Antúrio: a Folha em Forma de Coração que Engana Abelhas e Olhares

Com cerca de 1.000 espécies nas Américas, o Antúrio tem uma folha colorida que parece flor, abelhas que coletam seu perfume e uma história que passa pelo Havaí e por Campinas

 

Espata — A Folha que Parece Flor

O Antúrio engana quem olha de longe. A parte vermelha, lisa e brilhante, que parece uma pétala em forma de coração, não é flor. É uma folha modificada, chamada espata. As flores de verdade são minúsculas e ficam enfileiradas na espiga que sai do centro, o espádice.

Essa planta das florestas tropicais das Américas virou flor de vaso em salas, lojas e hotéis de muitos países. Atravessou o oceano pelas mãos de um paisagista francês, chegou ao Havaí no fim do século 19 e se tornou uma flor de corte importante também no Brasil.

Esta é a história do gênero Anthurium, o maior da família das Aráceas, com cerca de 1.000 espécies, que tem flores visitadas por abelhas atrás de perfume, que guarda cristais irritantes nos tecidos, que ganhou no Havaí uma indústria de flores e que, no Brasil, foi lembrado numa novela de 1992.

 

Schott — Um Gênero de Mil Espécies

O gênero Anthurium reúne cerca de 1.000 espécies e é descrito como o maior gênero da família das Aráceas, a mesma do copo-de-leite e da costela-de-adão. Suas plantas são nativas das Américas, do norte do México ao norte da Argentina, e de partes do Caribe.

O gênero foi descrito em 1829 pelo botânico austríaco Heinrich Wilhelm Schott. Em 1860, já eram conhecidas 183 espécies, organizadas por ele em 28 seções na obra Prodromus Systematis Aroidearum. Desde então, o número de espécies cresceu muito. Uma revisão de 1905 dividiu o gênero em 18 seções, e em 1983 ele foi reorganizado de novo pelos botânicos.

Muitos antúrios vivem como epífitas, crescendo sobre outras plantas, sobretudo nos troncos das árvores. Outros são terrestres. As folhas variam muito de forma, e os frutos são bagas suculentas, de cores diversas, em geral com 2 sementes. Em inglês, a planta tem nomes como flor-flamingo e flor-de-cauda, por causa do espádice comprido.

 

A parte colorida do antúrio não é uma flor — é uma espata, uma folha modificada que evoluiu para imitar uma flor e atrair polinizadores, enquanto as flores verdadeiras crescem minúsculas sobre a espádice central

 

André — Do Paisagista Francês ao Havaí

O antúrio mais vendido hoje, o Anthurium andraeanum, é nativo do Equador e do sudoeste da Colômbia. Seu nome homenageia o paisagista francês Édouard André, que viveu de 1840 a 1911 e projetou cerca de 100 parques, como o Sefton Park, em Liverpool. Entre 1875 e 1876, ele fez uma viagem de coleta de plantas aos pés dos Andes.

A espécie foi publicada em 1877, mas as fontes divergem sobre a data da descoberta. Segundo a American Phytopathological Society, André teria encontrado a planta em 1870, em viagens pela Colômbia e pelo Equador. Hoje, a espécie também está naturalizada no Caribe e na ilha da Reunião.

O Havaí entrou na história em 1889. Naquele ano, S. M. Damon levou o Anthurium andraeanum de Londres para as ilhas e o cultivou em suas propriedades de Moanalua. Durante décadas, as plantas se espalharam devagar, por mudas, até que nos anos 1940 pequenos produtores passaram a abastecer floriculturas locais.

 

Espádice — Flores Pequenas e Fases Separadas

A espata colorida é uma bráctea, uma folha modificada que fica logo abaixo do espádice. Ela pode ser estreita, aberta ou curvada sobre a espiga. Segundo a Wikipedia, entre as espécies do gênero, só o Anthurium scherzerianum e o Anthurium andraeanum têm espatas de um vermelho vivo, e muitos híbridos vêm dessas 2 plantas.

No espádice, as flores ficam em espirais apertadas. Cada florzinha tem partes masculinas e femininas. Mas elas não funcionam ao mesmo tempo. Nas Aráceas, as partes femininas ficam receptivas antes de as masculinas soltarem o pólen, um fenômeno chamado protoginia.

Os tempos variam conforme a espécie. No Anthurium formosum, os estigmas ficam receptivos por 2 a 3 dias, depois há uma pausa e então vêm 3 a 4 dias de produção de pólen. No Anthurium hacumense, a fase feminina dura de 2 a 3 dias, e a liberação de pólen, de 7 a 9 dias. Assim, o pólen precisa vir de outra inflorescência, levado pelos visitantes.

 

O Anthurium andraeanum é nativo das florestas tropicais da Colômbia e do Equador — onde cresce como epífito fixado em troncos de árvores, com raízes que servem apenas para se fixar, não para absorver nutrientes do solo

 

Abelhas — Perfume em Troca de Pólen

Os visitantes de muitos antúrios são abelhas. Segundo a Sociedade Internacional de Aráceas, machos de abelhas-das-orquídeas, as euglossinas, raspam uma cera perfumada do espádice e a usam para produzir um feromônio que atrai as fêmeas. Ao passar de uma planta para outra, levam o pólen para as flores em fase feminina.

Cada espécie tem seu horário e seu cheiro. O Anthurium formosum perfuma o ar das 6h30 às 10h, com um aroma que lembra chiclete de hortelã. Já o Anthurium hacumense solta um perfume intensamente doce entre 10h e 13h. Uma abelha fotografada nele carregava ainda uma polínia amarela, sinal de que tinha visitado uma orquídea pouco antes.

Em outra espécie, a relação é diferente. No Anthurium acutifolium, planta terrestre das terras baixas da Costa Rica e do Panamá, o pesquisador Florian Etl, da Universidade de Viena, observou machos de uma abelha coletora de óleo esfregando o abdômen no espádice para recolher perfume. A planta não produz néctar nem óleo, e outros insetos não foram vistos visitando suas flores.

 

Oxalato — Uma Beleza que Não Se Come

O Antúrio é tóxico. Suas plantas contêm cristais de oxalato de cálcio, e a seiva irrita a pele e os olhos. O Anthurium andraeanum também contém saponinas. Todas as partes são consideradas tóxicas para gatos, cães e cavalos, e a ingestão pode causar irritação na boca, dor, inchaço, salivação, vômitos e dificuldade para engolir.

Por isso, quem tem crianças pequenas ou animais em casa deve deixar o vaso fora do alcance. O contato com a seiva também pode causar vermelhidão e bolhas na pele. É uma planta para admirar, não para tocar sem cuidado nem para levar à boca.

O Antúrio também costuma aparecer em listas de plantas que purificam o ar. Mas ele não estava na lista original do estudo da NASA de 1989 e aparece só em uma tabela de estudos semelhantes. Segundo a Wikipedia, esses resultados não se aplicam bem a ambientes reais, onde seriam necessárias de 10 a 1.000 plantas por metro quadrado, e não se repetiram em estudos posteriores.

 

A NASA identificou o antúrio como uma das plantas mais eficazes para absorver amônia do ar interior — e a espata pode manter-se apresentável por até oito semanas, tornando-o uma das flores de corte mais duráveis do mercado

 

Eidibel — A Flor de Corte no Brasil

No Havaí, a planta virou indústria. Nos anos 1970, a área de cultivo passou de 40 para 400 acres, e em 1980 a produção chegou a cerca de 30 milhões de hastes. Em 1972, porém, surgiu em Kauai uma doença bacteriana que virou epidemia entre 1985 e 1989 e destruiu a produção de cerca de 200 pequenas propriedades.

Os grandes produtores mundiais de flores de corte de antúrio incluem a Holanda, o Havaí, as Ilhas Maurício e a Jamaica. No Brasil, segundo a Embrapa, o maior polo de produção e comércio é São Paulo, em Holambra, Atibaia e no Vale do Ribeira. Desde 1980, o Instituto Agronômico de Campinas mantém um programa de melhoramento da planta.

Desse programa saiu a Eidibel, de espata vermelha e espádice branco levemente perfumado, que responde por 50% a 60% do mercado brasileiro de antúrios. Depois de colhidas, as inflorescências duram de 25 a 30 dias no vaso, podendo chegar a 40. Na cultura popular, a flor ficou ligada à novela Pedra sobre Pedra, de 1992, em que Fábio Júnior viveu o fotógrafo Jorge Tadeu.

 

Coração — Uma Folha que Virou Símbolo

O Antúrio é uma planta das florestas tropicais das Américas que engana pela aparência. O que parece flor é uma folha, e as flores verdadeiras são pontinhos num espádice, visitados por abelhas em busca de perfume.

Ao longo do caminho, ganhou o nome de um paisagista francês, virou indústria no Havaí e variedade brasileira nos laboratórios de Campinas. Hoje, enfeita salas e escritórios, mas pede cuidado com crianças e animais por causa dos cristais que guarda. Por trás de cada espata em forma de coração, há uma história de viagem, ciência e cultivo que começou nas encostas dos Andes.

Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

Artigos Relacionados