 2018. Nos Estados Unidos, o vale de Yakima, em Washington, é um grande centro produtor.
O Brasil é o terceiro maior produtor e consumidor de cerveja do mundo, mas importa cerca de 99% do Lúpulo que usa, a maior parte da Alemanha e dos Estados Unidos. Isso custa perto de 64 milhões de dólares por ano. A planta gosta de dias longos, e por muito tempo se achou que o país não teria condições de cultivá-la.
Esse quadro começou a mudar. Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo, a produção nacional passou de 18 toneladas em 2021 para 81,3 toneladas em 2024, em pouco mais de 95 hectares. A Embrapa Agrobiologia, no Rio de Janeiro, pesquisa adubação e secagem para adaptar a planta. Para abastecer o país, seriam necessários cerca de 20 mil hectares.
Amargor — Uma Trepadeira que Mudou um Copo
O Lúpulo é uma trepadeira que mudou a cerveja. Seus cones guardam o amargor, o aroma e a proteção contra bactérias que tornaram a bebida mais estável e saborosa. Dos mosteiros medievais à lei de 1516, ele passou de ervas entre tantas a ingrediente obrigatório.
Hoje, o lobinho de Plínio continua subindo em fios nas lavouras da Alemanha, dos Estados Unidos e, cada vez mais, do Brasil. O país que tanto bebe cerveja começa a plantar o próprio Lúpulo. A cada nova lavoura, essa planta antiga ganha um capítulo tropical na sua longa história.
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Fontes
- Hops (Wikipedia)
- Reinheitsgebot (Wikipedia)
- Common Hop (Humulus lupulus): Traditional Uses, Chemistry and Beyond (Korpelainen e Pietiläinen, Economic Botany, 2021)
- A short history of hops (Zythophile)
- Hallertau hop history (Gesellschaft für Hopfenforschung)
- Do lúpulo importado à independência: o Brasil e o fim do paradoxo da cerveja (NeoFeed)

