Jasmim: A Flor que Abre à Noite, Perfuma o Chá Chinês e o Chanel Nº 5

Com nome persa e cerca de 200 espécies, o Jasmim virou guirlanda na Índia, flor nacional nas Filipinas e na Indonésia, chá em Fuzhou e perfume em Grasse, e ainda ajudou a ciência a descobrir os hormônios de defesa das plantas

 

Noite — O Perfume que Abre no Escuro

Há flores que guardam o perfume para a noite. O Jasmim é uma delas. Enquanto muitas plantas exibem cores fortes durante o dia, várias espécies de Jasmim abrem flores brancas no fim da tarde e espalham um aroma doce e intenso quando escurece, chamando insetos noturnos.

Esse perfume atravessou continentes. Virou guirlanda em templos e casamentos da Ásia, flor nacional de países, sabor de chá na China e ingrediente de perfumes famosos, colhido à mão no sul da França, no Egito e na Índia. No Brasil, o nome Jasmim batiza flores de quintal que perfumam varandas e muros.

Esta é a história de uma flor pequena que move uma indústria inteira, ajudou cientistas a entender a defesa das plantas e empresta seu nome a muitas plantas que nem são Jasmim.

 

Yasaman — O Nome Persa da Flor Perfumada

O gênero Jasminum pertence à família Oleaceae, a mesma da Oliveira e do Lilás. Reúne cerca de 200 espécies de arbustos e trepadeiras, nativas das regiões tropicais e temperadas quentes da Ásia, da África e da Oceania, com maior diversidade no sul e no sudeste da Ásia.

O nome vem do persa yasaman, flor perfumada, e passou ao árabe e às línguas europeias. Entrou no francês por volta de 1570 e chegou ao inglês no mesmo século. Em português, virou Jasmim.

Algumas espécies dominam a história. O Jasminum grandiflorum, de flores grandes, é nativo do sul da Ásia, da Península Arábica e do leste da África, e é a base da perfumaria. O Jasminum sambac, de flores mais carnudas, é nativo do Butão e da Índia. Já o Jasminum officinale, o Jasmim-comum, é cultivado em jardins de clima temperado. Há também espécies de flores amarelas, como o Jasmim-amarelo, que não têm o perfume intenso das brancas.

 

No jasmim-real, os botões são rosados por fora e se abrem em estrelas brancas de 5 pétalas — uma planta da mesma família da oliveira, as Oleáceas

 

Sampaguita — De Guirlanda Sagrada a Flor Nacional

O Jasminum sambac se espalhou cedo pelo sul e pelo sudeste da Ásia. Na Índia, suas flores são trançadas em guirlandas para os cabelos, para casamentos e para oferendas nos templos. Nas Filipinas, é a sampaguita, flor nacional desde 1934. Na Indonésia, o melati putih, Jasmim branco, foi declarado flor nacional em 1990.

No Havaí, onde ganhou o nome de pikake, o sambac é usado em colares de flores. No Paquistão, a flor nacional é outra espécie, o Jasminum officinale, chamado de chambeli. Na Tunísia e na Síria, o Jasmim também é símbolo nacional, e Damasco ficou conhecida como a cidade do Jasmim, com pés da planta subindo pelos pátios das casas antigas.

O Jasminum grandiflorum seguiu outro caminho. Levado para a bacia do Mediterrâneo, ganhou nomes como Jasmim-espanhol e Jasmim-catalão, e foi introduzido como matéria-prima de perfumes na Europa no século 16. Dali chegou a Grasse, no sul da França.

 

Indol — A Química do Perfume Noturno

O cheiro do Jasmim é uma mistura de dezenas de compostos. No Jasminum grandiflorum, os principais são o acetato de benzila e o benzoato de benzila, que dão notas doces e frutadas. Há também linalol, jasmona e indol.

O indol é o ingrediente mais curioso. Sozinho e concentrado, tem cheiro forte e desagradável, e aparece até nas fezes. Diluído no meio das outras moléculas, dá ao Jasmim um fundo quente e sensual, que os perfumistas chamam de animálico. O Jasmim egípcio e o sambac costumam ser descritos como mais ricos nessa nota, enquanto o de Grasse é tido como mais leve e verde.

As flores do Jasminum sambac abrem à noite, geralmente entre 18 e 20 horas, e fecham pela manhã, num ciclo de 12 a 20 horas. Por isso, a colheita para perfumaria é feita de madrugada ou ao amanhecer, quando o perfume está mais concentrado e antes que o calor do dia o enfraqueça.

 

Em Grasse, no sul da França, o jasmim é colhido à mão logo ao amanhecer, quando as flores acabaram de abrir e o perfume está no auge

 

Mo Li Hua — O Chá, a Canção e a Revolução

Na China, o Jasminum sambac se chama mo li hua, e suas flores perfumam o chá de jasmim. O chá verde é misturado às flores recém-abertas, que soltam o aroma durante a noite. O processo pode ser repetido várias vezes, com flores novas, e depois as pétalas são retiradas. Chás de melhor qualidade costumam passar por várias rodadas de aromatização. A cidade de Fuzhou, na província de Fujian, ficou famosa por esse chá.

O Jasmim também virou música. A canção popular chinesa Mo Li Hua, flor de jasmim, é conhecida em todo o país e já foi apresentada em grandes cerimônias internacionais, como a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008.

Na Tunísia, a flor deu nome a 2 momentos políticos. A mudança de governo em 1987 foi chamada de Revolução de Jasmim. O nome voltou a ser usado na revolta popular de 2010 e 2011, que derrubou o presidente e abriu caminho para a Primavera Árabe.

 

Jasmonato — O Hormônio Batizado com o Nome da Flor

O Jasmim também deixou uma marca na ciência. Do óleo do Jasminum grandiflorum, químicos isolaram o jasmonato de metila, uma molécula perfumada. O estudo dessa substância ajudou a revelar a estrutura dos jasmonatos, hormônios que existem em muitas plantas.

Os jasmonatos funcionam como sinais de alarme. Quando uma planta é atacada por insetos ou ferida, produz essas moléculas, que ativam defesas químicas. O jasmonato de metila é volátil e pode até viajar pelo ar, levando plantas vizinhas a reforçar suas defesas antes de serem atacadas. Hoje, os jasmonatos são estudados na agricultura como forma de estimular a resistência natural das lavouras.

No Brasil, outro segredo está nos nomes. Muitas plantas chamadas de Jasmim não pertencem ao gênero Jasminum. O Jasmim-manga é uma Plumeria, o Jasmim-do-cabo é a Gardênia, o Jasmim-estrela é uma trepadeira de outra família, e a Dama-da-noite é parente do Tomate. Em comum, têm flores claras e perfumadas, e muitas delas também soltam o aroma ao entardecer. A semelhança no cheiro bastou para o povo batizá-las com o mesmo nome, mesmo sem parentesco botânico.

 

No chá de jasmim, as folhas de chá verde passam a noite misturadas com flores frescas, que depois são retiradas — o processo se repete várias vezes nos chás mais finos

 

Grasse — Da Família Mul à Vila de Shubra Beloula

Em Grasse, no sul da França, a família Mul cultiva flores para perfumaria desde 1840. Desde 1987, mantém parceria exclusiva com a Chanel e produz o Jasmim do perfume Nº 5, criado em 1921 por Ernest Beaux. Cerca de 350 quilos de flores rendem 1 quilo de concreto, que dá perto de 500 gramas de absoluto. Em 2018, a UNESCO reconheceu o saber fazer ligado ao perfume da região de Grasse como patrimônio cultural imaterial.

A maior parte do Jasmim de perfumaria, porém, vem de outros lugares. Egito e Índia produzem juntos cerca de 95% dos extratos de Jasmim do mundo. No Egito, o centro é a vila de Shubra Beloula, no delta do Nilo, onde trabalhadores colhem as flores à mão da meia-noite ao amanhecer.

A colheita exige atenção e paciência. Cada colhedor junta até 5 quilos de flores por dia, e a região colhe cerca de 20 toneladas diárias na safra. O trabalho sustenta milhares de famílias, mas os salários dos colhedores costumam ser baixos.

 

Pétala — Uma Flor Pequena com História Imensa

O Jasmim nasceu nas regiões quentes da Ásia e da África e ganhou nome persa. Virou guirlanda na Índia, flor nacional nas Filipinas, na Indonésia e no Paquistão, chá na China e símbolo político na Tunísia.

No laboratório, ajudou a revelar os jasmonatos, hormônios de defesa das plantas. Na perfumaria, segue colhido à mão no escuro, em Grasse, no Egito e na Índia. E no Brasil, empresta o nome a uma série de flores perfumadas, lembrando que, para muita gente, Jasmim é sinônimo de cheiro bom ao entardecer. Num muro de quintal ou num frasco de perfume caro, a flor continua guardando o mesmo segredo: abrir quando o dia termina e deixar no ar um rastro que atravessa séculos.

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