Touceira — O Chá do Quintal Brasileiro
Em muitos quintais brasileiros, há uma touceira de folhas longas e ásperas, que perfumam a mão com cheiro de limão quando são esfregadas. É o Capim-limão, também chamado de Capim-santo, Capim-cidreira, Capim-cidró ou Cana-cidreira, conforme a região. Em muitas casas, a touceira fica perto da porta da cozinha, sempre à mão. O chá feito com suas folhas é servido quente depois do almoço, antes de dormir ou gelado nos dias de calor, às vezes com Hortelã ou Gengibre.
Apesar do cheiro de limão, a planta não tem parentesco com os cítricos. É um capim, da mesma família do Arroz, do Milho e da Cana-de-açúcar, que guarda nas folhas um óleo perfumado.
Esta é a história de uma gramínea do sul e do sudeste da Ásia que virou tempero de sopas tailandesas, matéria-prima de perfumes e chá caseiro no Brasil, com uma confusão de nomes que precisa ser desfeita.
Cymbopogon — A Barba no Barco
O Capim-limão é o Cymbopogon citratus, da família Poaceae, a das gramíneas. É nativo do sul da Ásia e das ilhas do sudeste asiático, e forma touceiras densas de folhas estreitas, com cerca de 1 metro de altura. Raramente floresce e quase não produz sementes, e por isso é multiplicado pela divisão das touceiras.
O gênero Cymbopogon reúne cerca de 52 espécies, espalhadas pela Ásia, pela África e pela Austrália. O nome vem do grego kymbe, barco, e pogon, barba, uma descrição das pequenas espiguetas cheias de pelos que saem de estruturas em forma de barco.
Algumas espécies parentes são muito usadas. O Cymbopogon flexuosus, o Capim-limão da Índia, é cultivado para extrair óleo essencial. A Citronela vem de outras espécies, Cymbopogon nardus e Cymbopogon winterianus. E a Palmarosa, Cymbopogon martinii, dá um óleo com aroma de rosa. Todas têm folhas parecidas, mas cheiros e usos diferentes, e por isso é comum confundir uma com a outra no mercado.
Takhrai — Das Ilhas da Ásia às Américas
O Capim-limão viajou a partir do sudeste asiático, levado por agricultores, mercadores e viajantes. Na Tailândia, onde se chama takhrai, virou ingrediente essencial da cozinha. Ao longo dos séculos, espalhou-se pela Índia, pela África e pelas ilhas do Índico.
Segundo registros botânicos, a planta foi introduzida em Madagascar e nas Américas do Sul e Central depois da Primeira Guerra Mundial. Nas regiões tropicais, adaptou-se bem ao calor e à chuva e passou a ser plantada em quintais, hortas e cercas vivas. No Brasil, a data exata de chegada não é clara, e muitos textos falam no período colonial sem apresentar documentos. O certo é que a planta se espalhou de muda em muda, de casa em casa.
No Caribe, a planta ganhou o apelido de fever grass, capim da febre, por causa do uso popular do chá para resfriados. No Brasil, entrou na medicina caseira e na fitoterapia popular, e o chá de Capim-santo virou presença comum nas cozinhas de Norte a Sul.
Citral — O Óleo que Cheira a Limão
O aroma do Capim-limão vem do citral, um composto que forma de 65% a 85% do seu óleo essencial. O citral também está presente na casca do Limão, na Melissa e na Verbena-limão. O óleo do Capim-limão tem ainda mirceno, geraniol, linalol e citronelal em menor quantidade.
Por causa do citral, o óleo de Capim-limão é usado em sabonetes, perfumes, produtos de limpeza e aromatizantes. A indústria também usa o citral como ponto de partida para produzir outras substâncias aromáticas e a vitamina A sintética. Por ser sensível à luz e ao calor, o óleo costuma ser guardado em frascos escuros e bem fechados.
O óleo das espécies de Citronela, por sua vez, é rico em citronelal e geraniol e foi adotado como repelente de insetos em velas e loções. Apicultores também usam o óleo de Capim-limão em armadilhas para atrair enxames de abelhas, porque seu cheiro lembra uma substância que as próprias abelhas produzem para marcar a entrada da colmeia.
Calmante — O Que a Ciência Diz Sobre o Chá
No Brasil, o chá de Capim-limão é tradicionalmente tomado para acalmar, ajudar no sono e aliviar desconfortos da digestão. A planta é muito usada na medicina popular brasileira, ao lado da Melissa, da Camomila e da Lippia alba, vendida em feiras, mercados e farmácias de manipulação.
A ciência, porém, ainda não confirmou boa parte desses efeitos. Nos anos 1980, pesquisadores brasileiros da Escola Paulista de Medicina testaram o chá em voluntários e não encontraram efeito sedativo ou hipnótico em comparação com placebo. Estudos de laboratório mostram que o óleo tem ação contra alguns fungos e bactérias, mas isso não significa que o chá tenha o mesmo efeito no corpo.
Mesmo assim, o chá continua sendo uma bebida agradável, sem cafeína, que reúne famílias e marca a memória afetiva de muita gente. Pesquisas seguem em andamento para entender melhor os efeitos da planta. O óleo essencial concentrado, porém, não deve ser ingerido sem orientação e pode irritar a pele.
Cidreira — O Nome que Une 3 Plantas
O nome popular pode confundir. No Brasil, Erva-cidreira é usado para pelo menos 3 plantas diferentes:
- o Capim-limão, uma gramínea
- a Melissa, Melissa officinalis, uma erva da família da Hortelã, originária da região do Mediterrâneo
- a Lippia alba, um arbusto nativo das Américas, também chamado de Erva-cidreira-de-arbusto
As 3 têm em comum o cheiro de limão, que vem principalmente do citral. Foi esse aroma que fez o povo dar a elas nomes parecidos, e a confusão aparece até em embalagens e livros de receitas. Na hora de comprar mudas ou de ler sobre usos, porém, é importante saber de qual planta se está falando, porque os compostos, as doses e os cuidados mudam de uma espécie para outra.
Para diferenciá-las, basta olhar. O Capim-limão tem folhas longas e estreitas como capim, a Melissa tem folhas pequenas e serrilhadas, como as da Hortelã, e a Lippia alba é um arbusto de folhas ásperas e flores lilases.
Tom Yum — A Gramínea na Cozinha da Ásia
Na cozinha do sudeste asiático, o Capim-limão é tempero fundamental. Na Tailândia, perfuma o tom yum, sopa picante e azeda, e o tom kha kai, sopa de frango com leite de Coco. No Vietnã, aparece em caldos e carnes grelhadas, e na Indonésia e na Malásia entra em pastas de temperos, curries e espetinhos.
Na cozinha, usa-se principalmente a parte de baixo do talo, mais macia e perfumada. Ela é amassada, picada fininho ou cortada em pedaços grandes, que são retirados antes de servir, porque as fibras são duras.
No Brasil, o Capim-limão também começa a aparecer em sobremesas, drinques, xaropes e sorvetes, além do chá. É fácil de cultivar: basta plantar um pedaço da touceira com raiz em local de sol, e a planta cresce rápido. Em vaso grande, também vai bem em varandas. As folhas podem ser colhidas o ano inteiro, e as mais velhas, secas à sombra, servem para chá fora da época de crescimento.
Perfume — Um Capim que Cheira a Limão
O Capim-limão nasceu nas ilhas do sudeste asiático, virou tempero da cozinha tailandesa e chá caseiro no Brasil. Seu óleo, rico em citral, perfuma sabonetes, limpa a casa e até atrai abelhas.
Por trás do nome popular, há uma rede de plantas parecidas, como a Citronela, a Melissa e a Lippia alba. Conhecer a diferença entre elas ajuda a usar cada uma da forma certa. No quintal, a touceira de folhas perfumadas continua sendo um pedaço da Ásia que virou tradição brasileira. Basta cortar algumas folhas, amassá-las entre os dedos e sentir o perfume que viajou do outro lado do mundo até a xícara de chá da tarde. Num país de tantas plantas aromáticas, ela ganhou lugar cativo.
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