Violeta-africana: A Flor das Montanhas Usambara que Não É Violeta

Das florestas nubladas das montanhas Usambara, na Tanzânia, às janelas de apartamentos do mundo inteiro, a Violeta-africana não é violeta, não tem perfume, trocou de nome científico em 2015 e está ameaçada no lugar onde nasceu

 

Uma Violeta que Não É Violeta

A Violeta-africana está em mesas de escritório, janelas de apartamento e prateleiras de supermercado. Pequena, de folhas aveludadas e flores roxas, parece uma planta simples. Mas quase tudo no seu nome engana.

Ela não é parente das violetas europeias. Não tem o perfume que fez famosa a Violeta-de-cheiro. E há mais de uma década nem se chama mais Saintpaulia.

Por trás do vasinho há uma história de apenas 130 anos: um barão alemão numa colônia africana, uma estufa real em Hanôver, 10 variedades que conquistaram os Estados Unidos e florestas que hoje lutam para sobreviver. Esta é a história da flor que ganhou o mundo e quase perdeu a própria casa.

 

Streptocarpus ionanthus — Das Florestas Nubladas da Tanzânia

A Violeta-africana, hoje chamada Streptocarpus ionanthus, pertence à família Gesneriaceae, a mesma da Gloxínia. Não tem parentesco com as violetas do gênero Viola, que pertencem a outra família, a Violaceae.

Na natureza, ela e suas parentes crescem em florestas de neblina do leste da Tanzânia e do sudeste do Quênia, sobre rochas úmidas e sombreadas perto de riachos. A maior concentração de espécies está nas montanhas Nguru e Usambara, parte do Arco Oriental, uma cadeia de montanhas antigas famosa pela grande quantidade de espécies que só existem ali.

Desde 2012, os botânicos transferiram todas as antigas Saintpaulia para o gênero Streptocarpus, e um estudo molecular de 2015 confirmou a mudança. Hoje são reconhecidas cerca de 10 espécies.

 

A Streptocarpus ionanthus não pertence à família das violetas — é da família Gesneriaceae, a mesma da gloxínia — e ganhou o nome por parecer visualmente uma violeta europeia.

 

1892 — O Barão, a Estufa de Hanôver e as 10 Originais

Em 1892, o barão Walter von Saint Paul-Illaire, administrador colonial alemão na região de Tanga, encontrou a planta nas montanhas Usambara. Enviou sementes para a Alemanha, onde o botânico Hermann Wendland a descreveu em 1893 com o nome Saintpaulia ionantha, em homenagem ao barão.

A planta foi exibida ao público pela primeira vez em 1893 e logo chamou atenção. A virada comercial veio em 1927, quando os primeiros híbridos comerciais foram lançados nos Estados Unidos, todos em tons de azul.

Em 1946 foi fundada a Sociedade Americana da Violeta-africana. Na mesma época, o cultivo sob lâmpadas fluorescentes permitiu manter a planta florida dentro de casa o ano inteiro. A partir de 1935, a família Holtkamp, na Alemanha, criou variedades que florescem sem parar e não perdem as flores.

 

Segura para Gatos, Sensível à Água Fria

Ao contrário de muitas plantas de interior, a Violeta-africana não é tóxica para cães e gatos, segundo a lista de plantas da ASPCA, a principal entidade americana de proteção animal. Por isso é uma das opções mais seguras para casas com animais.

As folhas, porém, são sensíveis. Gotas de água fria sobre elas causam manchas claras e permanentes, e por isso a rega deve ser feita no substrato ou por baixo, no pratinho, com água em temperatura ambiente.

Ela não tem uso medicinal documentado nem flores comestíveis. As violetas de flores comestíveis são as do gênero Viola, como a Violeta-de-cheiro.

 

Nativa das encostas rochosas da Tanzânia, a violeta-africana está ameaçada de extinção em seu habitat original — 70% das áreas onde crescia foram destruídas pelo desmatamento.

 

Um Nome Emprestado da Europa

A Violeta-africana não tem mitos antigos. Chegou à cultura humana há pouco mais de um século, e todo o seu simbolismo foi emprestado. Ganhou o nome de violeta pela semelhança da flor roxa com a Viola odorata, a violeta das lendas gregas e dos buquês vitorianos.

No século 20, a planta virou símbolo da casa e do cuidado. Tornou-se presente clássico para mães e avós, planta de escritório e de janela de cozinha, a primeira planta de muita gente.

Nas floriculturas, costuma ser associada à devoção e à amizade, significados modernos que vêm de sua fama de florescer o ano inteiro quando bem cuidada.

 

Uma Folha Vira Planta, Mas Nem Sempre Igual

Um dos segredos mais conhecidos pelos fãs da Violeta-africana é a propagação por folha. Basta cortar uma folha com o talo, colocá-la na água ou no substrato úmido e esperar: da base do talo nascem raízes e depois pequenas plantas, geneticamente idênticas à planta-mãe.

Há uma exceção curiosa. As violetas chamadas quimeras, com flores listradas como um cata-vento, têm tecidos de genética diferente em camadas. Quando multiplicadas por folha, perdem o desenho e voltam a ter flores de uma cor só.

Para manter o padrão, os cultivadores removem o miolo da planta e esperam brotar pequenos brotos laterais, que preservam as listras.

 

Uma única folha colocada num copo d'água gera uma planta inteira geneticamente idêntica — por isso é a planta mais trocada entre vizinhos e colecionadores do mundo.

 

Das Janelas do Mundo às Florestas Ameaçadas

A Violeta-africana é uma das plantas de interior mais cultivadas do mundo, com milhares de cultivares de flores brancas, rosa, vermelhas, roxas, bicolores, dobradas e franjadas. No Brasil, é presença constante em floriculturas e supermercados, com produção em polos de flores como Holambra, em São Paulo.

Na natureza, a situação é outra. As florestas do Arco Oriental foram muito reduzidas pela agricultura e pela extração de madeira, e várias espécies do grupo estão ameaçadas. A Streptocarpus ionanthus é considerada quase ameaçada.

É um contraste raro: uma planta presente em milhões de casas e cada vez mais escassa nas montanhas de onde veio.

 

A Flor que Viajou Mais que Sua Floresta

Em pouco mais de um século, a Violeta-africana saiu de rochas úmidas nas montanhas da Tanzânia e chegou a janelas de todos os continentes. Ganhou um nome de barão, depois outro dado pela genética, milhares de cores e o título de planta de interior de muita gente.

Sua história mostra o que o cultivo pode fazer por uma espécie e o que ele não substitui. Os vasinhos garantem que a planta não desapareça, mas só a proteção das florestas mantém viva a Violeta-africana selvagem.

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Fontes

  • Wikipedia. Streptocarpus sect. Saintpaulia. Link
  • National Garden Bureau. Year of the African Violet. Link
  • Wikipedia. Walter von Saint Paul-Illaire. Link
  • ASPCA. Toxic and Non-toxic Plants: African Violet. Link
  • The Violet Barn. African violets: Propagating chimeras. Link
  • Gesneriad Society. Saintpaulia, the NEW Streptocarpus. Link

 

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