Pinheiro: Do Pinus do Hemisfério Norte à Araucária do Pinhão, as Coníferas Mais Antigas que as Flores

As coníferas surgiram há 300 milhões de anos, antes das flores. O Pinus deu resina, madeira e o pinheiro de 4.800 anos da Califórnia, e a Araucária alimentou os Kaingang e a gralha-azul até perder 97% de sua floresta no Sul do Brasil

 

Agulhas — Duas Árvores com o Mesmo Nome

No Brasil, a palavra Pinheiro pode indicar 2 árvores bem diferentes. No Sul, o Pinheiro é a Araucária, de copa em forma de taça, que dá o pinhão do inverno. Nas fazendas de madeira e nas praças, é o Pinus, de agulhas finas e pinhas lenhosas, trazido do Hemisfério Norte para plantios. As 2 são coníferas, mas pertencem a famílias diferentes.

Ambas fazem parte de uma linhagem de plantas com sementes nuas, sem flores nem frutos verdadeiros. Essa linhagem já cobria a Terra muito antes das primeiras flores, e ainda hoje forma grandes florestas nas regiões frias do planeta.

Esta é a história de árvores que deram resina, madeira, sementes comestíveis e um símbolo de Natal. É também a história da floresta de Araucárias que o Brasil quase perdeu em menos de um século.

 

Coníferas — Sementes Nuas Antes das Flores

Pinheiros e Araucárias são gimnospermas, plantas cujas sementes se formam expostas nas escamas de cones, sem um fruto em volta. As primeiras coníferas surgiram há cerca de 300 milhões de anos, no fim do período Carbonífero. As plantas com flores só se espalharam muito depois, no Cretáceo.

O gênero Pinus, da família Pinaceae, tem cerca de 120 espécies. O fóssil mais antigo confirmado do gênero tem entre 130 e 125 milhões de anos, do início do Cretáceo. Os Pinus são nativos do Hemisfério Norte, com maior diversidade no México. Apenas uma espécie, Pinus merkusii, cruza naturalmente a linha do Equador, em Sumatra. Na Europa, na Ásia e na América do Norte, os Pinus formam extensas florestas em montanhas, areais e regiões frias.

A Araucaria angustifolia pertence a outra família, a Araucariaceae, e a um gênero que existe desde o Triássico. Fósseis de Araucárias aparecem em rochas da época dos primeiros dinossauros. O nome Pinus vem do latim e se liga a uma raiz indo-europeia que significa resina.

 

Pinheiros não têm flores nem frutos — suas sementes nascem nuas, sobre as escamas da pinha, e cada uma tem uma asa para voar com o vento

 

Araucária — A Floresta dos Pinhões

A Araucária é nativa do Sul do Brasil, de áreas altas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro e de partes da Argentina, do Paraguai e do Uruguai. Ela domina a Floresta Ombrófila Mista, também chamada de Mata de Araucárias, parte da Mata Atlântica. Costuma chegar a 40 metros de altura e 1 metro de diâmetro.

A espécie é geralmente dioica: há árvores com cones masculinos e árvores com cones femininos. As pinhas femininas, grandes e redondas, guardam dezenas de pinhões, sementes ricas em amido. No Brasil, são coletadas cerca de 3.400 toneladas de pinhão por ano.

Os povos Kaingang e outros povos Jê dependeram historicamente da Araucária, e o pinhão era alimento central no inverno. A gralha-azul, ave símbolo do Paraná, enterra pinhões para comer depois e esquece parte deles, ajudando a espalhar a árvore pela floresta. No inverno, o pinhão cozido ou assado na chapa do fogão a lenha virou tradição nas serras do Sul, e cidades como Lages, em Santa Catarina, fazem festas dedicadas a ele.

 

Resina — Terebintina, Madeira e Pinoli

Quando o tronco de um Pinus é ferido, ele solta resina, uma seiva grossa e perfumada que fecha o ferimento e afasta insetos. Da resina e da madeira se extrai a terebintina, usada por séculos como solvente de tintas e vernizes. O cheiro característico vem de compostos como o pineno.

A madeira de Pinus é leve, fácil de trabalhar e barata, usada em móveis, portas, pisos, telhados, papel e embalagens. Durante a era das navegações, piche e alcatrão de Pinheiro vedavam os cascos dos navios de madeira.

Algumas espécies dão sementes comestíveis, os pinoli. No Mediterrâneo, eles vêm sobretudo do Pinheiro-manso, Pinus pinea, e entram no pesto italiano e em doces árabes. Outras, como certas espécies da América do Norte, guardam as sementes em pinhas fechadas com resina, que só se abrem com o calor de incêndios florestais. Essa adaptação, chamada serotinia, permite que a floresta renasça logo depois do fogo.

 

O pinheiro-silvestre se reconhece de longe pela casca alaranjada no alto do tronco — e cresce naturalmente da Escócia e da Espanha até o leste da Sibéria

 

Abeto — A Árvore de Natal que Nem Sempre é Pinheiro

A árvore de Natal moderna surgiu entre luteranos e comunidades germânicas e bálticas. Em Riga e Tallinn, a Irmandade dos Cabeças Pretas erguia árvores em suas sedes nos anos 1440 e 1510. Há registro de árvores na catedral de Estrasburgo em 1539. A história de que Martinho Lutero colocou as primeiras velas numa árvore é lenda.

Na Inglaterra, a rainha Charlotte, de origem alemã, montou árvores decoradas em 1800. O costume se popularizou depois do casamento da rainha Vitória com o príncipe Alberto, também alemão. Ajudou também uma ilustração da família real ao redor da árvore, publicada em 1848 pelo Illustrated London News.

Apesar do nome popular, a árvore de Natal tradicional é quase sempre um abeto, do gênero Abies, ou uma espécie de Picea, e não um Pinus. Nos Estados Unidos, são produzidas de 33 a 36 milhões de árvores de Natal por ano, e na Europa, de 50 a 60 milhões.

 

Methuselah — O Pinheiro de 4.800 Anos

Nas montanhas da Califórnia e de Nevada, cresce o Pinus longaeva, uma espécie que vive em altitudes secas, frias e ventosas. Um de seus indivíduos, chamado Methuselah, tem cerca de 4.800 anos. Outra árvore da espécie, cortada para estudo, foi datada em cerca de 4.900 anos.

Essas árvores crescem muito devagar e chegam a ter grande parte do tronco morta, mantendo apenas uma faixa de casca viva que alimenta alguns galhos. O clima duro e a madeira densa e resinosa ajudam a resistir a fungos e insetos.

Por causa da longevidade, os anéis de crescimento dessas árvores viraram um arquivo do clima. Cientistas usaram sequências de anéis de Pinus vivos e mortos para reconstruir milhares de anos de variações de temperatura e para calibrar a datação por carbono 14. A localização exata de Methuselah é mantida em segredo para protegê-la de vândalos, e a árvore não é identificada com placa.

 

A resina que escorre dos cortes no tronco, destilada, se separa em terebintina e breu — o mesmo breu que os músicos passam nos arcos de violino

 

Ciclo — Da Madeira de Araucária ao Pinus Plantado

No século 20, a madeira de Araucária foi uma das bases da economia do Sul do Brasil. Serrarias derrubaram a floresta para construir casas, móveis e caixas, e muitas cidades cresceram com esse comércio. A Araucária perdeu cerca de 97% de seu habitat para a extração de madeira, a agricultura e a silvicultura.

Em 1998, a espécie foi listada como vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza, e em 2008 passou a criticamente em perigo. Para suprir a demanda por madeira, o Brasil passou a plantar espécies americanas como Pinus elliottii e Pinus taeda.

Hoje, a Região Sul concentra cerca de 1,7 milhão de hectares de Pinus, cerca de 89% da área plantada do país, com Santa Catarina e Paraná à frente. O Pinus sustenta indústrias de madeira e celulose, mas se espalha sozinho em campos, restingas e dunas, onde é considerado espécie invasora. Suas sementes aladas voam longe, e as mudas sombreiam e substituem a vegetação nativa.

 

Pinhão — Uma Linhagem que Precisa de Cuidado

As coníferas cobriam a Terra muito antes das flores. O Pinus deu resina, madeira e sementes ao Hemisfério Norte, e a Araucária alimentou povos indígenas e a gralha-azul no Sul do Brasil.

No último século, a Araucária foi derrubada até restar uma fração mínima de sua floresta, enquanto o Pinus estrangeiro ocupava o espaço. Hoje, a coleta do pinhão é regulada, com datas para começar, para garantir sementes à gralha-azul e à regeneração da floresta. Comer pinhão no inverno, plantar Araucárias e proteger os remanescentes ajuda a manter viva uma linhagem que atravessou milhões de anos. A Araucária de copa em taça segue como imagem do Sul, presente em brasões, nomes de cidades e memórias de família.

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