Tabaco: 12 Mil Anos entre o Sagrado, o Remédio e o Veneno

Das fogueiras de caçadores que o usavam há 12.300 anos às lavouras do Sul do Brasil, o Tabaco foi planta sagrada, remédio da rainha da França, moeda colonial e origem da descoberta dos vírus

 

Sagrado, Remédio e Veneno

Nenhuma planta viveu tantas vidas quanto o Tabaco. Para os povos indígenas das Américas, era ponte com o mundo espiritual. Para a corte francesa do século 16, era remédio. Nas colônias inglesas, era dinheiro. No século 20, virou o produto que mais matou pessoas no mundo moderno.

A mesma folha ajudou a ciência a descobrir os vírus e foi a primeira planta transgênica da história. Também carrega um capítulo sombrio: rolos de fumo baiano serviram de moeda no tráfico de africanos escravizados.

Esta é a história de uma planta que nunca foi neutra.

 

Nicotiana — Uma Família das Américas

O Tabaco cultivado, Nicotiana tabacum, pertence à família Solanaceae, a mesma do Tomate, da Batata e da Pimenta. O gênero Nicotiana reúne mais de 70 espécies, quase todas nativas das Américas e da Austrália.

A N. tabacum é um híbrido natural de 2 espécies selvagens e surgiu nos Andes. A Nicotiana rustica, mais forte e rica em nicotina, era a preferida em muitos rituais indígenas e ainda é usada no rapé amazônico.

O Tabaco é antigo na vida humana. Em 2021, arqueólogos publicaram na Nature Human Behaviour a descoberta de 4 sementes carbonizadas de Tabaco numa fogueira de caçadores-coletores em Wishbone, no deserto de Utah. Elas têm cerca de 12.300 anos, 9 mil anos a mais que o registro anterior.

 

Originário das Américas, o tabaco foi cultivado por povos indígenas como planta sagrada e medicinal muito antes de se tornar produto global.

 

De Colombo a Jamestown — A Planta que Virou Moeda

Em 1492, a expedição de Colombo viu os Taínos de Cuba enrolarem ervas secas numa folha e aspirarem a fumaça. A palavra tabaco vem do espanhol. Uma hipótese a liga ao termo taíno para o tubo ou o rolo de fumar, e outra, ao árabe tabbaq, nome antigo de ervas medicinais.

Em 1556, o frade francês André Thevet levou sementes do Brasil, onde os Tupinambá chamavam a planta de petun. Em 1560, o embaixador Jean Nicot enviou folhas à corte francesa, e Catarina de Médici passou a usá-las contra enxaquecas. Em 1753, Lineu batizou o gênero de Nicotiana, em homenagem a Nicot.

Na Virgínia, John Rolfe começou a plantar Tabaco comercial em Jamestown por volta de 1612. O cultivo deu tão certo que os colonos usaram as folhas como dinheiro durante anos, inclusive para pagar impostos.

 

Nicotina — O Inseticida que Viciou o Mundo

A nicotina foi isolada em 1828 pelos químicos alemães Posselt e Reimann. É produzida nas raízes da planta e transportada para as folhas, onde funciona como defesa contra insetos. Durante décadas, foi usada como inseticida na agricultura.

No corpo humano, ela atua sobre os receptores de acetilcolina no cérebro, estimula a liberação de dopamina e causa forte dependência. A medicina europeia dos séculos 16 e 17 receitava Tabaco para enxaqueca, feridas e até para a peste.

Hoje o quadro é o oposto. A Organização Mundial da Saúde estima que o Tabaco mata mais de 8 milhões de pessoas por ano, das quais cerca de 1,3 milhão nunca fumaram e foram expostas à fumaça de outras pessoas.

 

De ritual espiritual a mercadoria colonial, o tabaco ajudou a moldar rotas comerciais e economias no início da era moderna.

 

Petun, Pajés e o Sopro Sagrado

Para os povos indígenas da América do Sul, o Tabaco nunca foi hábito, mas sim instrumento sagrado. Pajés sopravam sua fumaça sobre doentes para curar e sobre guerreiros para protegê-los, e a usavam para entrar em contato com os espíritos. Na Amazônia, ele é considerado uma planta mestra e é usado até hoje no rapé e em rituais de cura.

Os cronistas franceses e portugueses do século 16 descreveram os Tupinambá fumando petun em grandes rolos de folha durante suas cerimônias.

No Brasil, o Tabaco atravessou as religiões afro-brasileiras. Na Umbanda, o charuto dos Caboclos e o cachimbo dos Pretos-Velhos são usados para defumar, limpar e abençoar.

 

O Vírus do Mosaico e a Primeira Planta Transgênica

Em 1892, o botânico russo Dmitri Ivanovsky estudava uma doença que deixava as folhas de Tabaco manchadas. Ele descobriu que o agente passava por filtros capazes de reter bactérias. Em 1898, o holandês Martinus Beijerinck concluiu que se tratava de algo novo, que ele chamou de fluido vivo contagioso. Era o vírus do mosaico do Tabaco, o primeiro vírus descoberto pela ciência.

O Tabaco voltou a fazer história em 1983. Naquele ano, pesquisadores criaram a primeira planta geneticamente modificada: um Tabaco resistente a um antibiótico.

Pela facilidade de cultivo e de manipulação em laboratório, ele ainda é uma das plantas-modelo mais usadas na biologia vegetal.

 

Nas lavouras que se espalharam pelo mundo, o tabaco tornou-se símbolo de poder econômico — e também de intensas controvérsias sociais.

 

Fumo de Rolo, Bahia e o Sul do Brasil

Nos séculos 17 e 18, a Bahia produzia o fumo de rolo, folhas torcidas e melaçadas enroladas em cordas. Parte dessa produção seguia para a costa da África, onde era trocada por africanos escravizados trazidos ao Brasil. O Tabaco foi uma das engrenagens do tráfico atlântico.

Hoje, o cultivo se concentra no Sul do país, com Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, como principal polo. O Brasil é o 2º maior produtor mundial, atrás da China, e o maior exportador de Tabaco desde 1993.

O fumo de rolo resiste nas feiras do interior, e o cigarro de palha ainda faz parte da cultura rural brasileira.

 

Uma Folha, Muitas Histórias

O Tabaco começou numa fogueira de caçadores há 12.300 anos, virou sopro sagrado de pajés, remédio da rainha da França e moeda da Virgínia. Ajudou a financiar o tráfico de pessoas escravizadas, revelou a existência dos vírus e se tornou a primeira planta transgênica.

Poucas plantas mostram de forma tão clara como o uso humano muda o sentido de uma folha. O que era cerimônia virou hábito, e o que era remédio virou uma das maiores causas de morte evitável do mundo.

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Fontes

  • Duke, D. et al. Earliest evidence for human use of tobacco in the Pleistocene Americas. Nature Human Behaviour, 2021. Link
  • Smithsonian Magazine. Humans’ Earliest Evidence of Tobacco Use Uncovered in Utah. Link
  • Wikipedia. History of tobacco. Link
  • Wikipedia. Jean Nicot. Link
  • Wikipedia. Tobacco mosaic virus. Link
  • Allog. Exportação de tabaco: Brasil se mantém na liderança mundial desde 1993. Link
  • Organização Mundial da Saúde. Tobacco — Fact sheet. Link

 

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