Cenoura: A Raiz Roxa da Pérsia que Ficou Laranja na Holanda e Aprendeu o Verão no Brasil

Domesticada na Ásia Central em tons de roxo e amarelo, a Cenoura só ficou laranja na Holanda, sem provas de homenagem à Casa de Orange. Virou mito de guerra na Inglaterra e, no Brasil, ganhou a variedade Brasília, criada para o calor tropical

 

Raiz — A Hortaliça que Nem Sempre Foi Laranja

A Cenoura está no bolo com cobertura de chocolate, na salada ralada, na sopa, no suco com Laranja e no refogado. No Brasil, é presença garantida na feira, na merenda e na marmita. É tão familiar que parece ter sido sempre assim: comprida, doce e laranja. Mas a Cenoura laranja é uma invenção recente na longa história da planta.

As primeiras Cenouras cultivadas eram roxas e amarelas, plantadas na Ásia Central há cerca de mil anos. Antes disso, a planta selvagem era colhida mais pelas sementes e folhas aromáticas do que pela raiz fina e amarga, usada sobretudo como remédio.

Esta é a história de uma raiz que mudou de cor na Europa, ganhou nome de rabanete estrangeiro na China e, no Brasil, precisou ser reinventada para aguentar o calor do verão.

 

Daucus — Da Flor Rendada à Raiz Doce

A Cenoura cultivada é a subespécie Daucus carota subsp. sativus, da família Apiaceae, a mesma da Salsa, do Coentro, da Erva-doce e do Aipo. A forma selvagem, descrita por Linnaeus em 1753, cresce em campos e beiras de estrada na Europa e na Ásia. Suas flores brancas, reunidas em guarda-chuvas rendados, deram à planta o apelido de renda-da-rainha-Ana em inglês.

A Cenoura selvagem tem raiz fina, esbranquiçada e amarga. Ao longo de gerações, agricultores escolheram plantas com raízes mais grossas, macias e doces, até chegar à Cenoura de hoje. A planta é bienal: no 1º ano, acumula reservas na raiz; no 2º, floresce e produz sementes.

O nome vem do grego karōton, ligado a uma raiz indo-europeia que quer dizer chifre, por causa da forma alongada e pontuda. Daí vieram carota, em latim e italiano, carrot, em inglês, e caroteno, o pigmento que dá cor à raiz. Cenoura, em português, chegou pelo árabe safunnārya.

 

A Daucus carota é da família Apiaceae, a mesma do Coentro, da Salsa e da Erva-doce

 

Pérsia — Da Ásia Central à Europa e à China

Sementes de Cenoura selvagem aparecem em sítios da Suíça e do sul da Alemanha com 4 a 5 mil anos, mas provavelmente vinham de plantas coletadas pelas sementes aromáticas. Gregos e romanos conheciam a planta como remédio, e o médico grego Dioscórides a descreveu no século 1.

A Cenoura domesticada tem origem única na Ásia Central, segundo a história escrita e os estudos genéticos. Foi cultivada na Pérsia, nos atuais Irã e Afeganistão, por volta do século 10 ou antes. Essa região ainda guarda grande diversidade de Cenouras roxas, amarelas e vermelhas.

Dali, a raiz se espalhou. Os árabes a levaram à Península Ibérica, e ela chegou à China por volta do século 12, onde ganhou o nome de húluóbo, o rabanete dos povos estrangeiros. No Japão, apareceu entre os séculos 16 e 17. Na Europa, as Cenouras roxas e amarelas foram as primeiras a se espalhar, e no século 11 já havia registros de Cenouras vermelhas e amarelas. Ainda eram raízes menos doces que as atuais, usadas em sopas e cozidos.

 

Caroteno — A Cor que Vira Vitamina

A cor laranja da Cenoura vem do betacaroteno, um pigmento que o corpo transforma em vitamina A no intestino. Cem gramas de Cenoura crua fornecem quase toda a vitamina A recomendada para 1 dia. Essa vitamina é importante para a visão em pouca luz, para a pele e para o sistema de defesa do organismo.

As Cenouras roxas têm antocianinas, os mesmos pigmentos da Uva e da Jabuticaba. As amarelas têm luteína, e as vermelhas, licopeno, o pigmento do Tomate. Cada cor traz um conjunto diferente de compostos, e por isso misturar Cenouras de várias cores no prato também diversifica os nutrientes. A raiz ainda oferece fibras, potássio e vitamina K, com poucas calorias.

O betacaroteno é mais bem aproveitado quando a Cenoura é cozida e servida com um pouco de gordura, como azeite. Comer Cenoura em excesso pode deixar a pele levemente amarelada, um efeito chamado carotenemia, que é inofensivo e desaparece quando o consumo diminui.

 

As primeiras Cenouras cultivadas, na Ásia Central, eram roxas e amarelas — a cor laranja se firmou na Europa a partir do século 17

 

Radar — O Mito dos Pilotos que Viam no Escuro

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo britânico espalhou que seus pilotos enxergavam inimigos à noite porque comiam muita Cenoura. A história ajudava a esconder o verdadeiro segredo: um novo sistema de radar instalado nos aviões. Os alemães não deveriam saber que os britânicos tinham essa tecnologia.

A propaganda também servia ao racionamento. Com a importação de alimentos difícil, o governo incentivava hortas caseiras e o consumo de Cenouras, que eram fáceis de plantar. Surgiram receitas de bolos, pudins e até doces feitos com a raiz no lugar do açúcar.

A ideia de que Cenoura melhora a visão tem um fundo verdadeiro. A falta de vitamina A causa cegueira noturna, e quem tem essa carência enxerga melhor quando volta a consumir alimentos ricos em betacaroteno. Mas comer mais Cenoura não dá superpoderes a quem já tem uma alimentação adequada. Mesmo assim, o mito sobreviveu à guerra e ainda é repetido a crianças em muitos países, inclusive no Brasil.

 

Laranja — O Mito da Casa de Orange

As Cenouras laranjas ganharam força na Holanda, entre os séculos 16 e 17. Agricultores holandeses desenvolveram variedades laranjas que se tornaram a base das Cenouras modernas no mundo inteiro.

Uma história muito repetida diz que os holandeses criaram a Cenoura laranja para homenagear a Casa de Orange, a família que liderou a independência do país. Não há provas convincentes disso. Uma explicação mais simples é que a Cenoura laranja tinha bom sabor e não escurecia sopas e ensopados, como acontecia com as roxas.

Pinturas holandesas e flamengas dos séculos 16 e 17 mostram Cenouras de várias cores em mercados e cozinhas, o que confirma que a laranja conviveu por um tempo com as outras. Hoje, Cenouras roxas, amarelas e brancas voltaram às feiras como novidade, embora sejam mais antigas que a laranja. A Cenoura laranja, por sua vez, virou o padrão mundial. Variedades holandesas como a Long Orange e a Horn deram origem a boa parte das Cenouras cultivadas depois.

 

Na Segunda Guerra, os britânicos espalharam que seus pilotos enxergavam no escuro por comer Cenoura — era propaganda para esconder o uso do radar

 

Brasília — A Cenoura que Aprendeu a Gostar do Calor

No Brasil, a Cenoura foi por muito tempo uma cultura de clima frio, plantada a partir de sementes e variedades europeias. No começo dos anos 1970, quase todas as sementes eram importadas, e a colheita ficava restrita aos meses mais frescos. O verão, quente e chuvoso, favorecia doenças nas folhas.

Em 1981, o agrônomo Jairo Vidal Vieira, da Embrapa, lançou a Cenoura Brasília, adaptada ao clima tropical e resistente à queima-das-folhas. A variedade permitiu plantar o ano inteiro, reduziu o uso de agrotóxicos e chegou a responder por quase 80% da Cenoura produzida no país. Entre 1981 e 1984, a produtividade subiu cerca de 50%.

Hoje, Minas Gerais concentra cerca de 61% da área plantada no Brasil, segundo dados da safra 2022/23. A região do Alto Paranaíba, com São Gotardo à frente, abastece cerca de 40% do país. Na cozinha, a raiz virou estrela do bolo de Cenoura com cobertura de chocolate, presente em lanches e festas de todo o país.

 

Cores — Uma Raiz em Constante Mudança

A Cenoura nasceu da planta selvagem de flores rendadas, foi domesticada na Ásia Central e chegou à Europa, à China e ao Japão em cores que iam do roxo ao amarelo. Na Holanda, ganhou a cor laranja que hoje parece natural, embora não haja provas de que tenha sido uma homenagem à família real.

Na Segunda Guerra, virou personagem de propaganda, e no Brasil precisou da pesquisa agrícola para enfrentar o calor tropical. Hoje, a China produz 42% da Cenoura do mundo, e o Brasil tem sua própria variedade de verão. Nas feiras, as Cenouras coloridas voltam a lembrar suas origens. No bolo de domingo, a raiz guarda séculos de mudanças, da Pérsia a São Gotardo.

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