Noz: a Fruta de Júpiter que Nasceu nas Florestas do Quirguistão

Da floresta de Arslanbob aos casamentos romanos, da doutrina das assinaturas à juglona que mancha as mãos, a Noz guarda séculos de história dentro de 2 cascas

 

Casca — Um Fruto Guardado em Duas Camadas

A Noz chega à mesa já sem a sua primeira roupa. Na árvore, ela cresce dentro de uma casca verde e carnuda, que se abre no outono e deixa cair o caroço duro e enrugado. Dentro dele está a amêndoa clara, dividida em 2 metades, que tantas vezes enfeita as festas de fim de ano.

Por trás desse fruto existe uma árvore grande e longeva, que cresce em florestas nas montanhas da Ásia Central e que foi plantada por gregos, romanos, persas e chineses. Sua casca verde guarda uma substância que mancha a pele, tinge tecidos e impede outras plantas de crescer por perto.

Esta é a história da Juglans regia, a nogueira cujo nome lembra Júpiter, que forma uma floresta lendária no Quirguistão, que era lançada em casamentos romanos, que foi receitada para a cabeça por causa da forma e que hoje tem na China seu maior produtor.

 

Arslanbob — A Floresta de Nogueiras do Quirguistão

A nogueira é nativa da Eurásia, numa faixa que inclui o sudoeste e o centro da Ásia e o sudeste da Europa. Como é cultivada há muito tempo, sua área natural exata é incerta. As maiores florestas estão no Quirguistão, entre 1.000 e 2.000 metros de altitude, sobretudo em Arslanbob, na província de Jalal-Abad.

Ali, entre as montanhas de Fergana e de Chatkal, o bosque de Arslanbob ocupa cerca de 11 mil hectares e é descrito como o maior bosque de nogueiras do planeta. Segundo uma estimativa citada pela União Internacional para a Conservação da Natureza, a área de nogueiras da região já foi muito maior e encolheu com o tempo.

A floresta tem suas lendas. Uma diz que Alexandre, o Grande, levou nozes dali para a Europa. Outra conta que um discípulo chamado Arslanbob recebeu sementes do profeta Maomé e as plantou na montanha, por isso o lugar é considerado sagrado. A colheita dura cerca de 1 mês, em setembro, e as nozes já serviram até de moeda de troca na vila.

 

A Juglans regia tem nome que é uma declaração — Jovis glans, fruto de Júpiter em latim — e a semelhança do fruto com o cérebro humano não é coincidência: os ômega-3 e polifenóis da noz têm propriedades neuroprotetoras confirmadas pela ciência

 

Pérsica — A Noz que Viajou com os Impérios

Os registros mais antigos da nogueira no Levante são restos de madeira da Idade Média do Bronze, encontrados no norte de Israel. A Bíblia hebraica cita a noz uma única vez. Na Antiguidade, a tradição credita a Alexandre, o Grande, a difusão da noz persa, embora esse relato seja pouco claro.

Os romanos espalharam pelo sul da Europa e pelo norte da África formas que dão frutos nos ramos laterais. A planta provavelmente chegou ao oeste e ao norte da Europa nessa época. A China recebeu sua nogueira da Ásia Central há cerca de 2 mil anos, e as Américas, só no século 17. No século 12, o agrônomo Ibn al-Awwam escreveu sobre seu cultivo na Península Ibérica.

Os nomes também contam essa viagem. Em latim, a noz era chamada de nux Gallica, a noz da Gália. Em inglês, walnut vem de uma palavra germânica que quer dizer estrangeiro, a noz que vinha das terras latinas. Nos períodos otomano e bizantino, ela era conhecida como noz real.

 

Nogueira — Uma Árvore de Séculos

A nogueira é uma árvore grande, que perde as folhas no inverno, com 10 a 25 metros de altura, tronco de até 2 metros de diâmetro e copa larga. As árvores maduras podem passar dos 200 anos e formar troncos maciços.

As folhas são compostas, com 20 a 45 centímetros e, em geral, 7 folíolos. As flores masculinas e femininas ficam separadas na mesma árvore. As masculinas pendem em amentilhos de 5 a 10 centímetros, enquanto as femininas aparecem nas pontas dos ramos, em grupos de 2 a 5.

O fruto tem uma casca verde e meio carnuda que envolve a noz marrom e enrugada. No outono, essa casca se abre e o fruto cai. A Noz precisa ser bem guardada, porque em locais quentes e úmidos pode mofar e formar aflatoxina, uma substância cancerígena. A temperatura ideal para estoques longos fica entre −3 °C e 0 °C, com pouca umidade, e nozes mofadas devem ser descartadas.

 

Os romanos atiravam nozes aos noivos como símbolo de fertilidade — o mesmo gesto que hoje fazemos com arroz, numa tradição que atravessou dois milênios mudando apenas o ingrediente

 

Júpiter — Casamentos, Deuses e Cabeças

O nome do gênero, Juglans, une Jovis, de Júpiter, e glans, bolota ou noz. Era, portanto, a noz de Júpiter. O nome da espécie, regia, se refere ao caráter real do fruto. Assim, a classificação botânica guarda a fama que a Noz tinha entre os antigos.

Em Roma, as nozes faziam parte do casamento. Versos de Virgílio e de Catulo mencionam o lançamento de nozes durante a cerimônia, e estudiosos ligam esse gesto à fertilidade. Segundo o pesquisador Antonio Serrano Cueto, da Universidade de Cádis, nem os comentadores antigos entendiam bem o significado desse rito.

Séculos depois, a forma da Noz inspirou outra crença. Pela chamada doutrina das assinaturas, a aparência de uma planta indicaria a doença que ela trataria. No século 17, o inglês William Coles escreveu que as nozes tinham as assinaturas perfeitas da cabeça. Hoje, essa doutrina é considerada uma pseudociência, sem prova de ter levado a qualquer descoberta médica.

 

Juglona — A Casca que Mancha e Afasta Vizinhos

A casca verde da Noz guarda um segredo químico. Ela contém juglona, que na planta fica numa forma sem cor e escurece ao entrar em contato com o ar. Por isso, quem descasca nozes frescas fica com as mãos manchadas de marrom. A juglona é parente química da lausona, o corante da hena.

As folhas e cascas que caem também espalham a juglona pelo solo. Ela age como um herbicida natural e prejudica plantas como tomate, alfafa, maçã, milho e soja, enquanto bordos, bétulas e faias resistem. Esse efeito já era observado no século 1 da era comum. A substância foi isolada em 1856 e identificada como a responsável em 1881.

A mesma química virou cor. A casca verde da Noz dá um corante amarelo-acastanhado a marrom-escuro, usado para tingir tecidos, em especial lã, e também como tinta. Hoje, a juglona aparece como corante em alimentos, cosméticos e tinturas de cabelo. Já as folhas fazem mal aos cavalos, que podem desenvolver uma doença nos cascos chamada laminite.

 

A madeira de nogueira foi usada nas coronhas de armas de fogo pela durabilidade e pela capacidade de absorver o choque do disparo — a mesma árvore que dá o fruto que protege o cérebro armou os exércitos da história

 

Madeira — Móveis, Coronhas e Toneladas de Nozes

A madeira da nogueira é pesada e dura. Ela é usada em pisos, violões, móveis, folheados, puxadores, cabos e coronhas de armas. Das nozes também se extrai óleo, e elas são comidas frescas ou secas, em pratos doces e salgados de muitas cozinhas.

Na produção, a China lidera. Em 2023, o mundo produziu cerca de 4 milhões de toneladas de nozes com casca, e a China respondeu por cerca de 35%, com 1,4 milhão de toneladas. Os Estados Unidos vieram em seguida, com cerca de 750 mil toneladas, e depois o Irã, com 380 mil. Turquia e México também estão entre os grandes produtores.

A Noz tem um alerta importante. Em algumas pessoas, ela pode causar alergias graves, que podem pôr a vida em risco. No Brasil, a Noz que chega às festas de fim de ano costuma ser importada. Já sua parente norte-americana, a Noz-pecã, Carya illinoinensis, ganhou espaço nos pomares do Sul do país, com estudos da Embrapa sobre as áreas mais indicadas para o cultivo.

 

Amêndoa — Uma Noz que Atravessou a Eurásia

A Noz é o fruto de uma árvore longeva, que forma florestas nas montanhas do Quirguistão e que se espalhou pela Eurásia com persas, gregos, romanos e mercadores. Seu nome lembra Júpiter, a realeza e a terra estrangeira de onde vinha.

Ao longo do caminho, foi lançada em casamentos romanos, receitada para a cabeça por causa da forma e transformada em móveis, coronhas e corantes. Sua casca verde ainda mancha as mãos e afasta outras plantas com a juglona. Hoje, a China lidera a produção, e no Brasil a Noz continua sendo presença das ceias de fim de ano, sempre guardada dentro de suas 2 cascas.

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