Raiz — Um Doce que Cruzou Oceanos
A Batata-doce parece prima da Batata-inglesa, mas as duas são parentes distantes. Ela pertence à família das Convolvuláceas, a mesma da Ipomeia, aquela trepadeira de flores em forma de funil. O que vai à panela não é um caule, como na Batata-inglesa, e sim uma raiz que engorda para guardar reservas.
Essa raiz tem uma trajetória cheia de surpresas. Nasceu nas Américas há milhares de anos, apareceu na Polinésia antes da chegada de Colombo e atravessou o mar escondida num navio chinês. Também carrega no próprio DNA pedaços de uma bactéria.
Esta é a história da Ipomoea batatas, uma planta que alimentou povos em tempos de fome, ganhou um prêmio mundial pela cor da polpa e mudou a mesa de lugares tão distantes quanto Peru, China, Japão, Moçambique e Brasil.
Chilca — Restos de 10 Mil Anos no Deserto do Peru
A Batata-doce nasceu na América tropical. A região de origem mais provável fica entre a península de Yucatán, no México, e a foz do rio Orinoco, na Venezuela. Seu parente selvagem mais próximo é a Ipomoea trifida, uma trepadeira da mesma região.
Os restos mais antigos conhecidos foram encontrados no cânion de Chilca, no Peru. A datação por radiocarbono aponta para cerca de 10 mil anos atrás. Não se sabe ao certo se aquelas raízes já eram cultivadas ou se eram colhidas de plantas silvestres, mas elas mostram que a planta fazia parte da vida dos povos andinos desde muito cedo.
Na América Central, a Batata-doce domesticada já existia há pelo menos 5 mil anos. Por volta de 2500 antes da era comum, ela provavelmente já tinha chegado ao Caribe e à América do Sul. Foi no Caribe que a tripulação de Cristóvão Colombo provou a raiz em 1492. Pouco depois, ela seguiu para a Espanha, que em 2023 era o maior produtor da Europa. Em 1604, já aparecia num livro de receitas escrito na Inglaterra, o de Elinor Fettiplace.
Kumara — A Raiz que Chegou à Polinésia Antes de Colombo
Um enigma da Batata-doce está no meio do oceano Pacífico. Na ilha de Mangaia, no arquipélago das Ilhas Cook, restos da planta foram datados entre os anos 1210 e 1400 da era comum. Isso é mais de 1 século antes de Colombo cruzar o Atlântico e muito antes de qualquer navio europeu chegar ao Pacífico.
Os nomes também chamam atenção. Em várias línguas polinésias, a Batata-doce se chama kumara ou kumala. Em quíchua e aimará, línguas dos Andes, uma palavra parecida, k’umar, aparece ligada à planta. Para muitos linguistas, a semelhança é forte demais para ser coincidência.
A explicação mais aceita hoje é que navegadores polinésios chegaram à costa da América do Sul e voltaram com ramas da planta. Alguns pesquisadores defendem outra hipótese, de que sementes teriam cruzado o mar sozinhas, levadas por aves ou correntes, muito antes dos humanos. Na Nova Zelândia, onde os maoris plantaram a kumara, uma escavação perto de Dunedin, publicada em 2021, mostrou que ela já era cultivada e armazenada no século 15.
Laranja — A Cor que Ganhou um Prêmio Mundial
A Batata-doce aparece em muitas cores. A casca pode ser amarela, laranja, vermelha, marrom, roxa ou bege, e a polpa varia do branco ao laranja-escuro. Dependendo da variedade e do clima, as raízes ficam prontas para a colheita entre 2 e 9 meses depois do plantio.
As variedades de polpa laranja-escura têm mais betacaroteno do que as de polpa clara. O corpo humano transforma o betacaroteno em vitamina A. Segundo dados nutricionais de referência, 100 gramas de Batata-doce assada fornecem mais vitamina A do que o valor diário de referência.
Essa cor virou ferramenta contra a fome escondida. Em 1997, a pesquisadora Maria Andrade começou a levar variedades de polpa laranja a Moçambique e Uganda, com campanhas de rádio, visitas a aldeias e receitas. Em 2016, ela, Robert Mwanga e Jan Low, do Centro Internacional da Batata, e Howarth Bouis, do programa HarvestPlus, receberam o Prêmio Mundial da Alimentação. Na época, 2 milhões de famílias em 10 países africanos já plantavam ou comiam essas batatas.
Contrabando — A Rama Escondida na Corda do Navio
A chegada da Batata-doce à China tem enredo de aventura. Os espanhóis a levaram às Filipinas pelos galeões que ligavam Acapulco a Manila. Em 1593, o comerciante chinês Chen Zhenlong encontrou a planta em Luzon. Como as autoridades espanholas proibiam levá-la para fora, ele enrolou as ramas numa corda e as escondeu junto ao casco do navio.
No mesmo ano, uma seca forte atingiu a província de Fujian, no sul da China. O filho de Chen, Chen Jinglun, apresentou a nova planta ao governador da província como alimento de emergência. O governador incentivou o plantio em Fujian, e a Batata-doce ajudou a população a atravessar a crise.
Mais tarde, um templo foi construído em homenagem aos responsáveis pela chegada da planta. A Batata-doce produzia muitas calorias por área e crescia em terras pobres, onde o Arroz e o Trigo não davam bem. Historiadores como Ping-ti Ho a apontam entre as plantas americanas que ajudaram a sustentar o crescimento da população chinesa nos séculos seguintes. Em 2020, a China respondia por cerca de 55% da produção mundial.
Bactéria — Um Transgênico Feito pela Natureza
A Batata-doce guarda um segredo dentro das células. Em 2015, um estudo publicado na revista científica PNAS analisou mais de 200 variedades cultivadas e encontrou trechos de DNA de uma bactéria do gênero Agrobacterium inseridos no genoma da planta.
Um desses trechos estava presente em todas as variedades testadas. Outro aparecia em cerca de 1/4 das amostras e também em algumas espécies selvagens aparentadas. Os genes vindos da bactéria continuam ativos nos tecidos da planta. Por isso, os pesquisadores descreveram a Batata-doce como um exemplo de planta alimentícia transgênica por natureza.
A Agrobacterium é justamente a bactéria que cientistas usam em laboratório para inserir genes em plantas. A descoberta mostrou que esse tipo de transferência acontece na natureza sem ajuda humana. Os autores sugerem que os genes bacterianos podem ter influenciado características que interessaram aos primeiros agricultores, mas isso ainda está em estudo. O caso virou argumento frequente no debate sobre transgênicos, usado por quem defende e também por quem critica essa tecnologia.
Satsuma — De Okinawa ao Prato Brasileiro
No Japão, a Batata-doce entrou pelo sul. Em 1605, o marinheiro Noguni Sokan trouxe a planta da China para Okinawa, então parte do Reino de Ryukyu. Cerca de 1 século depois, um agricultor de Satsuma, no sul da ilha de Kyushu, levou ramas de Ryukyu para casa. Em Kagoshima, ela ainda é chamada de karaimo, a batata da China.
O resto do Japão a conheceu como satsumaimo, a batata de Satsuma. No século 18, o xogum Tokugawa Yoshimune encarregou o estudioso Aoki Konyo de espalhar o cultivo como reserva contra a fome. Em Okinawa, ao longo do século 20, a Batata-doce foi a principal fonte de energia da dieta tradicional da ilha.
No Brasil, ela faz parte da mesa há gerações, cozida, assada, em doces e no café da manhã. Em 2024, o país colheu 907 mil toneladas em 65,6 mil hectares, segundo a Embrapa. Em Pelotas, no Rio Grande do Sul, a Embrapa apresentou a BRS Prenda, uma variedade com alta concentração de carotenoides que surgiu de um cruzamento espontâneo em lavouras de agricultores.
Rama — Uma Planta que Viaja em Pedaços
A Batata-doce é uma raiz que viaja bem. Saiu da América tropical há milhares de anos, chegou às ilhas do Pacífico antes de Colombo e cruzou o mar da China escondida na corda de um navio. Em cada lugar, virou comida de todo dia e reserva para os anos difíceis.
Também guarda no próprio genoma genes de uma bactéria e ganhou um prêmio mundial pela cor laranja da polpa. Do Peru a Okinawa, de Moçambique ao Rio Grande do Sul, basta um pedaço de rama enterrado na terra para que a história recomece. É uma raiz simples que atravessou oceanos e séculos.
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Fontes
- Sweet potato (Wikipedia)
- Why the Humble Sweet Potato Won the World Food Prize (Smithsonian Magazine)
- 2016 Laureates: Andrade, Bouis, Low e Mwanga (World Food Prize Foundation)
- GMOs are not a human invention: sweet potato is a naturally transgenic food crop (The Science Breaker)
- The genome of cultivated sweet potato contains Agrobacterium T-DNAs (Kyndt et al., PNAS 2015)
- Sweet Potato and the Qing (Hung-Yi Chen)
- How one man’s small action resulted in hundreds of thousands of lives saved (More Than Tokyo)
- Embrapa apresenta batata-doce biofortificada e de alta produtividade (Agrolink)

