Escamas — Um Cacto que Dá Fruta
A Pitaya parece ter saído de um livro de fantasia. Por fora, tem casca rosa ou amarela coberta de escamas. Por dentro, uma polpa branca ou vermelha pontilhada de sementinhas pretas. Mas essa fruta tão vistosa nasce de uma planta discreta, um cacto que sobe em árvores e muros.
Suas flores também chamam atenção. São grandes, brancas, perfumadas e se abrem à noite, por poucas horas. Para virar fruta, dependem de morcegos, mariposas ou da ajuda de agricultores acordados de madrugada.
Esta é a história da Pitaya, um cacto das florestas da América Central que os franceses levaram ao Vietnã, que virou um dos grandes produtos de exportação daquele país e que hoje ganha lavouras e variedades próprias no Brasil.
Epífita — Um Cacto que Mora nas Árvores
A Pitaya é um cacto diferente da imagem do deserto. As espécies mais cultivadas pertencem ao gênero Selenicereus, que hoje reúne plantas antes classificadas como Hylocereus. Fazem parte da família das Cactáceas, a mesma do Mandacaru. São cactos trepadores e epífitos, que crescem apoiados em árvores e usam raízes aéreas para absorver água e nutrientes do ambiente.
A espécie mais comum, Selenicereus undatus, tem casca rosa e polpa branca. É nativa do sul do México e da costa do Pacífico da Guatemala, da Costa Rica e de El Salvador. A Selenicereus costaricensis tem casca e polpa vermelhas, e a Selenicereus megalanthus tem casca amarela e polpa branca.
O Brasil também tem uma Pitaya própria. A Selenicereus setaceus, conhecida como Saborosa, é a única espécie nativa do país. Seus frutos são pequenos, vermelhos, com espinhos e polpa branca. As outras variedades plantadas aqui vieram de fora. A Pitaya é chamada também de pitaia ou pitahaya, conforme a região.
Rei — Do Jardim Real às Lavouras do Vietnã
Nas Américas, a planta já era conhecida por povos indígenas. Na atual República Dominicana, os Taínos usavam uma espécie aparentada, a Selenicereus monacanthus. Mas a grande virada da Pitaya aconteceu do outro lado do mundo.
No século 19, os franceses levaram a planta ao Vietnã, onde ela foi cultivada inicialmente para o rei e depois em jardins. O plantio comercial começou no início dos anos 1980, no distrito de Thuan Bac, na província de Binh Thuan. Em vietnamita, a fruta é chamada de Thanh Long.
O crescimento foi rápido. A área plantada no Vietnã passou de 5.512 hectares em 2000 para 55.419 hectares em 2018, com mais de 1 milhão de toneladas colhidas naquele ano. Entre 80% e 85% da produção vai para fora, para cerca de 40 países e territórios. A China compra 68% das exportações vietnamitas da fruta, e a Pitaya chegou a representar cerca de 32% do valor das exportações de frutas e verduras do país.
Polpa — Água, Sementes e Flores que se Comem
A polpa da Pitaya tem cerca de 90% de água. Também contém ferro, cálcio, fósforo, vitaminas do complexo B, vitamina C, vitamina E e fibras. Em 100 gramas, fornece perto de 210 quilojoules, ou cerca de 50 calorias, um valor baixo para uma fruta tão doce na aparência.
As sementes pretas, pequenas e crocantes, lembram as do Kiwi e são comidas junto com a polpa. Elas guardam um óleo em que o ácido linoleico, um tipo de gordura, responde por cerca de metade dos ácidos graxos.
A planta oferece mais do que a fruta. As flores também podem ser comidas ou usadas para fazer chá. As cores fortes da polpa vermelha vêm de pigmentos chamados betalaínas, os mesmos da Beterraba. Com tanta cor, a Pitaya entrou com facilidade em sucos, sorvetes e tigelas de frutas. Em vários idiomas, a fruta ganhou o apelido de fruta-do-dragão, nome que combina com a casca cheia de escamas.
Rainha — A Flor que Vive Uma Noite
Em espanhol, a Selenicereus undatus também é chamada de reina de la noche, a rainha da noite. O nome vem das flores. Grandes, brancas e perfumadas, elas se abrem ao anoitecer, florescem durante uma única noite e costumam murchar ao longo do dia seguinte.
Essa vida curta tem razão de ser. O perfume e a cor branca, que se destaca no escuro, atraem os polinizadores noturnos. No ambiente natural, os principais são os morcegos, seguidos pelas mariposas. Abelhas e outros insetos também visitam as flores no fim da tarde e no começo da manhã.
A Pitaya é uma planta de dias longos, ou seja, floresce quando as noites ficam curtas. No Vietnã, os agricultores aproveitam isso. Acendem luzes nas lavouras durante a noite para enganar a planta e fazê-la florescer fora de época. O número de noites iluminadas e de horas de luz muda conforme a estação. Assim, um cacto que floresce só uma noite por flor consegue produzir também fora da sua época natural.
Madrugada — O Pólen que Precisa de Ajuda
Para virar fruta, a flor da Pitaya precisa ser polinizada naquelas poucas horas em que fica aberta. Algumas espécies não conseguem formar frutos com o próprio pólen e dependem de pólen de outra planta. Mesmo nas que se autofecundam, o cruzamento entre plantas diferentes costuma gerar frutos maiores e melhores.
O tamanho da fruta depende das sementes. Quanto mais sementes se formam, mais pesada fica a Pitaya, que pesa em média cerca de 350 gramas. Por isso, uma boa polinização faz diferença direta na colheita e no bolso do produtor. No Brasil, a safra principal vai de dezembro a abril.
Onde faltam morcegos e mariposas, o trabalho fica com as pessoas. Muitos produtores precisam passar o pólen com a mão, flor por flor, durante a madrugada. No Brasil, a Embrapa Cerrados lançou em 2023 cultivares que se autofecundam. Segundo o pesquisador Fábio Gelape Faleiro, o produtor não precisa mais acordar de madrugada para garantir a frutificação.
Saborosa — A Pitaya Ganha Raízes no Brasil
O cultivo comercial da Pitaya no Brasil ganhou força nos últimos 20 anos. Em 2017, o país colheu cerca de 1,4 mil toneladas, segundo o IBGE, em pouco mais de 500 hectares. São Paulo responde por cerca de 40% da produção, seguido por Santa Catarina, com 24%, Minas Gerais, com 12%, e Pará, com 10%.
A produção cresce depressa. Estimativas recentes da Embrapa falam em mais de 15 mil toneladas por ano. Em Turvo, Santa Catarina, os irmãos Valmirei e Volnei Feltrin começaram em 2010 com 125 pés. Hoje têm cerca de 14 mil plantas e colhem de 90 a 120 toneladas por ano.
Em 2023, a Embrapa Cerrados lançou as primeiras 5 cultivares brasileiras registradas no Ministério da Agricultura: BRS Lua do Cerrado, BRS Luz do Cerrado, BRS Granada do Cerrado, BRS Minipitaya do Cerrado e BRS Âmbar do Cerrado. A média nacional é de cerca de 3 toneladas por hectare, mas experimentos da Embrapa passaram de 40. No Sul e no Sudeste, o produtor recebe de R$ 7 a R$ 10 por quilo na safra e de R$ 15 a R$ 30 fora dela.
Noite — Uma Fruta que Nasce no Escuro
A Pitaya é um cacto que mora nas árvores, uma flor que vive uma noite e uma fruta que cruzou oceanos. Nasceu nas florestas da América Central, foi plantada para um rei no Vietnã e virou uma das grandes exportações daquele país.
No Brasil, onde também cresce a Saborosa, espécie nativa, a Pitaya ganha variedades próprias e lavouras cada vez maiores. Com as novas cultivares, os produtores não precisam mais passar a madrugada polinizando flores. Mesmo assim, cada fruta continua começando do mesmo jeito, numa flor branca que se abre no escuro. Do Vietnã a Santa Catarina, a rainha da noite segue encantando quem a planta e quem a prova.
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Fontes
- Pitaya (Wikipedia)
- Overview of Dragon Fruit Trees in Vietnam (FFTC Agricultural Policy Platform)
- The Pitaya or Dragon Fruit (WANATCA, via Growables)
- Pitaia: fruta conquistando o Brasil (Embrapa Cerrados, Anuário HF 2022)
- Pitaia, o “ouro rosa”, conquista produtores brasileiros (Gazeta do Povo)
- Embrapa Cerrados develops genetically improved pitaya cultivars (FreshPlaza)

