Vitória-régia: A Estrela das Águas que Inspirou o Palácio de Cristal

Da lenda de Naiá aos jardins de Chatsworth, a planta amazônica de folhas gigantes ganhou o nome de uma rainha, prende besouros dentro da flor e escondeu uma prima por 177 anos

 

Lagos — A Folha que Parece uma Bandeja

Nas águas calmas da Amazônia, a Vitória-régia abre folhas redondas que podem chegar a 3 metros de diâmetro, com as bordas viradas para cima como enormes bandejas. Vistas do alto, parecem tapetes verdes boiando sobre o rio. No Brasil, a planta virou símbolo da Amazônia e aparece em livros escolares, cartões-postais e lagos de jardins botânicos.

Por baixo dessa calma, a planta guarda uma engenharia complexa, uma flor que muda de cor em 2 noites e uma história que passa por exploradores, uma rainha inglesa, uma estufa famosa e uma lenda indígena sobre a Lua.

Esta é a história da Victoria amazonica, a planta aquática que inspirou um edifício famoso do século 19, que ganhou o nome de uma rainha e que, em 2022, revelou ter uma parente escondida havia 177 anos num herbário de Londres.

 

Igapó — A Gigante das Águas Paradas

A Vitória-régia vive em lagos, igapós e remansos da bacia amazônica, em águas quentes e calmas. Suas raízes ficam presas ao fundo, num rizoma que pode ter até 20 centímetros de espessura. Dele saem pecíolos, os talos das folhas, que chegam a 7 ou 8 metros de comprimento até alcançar a superfície.

As folhas podem atingir 3 metros de diâmetro, mas são surpreendentemente leves. Uma folha de 2,6 metros pesou apenas 6,1 quilos, graças aos espaços cheios de ar entre as nervuras. Ao se abrir sobre a água, a folha cobre e sombreia plantas menores, garantindo luz para si.

A parte de baixo é coberta de espinhos, assim como os talos. Eles protegem a planta contra peixes e outros animais que tentam comer suas folhas. A planta pode viver só uma estação ou vários anos, dependendo das condições da água. Suas flores chegam a 40 centímetros de diâmetro e pesam até 1,6 quilo.

 

Por baixo, a folha da vitória-régia é uma rede de nervuras grossas, cheias de ar e armadas de espinhos — é o que a mantém rígida e boiando com até cerca de 3 metros de diâmetro

 

Victoria — O Nome de uma Rainha

O primeiro europeu a descrever a planta foi o naturalista Tadeáš Haenke, em 1801. Em 1825, o botânico francês Aimé Bonpland também coletou exemplares. Mas foi o explorador Robert Schomburgk quem tornou a planta famosa, ao enviar para a Inglaterra, em 1837, espécimes coletados na antiga Guiana Inglesa.

Naquele mesmo ano, a jovem Vitória subia ao trono britânico. O botânico John Lindley batizou o gênero de Victoria, em homenagem à nova rainha, e a planta ficou conhecida como Victoria regia. É desse nome que vem a palavra vitória-régia, usada até hoje no Brasil.

Em 1850, o nome científico mudou para Victoria amazonica, mas o novo nome só se tornou comum no século 20. Enquanto isso, jardineiros ingleses tentavam fazer a planta florescer fora da Amazônia. Em novembro de 1849, Joseph Paxton, jardineiro do duque de Devonshire, conseguiu a primeira floração na Inglaterra, numa estufa aquecida em Chatsworth. A conquista foi celebrada, e uma das primeiras flores foi levada à própria rainha Vitória.

 

Nervuras — A Folha que Inspirou um Palácio

A força da folha está nas nervuras. Por baixo, ela tem costelas que irradiam do centro, ligadas por nervuras transversais flexíveis. Essa estrutura distribui o peso e permite que a folha aguente muito mais do que parece. Em Gante, na Bélgica, uma folha sustentou 226 quilos.

Paxton fez uma demonstração famosa. Em 1849, o jornal Illustrated London News publicou uma gravura de sua filha pequena, Annie, em pé sobre uma folha de Vitória-régia, na estufa de Chatsworth. A imagem correu a Inglaterra e transformou a planta numa celebridade.

O próprio Paxton estudou essas nervuras ao projetar estufas. A estrutura da folha influenciou o desenho do Palácio de Cristal, o enorme prédio de ferro e vidro criado por ele para a Grande Exposição de Londres, em 1851. O edifício tinha cerca de 4 vezes o tamanho da Basílica de São Pedro, em Roma. O ferro e o vidro do prédio repetiam, em escala gigante, a lógica de nervuras que Paxton tinha observado na planta.

 

A flor abre branca e perfumada na primeira noite, aquece e prende besouros dentro dela — na segunda noite, fica rosa e os solta cobertos de pólen

 

Naiá — A Estrela das Águas

Para os povos tupis-guaranis, a Vitória-régia tem outra origem. A lenda conta que Jaci, a Lua, visitava as moças mais bonitas à noite e transformava algumas delas em estrelas. Uma jovem chamada Naiá sonhava em ser escolhida e passava as noites olhando para o céu.

Naiá deixou de comer e de dormir, sempre perseguindo a Lua. Numa noite, viu o reflexo de Jaci nas águas de um lago e mergulhou para alcançá-la. Não voltou mais. Comovida com o sacrifício, Jaci transformou a moça numa estrela diferente: a estrela das águas, a Vitória-régia, que abre suas flores brancas à noite, quando Jaci aparece no céu.

Existem várias versões dessa lenda, todas baseadas numa moça que tenta se unir à Lua. A história ficou tão conhecida que virou parte do folclore brasileiro ensinado nas escolas. Na Guiana, de onde Schomburgk enviou a planta para a Inglaterra, a Vitória-régia também aparece no brasão de armas do país.

 

Besouros — A Flor que Prende seus Visitantes

A flor da Vitória-régia vive só cerca de 2 dias, mas faz muito nesse tempo. Na primeira noite, ela abre branca e solta um perfume frutado. O cheiro atrai besouros do gênero Cyclocephala, que entram na flor em busca de alimento e de calor.

Então a flor se fecha, e os besouros ficam presos lá dentro. Durante o dia, eles se alimentam de tecidos ricos em amido no interior da flor. Enquanto isso, as pétalas mudam de cor e passam do branco para o rosa avermelhado, por causa das antocianinas.

Na segunda noite, a flor se abre de novo, agora rosada. Os besouros saem cobertos de pólen e voam para outra flor branca que acabou de abrir, levando o pólen com eles. Assim, a planta garante a polinização cruzada, e o ciclo se repete a cada nova flor ao longo da estação. A flor rosada, já sem perfume, deixa de atrair visitantes e afunda na água, onde os frutos se desenvolvem com as sementes.

 

Em 1849, o jardineiro Joseph Paxton fez a vitória-régia florescer pela primeira vez na Inglaterra — e se inspirou nas nervuras da folha para projetar estufas como o Palácio de Cristal, de 1851

 

Boliviana — A Prima Escondida e o Milho-d’água

Em 2022, o Jardim Botânico de Kew, em Londres, anunciou uma nova espécie: a Victoria boliviana. O horticultor Carlos Magdalena desconfiava havia quase 20 anos que uma das plantas cultivadas ali era diferente. Exemplares dela estavam guardados no herbário de Kew havia 177 anos sem que ninguém percebesse. Na Bolívia, uma folha dessa espécie chegou a 3,2 metros.

Hoje, o gênero tem 3 espécies reconhecidas: a Victoria amazonica, a Victoria cruziana, que também ocorre no Brasil, e a nova Victoria boliviana, parente mais próxima da cruziana. As duas se separaram há cerca de 1 milhão de anos. Magdalena chamou a descoberta de a maior conquista de seus 20 anos de carreira em Kew.

A Vitória-régia também é comestível. Segundo o biólogo Valdely Kinupp, as sementes estouram como pipoca, o que explica o nome popular milho-d’água. O rizoma, chamado de cará-d’água, pode ser comido quando maduro, e os talos e as flores entram em receitas de plantas alimentícias não convencionais.

 

Lua — Uma Planta Entre a Ciência e a Lenda

A Vitória-régia nasceu nos igapós da Amazônia, ganhou o nome de uma rainha inglesa, floresceu numa estufa em Chatsworth e inspirou o Palácio de Cristal. Nas mãos de botânicos, revelou nervuras de engenharia e uma flor que prende besouros por uma noite.

Na lenda tupi-guarani, ela é Naiá, a estrela das águas. Entre a ciência e a lenda, a planta continua abrindo suas flores brancas ao anoitecer, nas mesmas águas onde a Lua se reflete há milhares de anos. Quem vê uma folha gigante boiando num lago amazônico está olhando, ao mesmo tempo, para uma obra de engenharia natural e para uma lenda conhecida em todo o Brasil.

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