Cacto: A Família que Trocou Folhas por Espinhos, Pintou o Mundo de Vermelho e Está no Brasão do México

Surgidos há cerca de 32 milhões de anos nas Américas, os cactos fazem fotossíntese à noite, alimentam o inseto do carmim, entraram em rituais indígenas há milhares de anos e hoje têm quase 1/3 das espécies ameaçadas

 

Espinho — Uma Planta que Trocou as Folhas por Agulhas

O Cacto parece feito para o deserto. Caule grosso e verde, espinhos por toda parte, quase nenhuma folha à vista. Mas essa forma não surgiu por acaso. Cada detalhe ajuda a planta a guardar água e a se defender em lugares onde chove pouco.

Os cactos formam uma família inteira, a das Cactáceas, nascida nas Américas. Há espécies enormes, como o Saguaro do México e dos Estados Unidos, e espécies pequenas que cabem na palma da mão. Algumas crescem em pedras, outras nas copas das árvores da floresta.

Esta é a história dos cactos, plantas que se espalharam pelas Américas em poucos milhões de anos, que alimentam um inseto usado para fazer tinta vermelha, que entraram em rituais indígenas há milhares de anos e que estão no brasão do México, mas que hoje enfrentam sérias ameaças.

 

Aréola — A Marca de um Cacto Verdadeiro

Os cactos surgiram há cerca de 32 milhões de anos, no México ou na América do Sul, segundo estudos de DNA e proteínas. Não há fósseis da família, por isso a data vem desses cálculos. A grande diversificação veio bem depois, entre 5 e 10 milhões de anos atrás, quando áreas secas se expandiram com o soerguimento dos Andes.

A família tem mais de 1.750 espécies, quase todas nativas das Américas. O que separa um cacto verdadeiro de outras plantas suculentas parecidas é a aréola, uma pequena almofada de onde saem os espinhos e as flores. As aréolas são ramos modificados e achatados.

Os espinhos são folhas transformadas. Eles não fazem fotossíntese, mas protegem a planta e diminuem a circulação de ar junto ao caule, o que reduz a perda de água. A fotossíntese passa a ser feita pelo caule verde, que também guarda a água de que a planta precisa para atravessar a seca.

 

A família Cactaceae reúne cerca de 1.800 espécies — e seus espinhos são folhas modificadas, que reduzem a perda de água e deixam a fotossíntese a cargo do caule verde

 

Rhipsalis — O Único Cacto que Atravessou o Oceano

Entre todos os cactos, só um tem área natural fora das Américas. É o Rhipsalis baccifera, um cacto que pende das árvores em longos ramos finos, sem espinhos visíveis. Ele ocorre também na África, na Índia e no Sri Lanka.

Ninguém sabe ao certo como ele chegou lá. Uma hipótese é que aves tenham levado suas sementes através do oceano. Outra é que navegadores tenham carregado a planta sem querer. O mistério continua aberto entre os botânicos, e o pequeno cacto pendente segue como uma exceção curiosa na família.

O Brasil é um bom lugar para entender essa variedade de formas. O país tem 260 espécies de cactos. A maior diversidade fica no encontro do Cerrado com a Caatinga, no centro-norte de Minas Gerais e sobretudo na Bahia, onde muitas espécies só existem num único morro ou topo de serra. Ali vivem também cactos ligados à vida sertaneja, como o Mandacaru, Cereus jamacaru.

 

Saguaro — Um Gigante que Cresce Devagar

O Saguaro, Carnegiea gigantea, mostra até onde vai a paciência de um cacto. Ele leva cerca de 70 anos para atingir a altura de uma pessoa e dar as primeiras flores. Os braços podem aparecer só depois de quase 100 anos, e a planta pode viver 200 anos ou mais.

O tamanho também impressiona. Um Saguaro adulto costuma chegar a cerca de 12 metros. O maior já medido tinha 24 metros, até ser derrubado por uma tempestade de vento em 1986. Numa única chuva, um adulto pode absorver cerca de 750 litros de água.

Esse acúmulo depende de um truque. Os cactos fazem um tipo de fotossíntese chamado CAM. Eles abrem os poros à noite, quando o ar está mais fresco, absorvem gás carbônico e o guardam na forma de ácido málico. Durante o dia, com os poros fechados, usam esse estoque para fazer fotossíntese sem perder tanta água para o calor.

 

Quase todos os Cactos são nativos das Américas, do Canadá à Patagônia — e muitos só abrem os estômatos à noite, no metabolismo CAM, para absorver gás carbônico sem perder água no calor do dia

 

Peiote — Os Cactos dos Rituais

Alguns cactos entraram na vida religiosa dos povos indígenas. O Peiote, Lophophora williamsii, é um cacto pequeno do México e do Texas que contém mescalina, uma substância que altera a percepção. Na caverna Shumla, no Texas, foram achados objetos feitos de Peiote moído, com cerca de 2% de mescalina, datados de 4045 a 3960 antes da era comum.

Na mesma região, pinturas rupestres de cerca de 4 mil anos foram associadas por arqueólogos à arte dos Huichol, povo indígena do México que mantém rituais com o Peiote. No Peru, o Cacto São Pedro, Echinopsis pachanoi, também chamado de huachuma, tem vestígios na caverna Guitarrero datados de 6800 a 6200 antes da era comum.

Em Chavín de Huántar, no Peru, gravuras em pedra, tecidos e cerâmicas de cerca de 1300 antes da era comum mostram o cacto. Depois da chegada do cristianismo, os rituais se misturaram às crenças cristãs, e a planta ganhou o nome de São Pedro. Curandeiros dos Andes, como os Yachakkuna do povo Saraguro, no Equador, ainda usam o cacto.

 

Cochonilha — O Inseto que Pinta de Vermelho

Sobre as raquetes da Palma, do gênero Opuntia, vive um inseto pequeno chamado cochonilha, Dactylopius coccus. Ele produz o ácido carmínico, uma substância vermelha que ajuda a afastar predadores e que pode chegar a cerca de 1/5 do peso do inseto seco.

Os povos do México já usavam esse corante antes da chegada dos espanhóis. No século 15, 11 cidades da região de Coixtlahuaca, conquistadas pelo Império Asteca, pagavam como tributo anual 2 mil mantas de algodão decoradas e 40 sacos de corante de cochonilha cada uma. São necessários cerca de 70 mil insetos para fazer meio quilo do corante.

No período colonial, o carmim virou o segundo produto de exportação mais valioso da região, atrás só da prata. Hoje, o corante ainda aparece em alimentos, batons, comprimidos e pomadas, e na Europa é identificado nos rótulos como E120. Em 2005, o Peru era o maior produtor, com cerca de 200 toneladas por ano, e as Ilhas Canárias produziam cerca de 20 toneladas.

 

No México, os cladódios da Opuntia viram nopales na cozinha e os frutos viram tunas — a mesma planta que o Nordeste brasileiro cultiva como Palma forrageira para alimentar o gado na seca

 

Tenochtitlan — O Cacto no Brasão e o Risco de Sumir

No México, o cacto virou símbolo nacional. O nome Tenochtitlan, a capital asteca, era escrito com desenhos de uma pedra e do fruto de um cacto, o nochtli. A lenda conta que os astecas deveriam fundar a cidade onde vissem uma águia pousada sobre um cacto. Essa imagem, com a águia sobre a Palma, está no brasão do México, cuja versão atual foi adotada em 1968.

Apesar dessa importância, muitos cactos estão em perigo. Em 2015, um estudo publicado na revista Nature Plants, liderado pela ecóloga Bárbara Goettsch, da União Internacional para a Conservação da Natureza, avaliou 1.478 espécies. O resultado mostrou que quase 1/3 dos cactos do mundo sofre alguma ameaça de extinção.

No Brasil, todas as 260 espécies foram avaliadas. As principais ameaças são a coleta para o comércio de plantas ornamentais, a pecuária, a agricultura, a mineração, a silvicultura e os parques eólicos. Os cactos pequenos dos gêneros Parodia e Frailea, nos campos do Rio Grande do Sul, estão entre os mais ameaçados.

 

Areia — Uma Família Moldada pela Seca

Os cactos são uma resposta da natureza à falta de água. Trocaram as folhas por espinhos, passaram a fazer fotossíntese no caule e aprenderam a abrir os poros só à noite. Em poucos milhões de anos, se espalharam do México à Patagônia.

Ao longo do caminho, entraram em rituais indígenas, pintaram de vermelho os tecidos dos astecas e dos europeus e viraram símbolo de um país inteiro. Hoje, no Brasil e no mundo, muitas espécies dependem de proteção para continuar existindo. Afinal, uma planta que levou milhões de anos para se adaptar pode desaparecer em poucas décadas. Proteger os cactos é guardar uma história de paciência escrita ao longo de milhões de anos.

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