Chifre-de-veado: a Samambaia das Árvores que Vive em Colônia

Desenhado por Plukenet em 1705, batizado por Desvaux em 1827 e estudado em 2021 como possível planta eussocial, conheça a história do Chifre-de-veado

 

Chifres — Uma Samambaia Presa às Árvores

O Chifre-de-veado não vive na terra. Ele cresce preso ao tronco das árvores, ou a uma placa de madeira pendurada na parede, sem vaso e sem solo. De longe, parece uma escultura, com folhas largas grudadas no suporte e outras longas e bifurcadas, que lembram os chifres de um veado.

Essa samambaia tem parentes espalhados pelos trópicos da África, da Ásia, da Austrália e da América do Sul. Foi desenhada por um botânico inglês no início do século 18, ganhou um gênero próprio no século 19 e, recentemente, virou tema de um debate científico inesperado.

Esta é a história do gênero Platycerium, cerca de 18 espécies de samambaias epífitas, com folhas de 2 tipos, entre elas o Platycerium bifurcatum, espécie muito cultivada em jardins, que em 2021 foi apontada por pesquisadores como uma possível planta com vida social parecida com a das abelhas.

 

Platycerium — Chifres Achatados dos Trópicos

O nome científico descreve a planta. Segundo o site Flora of New Zealand, Platycerium vem do grego platys, achatado ou largo, e keras, chifre, uma referência às folhas férteis em forma de galhada. O epíteto bifurcatum, segundo a Wikipedia, quer dizer bifurcado, e descreve as pontas dessas mesmas folhas.

O gênero pertence à família das Polipodiáceas e tem cerca de 18 espécies. Segundo a mesma fonte, há 1 espécie na América do Sul, 6 na África e em Madagascar, 8 no Sudeste Asiático e 4 na Austrália. A espécie sul-americana, o Platycerium andinum, aparece em listas para a Colômbia, a Bolívia e o Peru.

Todas são epífitas, plantas que vivem sobre outras sem tirar delas o alimento. O Platycerium bifurcatum é nativo de Java, Bali, Nova Guiné e do leste da Austrália, incluindo Nova Gales do Sul, Queensland e a ilha Lord Howe. Ele cresce dentro e perto de florestas úmidas e pode chegar a cerca de 90 centímetros de altura.

 

O Platycerium tem dois tipos de folhas completamente distintos — as frondes estéreis em forma de escudo que capturam detritos orgânicos como nutrientes, e as frondes férteis em forma de chifre que produzem esporos

 

Plukenet — Do Desenho de 1705 ao Gênero de 1827

Os europeus conheceram cedo essas samambaias. Segundo um estudo do botânico holandês G. J. de Joncheere, publicado em 1967 na revista Blumea, o inglês Leonard Plukenet ilustrou uma delas em 1705, a partir de material das ilhas Comores, no oceano Índico. Uma folha estéril desse material está no herbário de Hans Sloane.

A espécie australiana foi descrita no fim do século 18. Segundo a Wikipedia, o botânico espanhol Antonio José Cavanilles a publicou em 1799 com o nome de Acrostichum bifurcatum. De acordo com de Joncheere, o material tipo da espécie veio de Port Jackson, a baía onde hoje fica Sydney.

O gênero próprio só veio em 1827. Naquele ano, o botânico francês Nicaise Auguste Desvaux criou o Platycerium e reuniu nele 4 espécies, antes classificadas em outros gêneros. Mais tarde, o pteridólogo dinamarquês Carl Christensen transferiu a espécie de Cavanilles para o novo gênero, e ela passou a se chamar Platycerium bifurcatum.

 

Ninho — Folhas que Guardam Água e Restos

O segredo do Chifre-de-veado está nas folhas. Segundo a Wikipedia, ele tem 2 tipos. As folhas da base são estéreis, em forma de escudo ou de rim, e se colam ao tronco para proteger as raízes. Com o tempo, ficam marrons e secas, formando camadas sobrepostas. No Platycerium bifurcatum, elas têm forma de coração e medem de 12 a 45 centímetros.

Essas folhas estéreis formam uma espécie de ninho. Segundo o site Flora of New Zealand, elas se sobrepõem e criam uma cesta junto ao tronco. Segundo a Wikipedia, no Platycerium superbum esse ninho recolhe húmus, formado por folhas caídas e outros restos que se decompõem ali, longe do solo.

As outras folhas são as férteis, longas, bifurcadas, verde-acinzentadas e cobertas de pelos em forma de estrela. Na parte de baixo, em manchas densas, ficam os esporângios, onde se formam os esporos. Segundo a Wikipedia, várias espécies do gênero estão adaptadas a ambientes secos, e o Platycerium veitchii teria um metabolismo que economiza água.

 

O Chifre-de-Veado é epífito — vive fixado em troncos de árvores sem nunca tocar o solo, absorvendo água e nutrientes pelo ar e pelos detritos que caem da copa, numa solução evolutiva de 360 milhões de anos

 

Colônia — Uma Samambaia com Divisão de Tarefas

Na natureza, o Platycerium bifurcatum pode formar grandes grupos. Em 2021, o biólogo Kevin Burns, da Universidade Victoria de Wellington, na Nova Zelândia, publicou com os coautores I. Hutton e L. Shepherd, na revista Ecology, o artigo Primitive eusociality in a land plant?, sobre colônias da ilha Lord Howe.

Eusocialidade é o tipo de organização das formigas e das abelhas, em que indivíduos dividem tarefas e alguns deixam de se reproduzir em favor do grupo. Segundo a universidade, os pesquisadores observaram as colônias por 2 anos e concluíram que elas cumpriam os 3 critérios desse tipo de vida social, numa forma considerada primitiva.

Segundo a revista Science News Explores, as maiores colônias tinham centenas de indivíduos. As folhas de ninho, marrons e esponjosas, absorvem água e sustentam o centro da colônia. As folhas compridas, verdes e cerosas, levam a água da chuva para o centro e produzem os esporos. Cerca de 4 em cada 10 folhas das colônias estudadas não podiam se reproduzir.

 

Debate — Uma Planta Parecida com uma Colmeia

A semelhança com os insetos foi além da divisão de tarefas. Segundo a Science News Explores, de 10 colônias estudadas na ilha Lord Howe, 8 eram formadas por indivíduos geneticamente idênticos. Para os autores, esse parentesco próximo lembra as colônias de formigas e abelhas, em que os membros também são muito aparentados.

Nem todos os cientistas ficaram convencidos. A ecóloga Michelle Spicer lembrou que outras epífitas também compartilham água e nutrientes. O biólogo evolutivo Brian Whyte considerou o argumento bom, mas observou que, cultivadas no solo como plantas ornamentais, as samambaias não precisam da colônia e formam folhas férteis sozinhas, uma variação incomum em espécies eussociais.

Mesmo com o debate, o estudo chamou a atenção para a planta. Para Burns, a descoberta sugere que grandes transições evolutivas em direção à vida social podem acontecer tanto em animais quanto em plantas. Segundo a universidade, novas pesquisas devem mostrar em que ponto desse caminho o Chifre-de-veado se encontra.

 

A capacidade de crescer sem vaso e sem terra transformou o Chifre-de-Veado num dos objetos de decoração mais valorizados do design biofílico contemporâneo — montado em placas de madeira como escultura viva

 

Gigantes — Das Florestas aos Jardins

Algumas espécies do gênero são enormes. Segundo a Wikipedia, o Platycerium superbum, de Queensland, do nordeste de Nova Gales do Sul e de partes da Indonésia, da Malásia e da Nova Guiné, pode formar um ninho de até 1 metro de largura, com folhas férteis pendentes de até 2 metros. O Platycerium grande vive nas Filipinas e na Indonésia.

O Platycerium superbum também chegou a lugares onde não é nativo. Segundo a Wikipedia, ele foi encontrado no Havaí nos anos 1990 e hoje é considerado uma espécie problemática por lá. Seus esporos minúsculos são levados pelo vento até árvores próximas, onde podem dar origem a novas plantas.

Nos jardins, o Platycerium bifurcatum e o Platycerium superbum são cultivados com frequência, sobretudo em regiões tropicais. Segundo a Wikipedia, o Platycerium bifurcatum tolera temperaturas mínimas de cerca de 5 °C e recebeu o Prêmio de Mérito de Jardim da Sociedade Real de Horticultura britânica. A planta pode ser multiplicada por esporos ou pela divisão das colônias.

 

Galhada — Uma Planta Ainda Cheia de Perguntas

O Chifre-de-veado é uma samambaia que trocou o solo pelas árvores. Com folhas que formam um ninho e outras que lembram galhadas, ele guarda água, recolhe restos e produz esporos longe do chão.

Ao longo do caminho, foi desenhado por Plukenet em 1705, ganhou nome de Cavanilles em 1799 e gênero próprio com Desvaux em 1827. Depois, saiu das florestas para enfeitar paredes, varandas e jardins. Em 2021, as colônias da ilha Lord Howe abriram um debate sobre vida social nas plantas que ainda não terminou. Em cada placa de madeira com um Chifre-de-veado pendurada numa varanda, há uma planta que ainda intriga os cientistas.

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