Da Pérsia que a domesticou há 4.000 anos ao Rosh Hashaná que a consagra como símbolo do Ano Novo judaico — a Romã é o fruto que aparece simultaneamente na Bíblia, no Alcorão e na mitologia grega, que os romanos chamavam de maçã cartaginesa e que tem exatamente 613 sementes segundo a tradição judaica.
A Romã tem um nome que guarda uma história. Punica granatum — maçã de muitas sementes, em latim. Em português, o nome vem do latim mala romana — maçã romana — numa confusão histórica que os próprios romanos ajudaram a criar ao chamá-la de malum punicum, maçã cartaginesa, por acreditarem que era originária do norte da África. Não era. Vinha da Pérsia. E carregava séculos de história sagrada antes de qualquer romano a provar. Esta é a história da Romã — o fruto mais simbólico das três religiões monoteístas e da mitologia grega ao mesmo tempo.
Malum Granatum — A Maçã de Muitas Sementes da Pérsia Antiga
A Romã, Punica granatum, é nativa da Pérsia — o atual Irã — e de regiões adjacentes da Ásia Central, incluindo o norte da Índia, o Afeganistão, o Azerbaijão, a Armênia e a Geórgia. Pertence à família Lythraceae — e o gênero Punica tem apenas duas espécies: a Punica granatum, a romã cultivada, e a Punica protopunica, encontrada apenas na ilha de Socotra no Iêmen e ameaçada de extinção. É um arbusto ramoso ou arvoreta de 2 a 5 metros de altura, com flores vermelho-alaranjadas vistosas e frutos globosos de casca coriácea e grossa — que protege centenas de sementes envolvidas em polpa suculenta vermelha, chamadas arilos. Na Armênia e na Geórgia, a leste do Mar Morto, há bosques de romãs selvagens fora das antigas colônias abandonadas — e restos de romãs fossilizadas datadas de 3.000 anos atrás foram encontrados em sítios arqueológicos armênios. A domesticação da romã ocorreu provavelmente entre 4.000 e 3.000 anos atrás no Irã — e foram os fenícios, os maiores navegadores comerciais da Antiguidade, quem a levou ao Mediterrâneo, de onde se espalhou para o Egito, a Grécia e Roma.
Da Pérsia ao Mediterrâneo — A Fruta que Fenícios Levaram e Romanos Mal Entenderam
A expansão da Romã pelo Mediterrâneo é uma das histórias de difusão de alimentos mais bem documentadas da Antiguidade. Os fenícios levaram a planta às colônias do norte da África — especialmente a Cartago — e ao sul da Península Ibérica. Quando os romanos entraram em contato com a fruta durante as Guerras Púnicas contra Cartago, nos séculos III e II antes da Era Cristã, associaram-na imediatamente aos cartagineses e a chamaram de malum punicum — maçã púnica ou maçã cartaginesa. O engano de origem pegou tão profundamente que o próprio nome científico do gênero — Punica — carrega essa confusão histórica até hoje. Em Portugal, o nome romã vem do latim mala romana — maçã romana — numa segunda camada de confusão sobre a origem da fruta. Nas áreas desérticas das rotas comerciais antigas, a Romã era especialmente valorizada pela casca grossa e coriácea que protegia os arilos da desidratação — permitindo às caravanas transportá-la por longas distâncias sem que fosse afetada em qualidade e sabor.
Punicalagina, Ácido Elágico e a Farmácia de 4.000 Anos Confirmada pela Ciência
A Romã é uma das frutas mais estudadas pela ciência moderna — e os resultados têm confirmado o que as tradições medicinais de 4.000 anos já praticavam. Seus principais compostos bioativos são os polifenóis — especialmente a punicalagina e o ácido elágico — presentes em concentrações extraordinariamente altas, especialmente na casca e no suco. A Romã tem atividade antioxidante superior ao vinho tinto e ao chá verde em estudos comparativos. Estudos demonstram propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas, anticancerígenas, anti-hipertensivas e antidiabéticas. O ácido punícico — um ômega-5 presente nas sementes — tem efeitos documentados na redução do colesterol LDL e na melhora da circulação sanguínea. As propriedades anti-helmínticas — contra parasitas intestinais — são descritas desde Dioscórides na Antiguidade e confirmadas por pesquisas modernas. O Papiro de Ebers egípcio, de 3.500 anos atrás, já descrevia o uso medicinal da Romã — tornando-a um dos primeiros alimentos com uso terapêutico documentado na história humana.
As 613 Sementes — O Símbolo Judaico que Conecta a Romã à Torá
A tradição judaica diz que cada Romã tem exatamente 613 sementes — o mesmo número de mitzvot, os mandamentos da Torá. Esse número é, claro, simbólico — Romãs têm entre 200 e 1.400 sementes conforme a variedade e o tamanho — mas o simbolismo é poderoso. No Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico, a Romã é consumida como símbolo de esperança por um ano tão repleto de boas ações quanto a fruta tem sementes. Aparece dezenas de vezes na Bíblia hebraica — enfeitando as vestes do Sumo Sacerdote, decorando as colunas do Templo de Salomão e descrita como uma das frutas da Terra Prometida. Em Israel, é considerada planta sagrada e símbolo nacional não oficial — presente em brasões, medalhas e decorações que remontam à Antiguidade. A tradição grega de cortar uma Romã durante o casamento como símbolo de fertilidade ainda persiste em cerimônias gregas tradicionais.
Perséfone, Afrodite e o Fruto que Governa as Estações
Na mitologia grega, a Romã está no centro de um dos mitos mais importantes — o rapto de Perséfone. Quando Hades, deus do submundo, raptou Perséfone, a jovem comeu seis sementes de Romã no reino dos mortos. Segundo o acordo mitológico, quem come no submundo fica preso a ele — e Perséfone foi obrigada a passar seis meses por ano com Hades. Deméter, sua mãe e deusa da colheita, enlutada pela ausência da filha, fez as plantas murcharem e a terra tornar-se estéril — criando o inverno. Quando Perséfone voltava, a primavera renascia. O mito é uma das narrativas fundadoras do pensamento sobre as estações na cultura ocidental — e a Romã está no seu centro como gatilho de todo o ciclo. Afrodite também tinha a Romã como símbolo — plantou a primeira romãzeira na ilha de Chipre, segundo a tradição, tornando-a símbolo do amor, da sexualidade e da fertilidade.
Maçã do Éden ou Romã? — O Debate Teológico que Ainda Não Terminou
Existe uma teoria persistente entre teólogos e historiadores de que o fruto proibido do Jardim do Éden não era uma maçã — mas uma Romã. A Bíblia hebraica usa apenas a palavra peri, fruta, sem especificar qual. A associação com a maçã foi uma interpretação tardia, consolidada na arte medieval europeia que pintava o fruto como uma maçã vermelha. Mas no Oriente Médio — onde a história se passa — a Romã era a fruta simbólica por excelência, presente em todas as culturas, textos sagrados e representações artísticas da região. Estudiosos islâmicos também consideram a Romã uma das frutas do paraíso — mencionada no Alcorão em três passagens. E as antigas representações artísticas do Jardim do Éden na arte judaica e cristã oriental mostram frequentemente uma Romã, não uma maçã. O debate é irresolvível por falta de evidências definitivas — mas a teoria da Romã tem bases históricas e geográficas mais sólidas que a da maçã.
Irã, Índia, Brasil e o Mercado Global da Fruta Mais Simbólica do Mundo
O Irã é o maior produtor mundial de Romã — responsável por aproximadamente 30% de toda a produção global, com a cidade de Saveh sendo o principal centro produtor. Índia, China, Turquia, Azerbaijão e Espanha completam os maiores produtores. No Brasil, a Romã chegou com os portugueses e se adaptou especialmente ao semiárido nordestino — onde o clima seco e quente reproduz as condições do habitat original. É consumida principalmente in natura e em suco, mas também em geleias, chás medicinais e receitas da culinária nordestina. O mercado de sucos de Romã cresceu exponencialmente nas últimas décadas — impulsionado pelas pesquisas sobre seus compostos bioativos e pela popularização do conceito de superalimentos. O sumo de Romã é hoje um dos sucos de frutas mais vendidos em mercados naturais e orgânicos do mundo. Da Pérsia que a domesticou há 4.000 anos ao copo de suco que promete combater o colesterol — a Romã percorreu milênios sendo simultaneamente fruto sagrado, símbolo de fertilidade, chave da mitologia das estações e farmácia natural confirmada pela ciência. Quer explorar mais sobre as frutas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!
