Coco: A Semente que Cruzou Oceanos nas Canoas Austronésias

Das ilhas do Sudeste Asiático e do Pacífico que o domesticaram às praias do Nordeste, o Coco viajou nas canoas austronésias, chegou às Américas antes de Colombo e virou a árvore que fornece tudo

 

A Semente que Aprendeu a Navegar

Poucas plantas nasceram tão preparadas para o mar. O Coco tem casca fibrosa que flutua, uma camada dura que protege a semente e, lá dentro, água e alimento suficientes para brotar numa praia distante, sem terra por perto.

Os seres humanos perceberam cedo esse potencial. Navegadores austronésios levaram o Coco em suas canoas pelo Pacífico e pelo Índico. Em sânscrito, ele virou a árvore que realiza desejos, e nas ilhas polinésias nasceu da cabeça de uma enguia. Hoje, o Coco sustenta milhões de famílias do Brasil às Filipinas.

Esta é a história da palmeira que transformou o oceano em estrada.

 

Cocos nucifera — A Única Espécie do Gênero

O Coqueiro, Cocos nucifera, pertence à família Arecaceae, a das palmeiras, e é a única espécie do gênero Cocos. O fruto não é uma noz: é uma drupa, com casca externa lisa, uma camada de fibras, o endocarpo duro e a semente dentro.

A água de Coco é o endosperma líquido da semente, e a polpa branca é o endosperma sólido. O nome Coco vem do português do século 16. Os navegadores viram nos 3 poros da casca um rosto, como o do coco, a assombração das histórias de ninar ibéricas.

Os estudos genéticos apontam a origem do Coqueiro na região entre o oeste do Sudeste Asiático e a Melanésia, onde está a maior diversidade genética da espécie.

 

O Cocos nucifera é a única espécie do gênero Cocos — e a água de Coco é o endosperma líquido da semente

 

Canoas Austronésias e o Coco que Chegou ao Panamá

O Coco foi domesticado pelo menos 2 vezes. Um estudo publicado em 2011 na PLOS ONE identificou um grupo do Pacífico, cultivado pelos povos austronésios nas ilhas do Sudeste Asiático, e outro do Índico, no sul da Índia e no Sri Lanka.

Os austronésios o levaram em suas canoas como provisão de água e comida em viagens longas, espalhando-o pelas ilhas do Pacífico e até Madagascar. Estudos genéticos mostram que Coqueiros da costa do Pacífico do Panamá já existiam antes de Colombo e são aparentados aos das Filipinas, provavelmente levados por navegadores há mais de 2 mil anos.

Já no Atlântico, no Caribe, na África Ocidental e no Brasil, o Coco chegou muito mais tarde, a partir do século 16, com as rotas marítimas vindas do Oceano Índico.

 

Água, Óleo e a Árvore das Mil Utilidades

A água de Coco verde é rica em potássio e traz sódio, magnésio e cálcio, o que faz dela uma boa bebida de reidratação. Existem relatos do seu uso na veia em emergências durante a Segunda Guerra, e um caso documentado nas Ilhas Salomão em 2000. Médicos alertam, porém, que ela não substitui o soro: tem pouco sódio e muito potássio.

O óleo de Coco tem cerca de 80% de gordura saturada. Quase metade dela é ácido láurico, que em laboratório mostra ação antimicrobiana. Por causa da alta gordura saturada, as associações de cardiologia recomendam consumo moderado.

Nada se perde no Coqueiro. As folhas cobrem casas e viram cestos, a fibra da casca vira corda, tapete e substrato de plantas, e o tronco vira madeira.

 

O Coco flutua e resiste meses no mar — estudos genéticos apontam 2 origens de cultivo, uma no Pacífico e outra no Oceano Índico

 

Kalpavriksha e a Enguia que Virou Coqueiro

Na Índia, o Coqueiro é chamado em sânscrito de kalpa vriksha, a árvore que fornece tudo o que é necessário à vida. Nos templos hindus, quebrar um Coco diante da divindade é um gesto de entrega, e o fruto aparece em casamentos como símbolo de prosperidade. No estado de Kerala, o Coqueiro é a árvore oficial, e o nome do estado costuma ser traduzido como terra dos Coqueiros.

Nas ilhas polinésias, uma lenda explica a origem da planta. A jovem Hina, ou Sina em Samoa, é amada por uma enguia chamada Tuna. Morta, a enguia tem a cabeça enterrada, e dela brota o primeiro Coqueiro.

Por isso, dizem os ilhéus, os 3 poros da casca lembram os olhos e a boca da enguia.

 

Os 3 Olhos e o Pão de Coco

Os 3 poros na base do Coco não são enfeite. São os pontos por onde a semente pode germinar, mas só 1 deles é funcional, o mais macio, que cede ao furar com uma faca. Os outros 2 ficam fechados.

Quando o Coco germina, o broto sai por esse poro e, dentro da casca, o embrião forma uma massa esponjosa que absorve a polpa para alimentar a nova planta. É o chamado pão de Coco, ou maçã de Coco, comestível e adocicado.

O Coco pode boiar no mar por mais de 3 meses e ainda germinar ao chegar a uma praia, o que explica como ele colonizou tantas ilhas.

 

O coqueiro virou a verdadeira representação do paraíso tropical

 

O Coqueiro-da-baía e o Brasil do Coco

A versão mais aceita diz que o Coqueiro chegou ao Brasil em 1553, na Bahia, vindo de Cabo Verde, o que deu origem ao nome Coqueiro-da-baía. A genética confirma que os Coqueiros do Atlântico descendem do grupo do Oceano Índico. Mais tarde vieram as variedades anãs, de origem asiática, que hoje dominam a produção de água de Coco.

O Brasil é o 4º maior produtor de Coco do mundo, atrás da Indonésia, da Índia e das Filipinas. O cultivo se concentra no litoral do Nordeste e no Pará.

Da cocada à moqueca, da tapioca ao coco verde vendido na praia, o Coco se tornou parte da paisagem e da cozinha brasileira.

 

A Palmeira que Fez do Mar uma Estrada

Poucas plantas dependeram tanto do oceano para existir. O Coco boiou, foi levado em canoas austronésias, cruzou o Pacífico antes de Colombo e chegou ao Atlântico pelas rotas do Índico.

Em cada lugar, virou algo diferente: árvore dos desejos na Índia, cabeça de enguia na Polinésia, paisagem de cartão-postal no Nordeste. Continua sendo a mesma semente preparada para a viagem, com água, comida e casca para atravessar qualquer mar.

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Fontes

  • Gunn, B. F. et al. Independent Origins of Cultivated Coconut in the Old World Tropics. PLOS ONE, 2011. Link
  • ScienceDaily. Deep history of coconuts decoded, 2011. Link
  • Wikipedia. Origin and dispersal of the coconut. Link
  • Wikipedia. Coconut. Link
  • Wikipedia. Tuna (Polynesian mythology). Link
  • Campbell-Falck, D. et al. The intravenous use of coconut water. Am J Emerg Med, 2000. Link
  • NPR. Saved by the coconut water? Parsing coconut water’s medical claims, 2011. Link

 

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