Feijão: A Semente Domesticada 2 Vezes nas Américas que Virou o Centro do Prato Brasileiro

Domesticado há 8 mil anos no México e nos Andes, plantado com o Milho e a Abóbora na milpa e encontrado em ferramentas de 6 mil anos em Rondônia, o Feijão chegou à feijoada, ao tutu e ao baião de dois, e ganhou até uma variedade nascida de uma mutação em São Paulo

 

O Grão de Todo Dia

Um prato de arroz com Feijão diz muito sobre o Brasil. Preto no Rio, carioca em São Paulo, fradinho no Nordeste, de corda no sertão: cada região tem o seu, mas quase todas o comem todo dia, na marmita, no prato feito e no almoço de domingo.

O Feijão comum, porém, não nasceu aqui. Foi domesticado 2 vezes, de forma independente, no México e nos Andes, há cerca de 8 mil anos. Muito antes dos europeus, já era a base da comida de maias, astecas e povos andinos, plantado junto com o Milho e a Abóbora.

Depois de 1492, atravessou o Atlântico e se espalhou pela Europa, pela África e pela Ásia. Esta é a história de uma semente americana que alimentou impérios, enriquece o solo e virou sinônimo de comida de verdade no Brasil.

 

Phaseolus — Duas Domesticações nas Américas

O Feijão comum pertence à espécie Phaseolus vulgaris, da família Fabaceae, a das leguminosas, a mesma da Soja, da Ervilha e do Amendoim. Seus parentes selvagens crescem nas Américas, do México à Argentina, em encostas e beiras de mata.

O Feijão foi domesticado 2 vezes, de forma independente, há cerca de 8 mil anos. Uma domesticação aconteceu na Mesoamérica, principalmente no México, e deu origem a grãos menores. A outra ocorreu nos Andes do sul, entre o Peru, a Bolívia e o norte da Argentina, e deu origem a grãos maiores. Até hoje, as variedades cultivadas carregam essas 2 heranças genéticas.

Como outras leguminosas, o Feijão tem nas raízes pequenos nódulos onde vivem bactérias, os rizóbios, que capturam nitrogênio do ar e o transformam em adubo para a planta. Por isso, cresce em solos pobres e ainda deixa a terra mais fértil para a lavoura seguinte. O ciclo é curto, de cerca de 3 meses, o que permite mais de uma safra por ano em muitas regiões do Brasil.

 

As bolinhas nas raízes são nódulos onde vivem bactérias que capturam o nitrogênio do ar — com elas, o feijão aduba a própria terra em que cresce

 

Teotônio — Das Cavernas Andinas à Mesa Europeia

No Peru, sementes de Feijão de grão grande aparecem em sítios arqueológicos com cerca de 4.300 anos. No México, os grãos pequenos aparecem em sítios mais recentes. Na Amazônia, no sítio de Teotônio, em Rondônia, pesquisadores encontraram grãos de amido de Feijão em ferramentas de pedra de cerca de 6.500 a 5.500 anos atrás, junto com Mandioca e Abóbora.

Na Mesoamérica, o Feijão se juntou ao Milho e à Abóbora na milpa, o sistema que os povos indígenas chamam até hoje de 3 irmãs. O Milho serve de suporte para o Feijão subir, o Feijão aduba o solo e as folhas largas da Abóbora protegem a terra do sol e do mato.

Depois da chegada de Colombo, o Feijão americano cruzou o Atlântico e se espalhou rapidamente. No Velho Mundo, encontrou parentes como a Fava e o Feijão-fradinho e ocupou espaço nas hortas. Hoje é cultivado em todos os continentes, menos na Antártida.

 

Lisina — Proteína, Ferro e o Par Perfeito com o Arroz

O Feijão é rico em proteína vegetal, fibras, ferro, potássio, magnésio, zinco e folato. É uma das principais fontes de proteína para quem come pouca carne, e as fibras ajudam na digestão e no controle da glicose.

Arroz e Feijão formam uma dupla nutricional. O Feijão tem bastante lisina, um aminoácido que falta no Arroz, e o Arroz tem metionina, que é escassa no Feijão. Juntos, fornecem uma proteína mais completa, e a vitamina C de uma salada ou de uma fruta ajuda o corpo a absorver o ferro do Feijão.

O Feijão cru, porém, é tóxico. Contém uma proteína chamada fito-hemaglutinina, que pode causar náuseas, vômitos e diarreia. Deixar os grãos de molho e cozinhá-los bem, em fervura, destrói essa toxina. O molho também reduz os açúcares que provocam gases, e trocar a água antes do cozimento ajuda ainda mais. A panela de pressão, popular no Brasil desde meados do século 20, encurtou um cozimento que antes levava horas no fogão a lenha.

 

No cultivo indígena conhecido como Três Irmãs, o feijão sobe enrolado no pé de milho, enquanto as folhas largas da abóbora cobrem o chão e seguram a umidade

 

Milpa — Omolu, as 3 Irmãs e a Fartura

Para muitos povos da Mesoamérica, Milho, Feijão e Abóbora são irmãos inseparáveis, presentes nos mitos de criação e nas festas de colheita. A milpa não é só um jeito de plantar, mas uma forma de ver o mundo, em que as plantas cooperam entre si. No México, a milpa tradicional ainda reúne dezenas de variedades locais de Feijão, de várias cores e tamanhos.

Nas religiões de matriz africana no Brasil, o Feijão aparece nas comidas de santo. O Feijão-preto está entre as comidas oferecidas a Omolu, orixá ligado à saúde e às doenças. O Feijão-fradinho é a base do acarajé, o bolinho frito no dendê ligado a Iansã e vendido pelas baianas de acarajé, cujo ofício é reconhecido como patrimônio cultural do Brasil.

Na língua do dia a dia, o Feijão virou símbolo do básico. Arroz com Feijão é aquilo que é simples e bem-feito, e botar Feijão na mesa é garantir o sustento da família. Em muitas casas, a panela de pressão chiando é o som do almoço.

 

Carioca — A Mutação de Ibirarema

O Feijão carioca não tem nada a ver com o Rio de Janeiro. Em 1966, em Ibirarema, no interior de São Paulo, o agrônomo Waldimir Coronado Antunes notou grãos rajados diferentes numa lavoura de Feijão chumbinho. Ele selecionou as sementes e as enviou ao Instituto Agronômico de Campinas, que testou a nova variedade.

O nome veio de uma comparação feita por um trabalhador da fazenda: as listras do grão lembravam a pelagem malhada de porcos que, na região, eram chamados de cariocas. Nos testes do instituto, a nova variedade produziu mais que as tradicionais e conquistou as lavouras e os pratos de boa parte do país. Hoje, o Feijão carioca é um dos mais consumidos no Brasil, sobretudo em São Paulo e no Centro-Oeste.

Outro segredo está nos nomes. O Feijão-fradinho e o Feijão-de-corda não são Phaseolus vulgaris. São da espécie Vigna unguiculata, de origem africana, que chegou ao Brasil pelo Atlântico e virou a base do acarajé, do baião de dois e da comida do sertão nordestino.

 

Arroz com feijão forma uma proteína completa — o feijão é rico em lisina, que falta no arroz, e o arroz tem metionina, que falta no feijão

 

Feijoada — Do Tutu ao Baião de Dois

Cada região brasileira tem seu Feijão. No Rio de Janeiro e no Sul, reina o Feijão-preto, base da feijoada. Em Minas Gerais, ele vira tutu e Feijão-tropeiro. No Nordeste, o Feijão-de-corda se junta ao arroz no baião de dois e ao queijo coalho no prato do dia a dia.

Segundo a FAO, o Brasil produziu cerca de 2,8 milhões de toneladas de Feijão em 2022, um dos maiores volumes do mundo, e consome quase tudo o que produz. Mesmo assim, o consumo caiu. Segundo a Embrapa, cada brasileiro comia cerca de 19 quilos de Feijão por ano em 1985, e em 2023 eram 12,8 quilos, por causa da alta dos preços e da mudança dos hábitos alimentares.

No mundo, o Feijão está no chili mexicano, nos moros y cristianos de Cuba, feitos com Feijão-preto e arroz, no cassoulet francês e no gallo pinto da Costa Rica e da Nicarágua. Cada cultura deu ao grão americano um sotaque próprio.

 

Uma Semente que Sustenta um País

O Feijão foi domesticado 2 vezes nas Américas, plantado ao lado do Milho e da Abóbora pelos povos indígenas e espalhado pelo mundo depois de 1492. Enriquece o solo, oferece proteína barata e, junto com o Arroz, forma uma combinação nutritiva que sustenta gerações.

No Brasil, ganhou cores, nomes e receitas próprias, do carioca nascido de uma mutação em São Paulo ao Feijão-preto da feijoada. Mesmo com o consumo em queda, continua sendo, para milhões de brasileiros, o centro do prato e o sinal de que há comida em casa.

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Fontes

  • Wikipedia. Phaseolus vulgaris. Link
  • Watling, J. et al. Direct archaeological evidence for Southwestern Amazonia as an early plant domestication and food production centre. PLOS ONE, 2018. Link
  • Dinheiro Rural. Por que o feijão mais consumido em SP se chama carioca? Link
  • Band Agro. Brasileiros estão comendo menos arroz e feijão, aponta estudo da Embrapa. Link

 

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