Costela-de-adão: A Trepadeira que Procura a Escuridão, Fura as Folhas e Dá Fruto de Salada de Frutas

Nativa das florestas do sul do México ao Panamá, a Monstera deliciosa nasce buscando a sombra de um tronco, sobe até 20 metros e só fura as folhas quando chega à luz. Seu fruto leva mais de 1 ano para ficar comestível, e a folha virou ícone da decoração tropical

 

Folha — A Planta que Virou Ícone da Decoração

Ela está em vasos de sala, papéis de parede, estampas de tecido, almofadas e capas de caderno. A folha grande, verde-escura e cheia de recortes da Costela-de-adão virou um desenho fácil de reconhecer, quase um sinônimo de decoração tropical. Muita gente a conhece pela imagem antes mesmo de conhecer a planta, e se surpreende ao descobrir que ela dá frutos.

Na natureza, porém, ela é bem diferente do vaso da sala. É uma trepadeira gigante das florestas da América Central. Começa a vida no chão escuro, procura um tronco e sobe até a copa das árvores, transformando suas folhas pelo caminho, de pequenos corações inteiros a grandes leques recortados.

Esta é a história de uma planta que tem fruto comestível, folhas furadas que intrigaram os cientistas e um nome popular que lembra a Bíblia.

 

Monstrum — A Monstruosa e Deliciosa

A Costela-de-adão é a espécie Monstera deliciosa, descrita pelo botânico dinamarquês Frederik Liebmann em 1849. Pertence à família Araceae, a mesma do Antúrio, do Copo-de-leite, da Taioba e dos Filodendros. É nativa das florestas tropicais úmidas do sul do México até o Panamá, incluindo Guatemala e Costa Rica.

O nome do gênero, Monstera, vem do latim e se refere a algo monstruoso ou anormal, uma alusão às folhas furadas e recortadas. O nome da espécie, deliciosa, homenageia o fruto, que pode ser comido quando maduro. A combinação dos 2 nomes resume bem a planta: monstruosa na aparência, deliciosa no sabor.

Na floresta, a planta floresce com uma inflorescência típica das aráceas: uma espiga carnuda, a espádice, envolvida por uma folha modificada branca e em forma de capuz, a espata. As flores são polinizadas principalmente por pequenos besouros da família Nitidulidae, atraídos pelo perfume da inflorescência. Depois, a espádice se transforma num fruto alongado, coberto por escamas verdes.

 

As folhas jovens da costela-de-adão nascem inteiras — os furos e recortes só aparecem conforme a planta amadurece

 

Escuridão — A Jornada do Chão à Copa

A vida da Costela-de-adão na floresta é uma viagem. Quando a semente germina no chão, a muda não cresce em direção à luz, como a maioria das plantas. Ela faz o contrário: cresce em direção à área mais escura, um comportamento chamado escototropismo. A sombra mais densa costuma ser a de um tronco de árvore, e é assim que a muda encontra seu apoio.

Ao encontrar o tronco, a planta muda de rumo e começa a subir em direção à luz. Ela se prende com raízes aéreas, que também descem até o chão e buscam água e nutrientes. É uma hemiepífita: começa ligada ao solo e passa a viver apoiada em outras árvores, sem parasitá-las.

Na natureza, pode chegar a 20 metros de altura, com folhas de até 90 centímetros de comprimento. Em vasos, costuma ficar entre 2 e 3 metros. As raízes aéreas, longas, marrons e resistentes, foram usadas como cordas no Peru e para fazer cestos no México.

 

Ráfides — Os Cristais que Protegem a Planta

A Costela-de-adão tem uma defesa química discreta. Suas folhas, caules e frutos verdes guardam ráfides, cristais microscópicos de oxalato de cálcio em forma de agulha. Quando a planta é mordida, esses cristais ferem a boca e a garganta, causando ardor e inchaço.

Por isso, a planta é considerada tóxica para cães, gatos e crianças pequenas, como acontece com outras aráceas de casa, como a Comigo-ninguém-pode. A seiva também pode irritar a pele de pessoas sensíveis, e por isso é bom usar luvas na poda e lavar as mãos depois.

O fruto é a exceção, quando está bem maduro. Ele leva mais de 1 ano para amadurecer e pode chegar a 25 centímetros. Quando está pronto, as escamas verdes se soltam aos poucos, de baixo para cima, revelando uma polpa cremosa com sabor descrito como uma mistura de Abacaxi e Jaca. Comido antes da hora, ainda tem os cristais e irrita a boca.

 

Na floresta, ela escala os troncos agarrada por raízes aéreas, e algumas dessas raízes descem até alcançar o chão

 

Costela — Os Nomes de uma Folha

No Brasil, a planta ganhou o nome de Costela-de-adão. Os recortes das folhas lembram costelas, e o nome faz referência ao relato bíblico do Gênesis, em que Eva é criada a partir de uma costela de Adão.

Em outras línguas, os nomes também falam dos furos e do fruto. Em inglês, é chamada de Swiss cheese plant, planta do queijo suíço, por causa dos buracos que lembram os de queijos como o Emmental. Também é conhecida como fruit salad plant, planta da salada de frutas, por causa do sabor do fruto maduro.

Esses nomes mostram como cada cultura viu a mesma planta de um jeito: uns olharam para a forma das folhas, outros para os buracos, outros para a mesa. No México e na América Central, onde ela nasceu, há ainda nomes locais ligados ao fruto e ao uso das raízes. Em comum, todos tentam traduzir em palavras uma folha difícil de esquecer.

 

Fenestração — Por Que as Folhas Têm Furos

As folhas jovens da Costela-de-adão são inteiras e em forma de coração. Os furos e recortes só aparecem quando a planta amadurece e sobe em direção à luz. Esse fenômeno se chama fenestração, de fenestra, janela em latim. Mudas criadas em pouca luz podem passar anos com folhas inteiras.

Por muito tempo, os botânicos discutiram a função desses buracos. As hipóteses incluíam deixar a água da chuva passar, reduzir os danos causados pelo vento e confundir herbívoros. Em 2013, o biólogo Christopher Muir propôs na revista The American Naturalist uma explicação ligada à luz.

No sub-bosque da floresta, a luz chega em manchas de sol que mudam de lugar ao longo do dia. Segundo Muir, folhas recortadas cobrem uma área maior com o mesmo gasto de tecido e capturam mais dessas manchas, tornando o crescimento mais estável. A hipótese ainda é debatida, mas mostra que os furos podem ser uma estratégia, e não um defeito.

 

O fruto só pode ser comido quando as escamas verdes caem sozinhas — verde, ele guarda cristais de oxalato de cálcio que ferem a boca

 

Vaso — Da Estufa Europeia ao Feed das Redes

No século 19, a planta chegou às estufas de jardins botânicos europeus, onde chamava atenção pelo tamanho das folhas. Fora de seu ambiente natural, a Costela-de-adão virou planta ornamental nas regiões tropicais e planta de interior nas regiões temperadas do Hemisfério Norte. Em alguns lugares, como o Havaí e as Seicheles, escapou dos jardins e é vista como espécie de risco invasor baixo a moderado.

Na decoração, a folha virou ícone do estilo tropical. Aparece em estampas de tecido, papéis de parede, cerâmicas e ilustrações, e nos últimos anos ganhou força nas redes sociais, onde vasos de Monstera se tornaram presença comum em fotos de casas e lojas.

No Brasil, a planta cresce bem em jardins sombreados e varandas. É fácil de multiplicar: basta cortar um pedaço do caule com um nó e uma raiz aérea e colocar em água ou em terra. Para que as folhas desenvolvam os furos, porém, a planta precisa de luz e de um suporte para subir.

 

Recorte — Uma Trepadeira que Ganhou as Casas

A Costela-de-adão nasceu nas florestas do sul do México e da América Central, onde cresce em direção à escuridão até encontrar uma árvore e depois sobe rumo à luz. Suas folhas mudam ao longo da vida, e seus furos ainda intrigam os cientistas que estudam a floresta.

Seu fruto, que leva mais de 1 ano para amadurecer, é comestível, mas o resto da planta guarda cristais que protegem contra animais. Seus nomes populares falam de costelas, queijo e salada de frutas, e cada um revela um lado da planta.

Hoje, ela vive em vasos, estampas e fotos, mas continua lembrando a floresta tropical de onde veio. Para quem tem uma em casa, vale lembrar que, com luz e um tronco para subir, a planta mostra seu lado selvagem, com folhas cada vez maiores e mais recortadas.

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