Tagete: a Flor que Protege Hortas e Encanta Culturas há Séculos

Do México que a gerou ao Dia dos Mortos que a imortalizou — a Tagete é a flor-dos-mortos dos Astecas que protege hortas de pragas, tingiu tecidos de amarelo por séculos e hoje é usada para colorir ração de galinha e produzir luteína para suplementos

Do México que a gerou ao altar do Dia dos Mortos que a imortalizou — a Tagete é a flor que os Astecas usavam para cobrir o rosto dos prisioneiros antes do sacrifício, que tingiu os ovos de amarelo antes de qualquer corante artificial e que guia as almas dos mortos pelo caminho de pétalas laranjas até os altares dos vivos.

A Tagete tem dois nomes populares que revelam sua dupla identidade — cravo-de-defunto e flor-dos-mortos. Nenhum dos dois é triste no México. São nomes de honra — a flor que conecta o mundo dos vivos ao mundo dos mortos, que guarda o calor do sol nas pétalas laranjas e que atrai as almas pelo aroma na noite de 2 de novembro. Em todo o resto do mundo, a mesma flor protege hortas de pragas, tinge a ração das galinhas para deixar as gemas mais amarelas e enfeita jardins com uma intensidade de cor que poucas flores conseguem reproduzir. Esta é a história da Tagetes erecta — a cempasúchil dos Astecas que o mundo inteiro chama pelo nome errado.

 

Cempohualxochitl — A Flor das Vinte Pétalas que os Astecas Criaram

A Tagete, Tagetes erecta, é nativa do México e da América Central — encontrada crescendo espontaneamente nos estados mexicanos de San Luis Potosí, Chiapas, Puebla, Sinaloa, Tlaxcala e Veracruz, em altitudes entre 800 e 2.300 metros. Pertence à família Asteraceae — a mesma da camomila, do girassol, da margarida e da alcachofra. É uma herbácea anual de porte ereto e ramificado que pode atingir entre 30 e 110 centímetros de altura, com folhas verdes escuras e intensamente aromáticas ao toque e inflorescências globosas e volumosas em tons de amarelo intenso, laranja e vermelho — que podem atingir entre 8 e 13 centímetros de diâmetro nas variedades maiores. O nome em náhuatl — a língua dos Astecas — é cempohualxochitl: cempohuali significa vinte e xochitl significa flores — a flor de vinte pétalas. Os espanhóis a chamaram de clavel chino e clavelón de la India — transportando para ela nomes de flores que já conheciam. O resto do mundo chamou de marigold, African marigold e uma dezena de outros nomes que revelam a confusão que uma flor tão extraordinária provocou nos colonizadores europeus que nunca a tinham visto.

 

 

Do Altar Asteca ao Jardim Europeu — A Jornada da Flor que os Espanhóis Levaram ao Mundo

Os Astecas cultivavam a Tagete há séculos antes da chegada dos espanhóis — usando-a para fins medicinais, cerimoniais e decorativos. Flores e folhas aromáticas eram usadas nos rituais de sepultamento desde as civilizações mais antigas das Américas — uma forma de purificar e perfumar o ambiente nos enterros. Os Astecas usavam as flores para decorar altares e enterros, cobrir o rosto dos prisioneiros antes do sacrifício e como remédio para doenças. Com a conquista espanhola do Império Asteca no século XVI, a Tagete foi levada à Europa — e se adaptou ao clima mediterrâneo com tanta facilidade que os europeus logo a cultivavam em jardins de Lisboa, Sevilha e Paris. Da Europa foi levada à África — onde ganhou o nome de African marigold apesar de ser completamente americana. E às Américas voltou com os colonizadores europeus que não sabiam que a planta que traziam já havia crescido ali por milênios. O movimento circular de uma flor que saiu do México, conquistou o mundo e voltou ao próprio México com nome estrangeiro.

 

Luteína, Quercetina e a Farmácia da Flor Mais Colorida do Jardim

A Tagete é uma farmácia natural de compostos bioativos com aplicações que vão da saúde humana à agricultura. O principal composto das flores é a luteína — um carotenoide com extraordinárias propriedades para a saúde ocular, estudado para prevenção de degeneração macular e cataratas. O óleo essencial da Tagete possui compostos fitotóxicos utilizados como herbicidas naturais para controle de ervas daninhas. Estudos farmacológicos confirmam propriedades bactericidas, antifúngicas e anti-inflamatórias. A quercetina presente nas folhas tem ação antioxidante documentada. O chá das flores ou folhas é usado na medicina popular contra angina, tosse, como antiespasmódico, anti-reumático e contra cólicas uterinas. Os Astecas pré-colombianos já haviam identificado empiricamente aplicações para dor abdominal, diarreia, danos ao fígado, vômito, indigestão e dores de dente — aplicações que a farmacologia moderna investiga com interesse crescente.

 

 

Xóchitl e Huitzilin — A Lenda do Amor Eterno que Criou a Cempasúchil

A Tagete protagoniza uma das lendas de amor mais belas da mitologia náhuatl. Xóchitl e o guerreiro Huitzilin se amavam com intensidade rara — e subiram juntos à montanha sagrada dedicada a Tonatiuh, o deus do Sol, para jurar amor eterno além da morte. Mas Huitzilin morreu em combate, e Xóchitl, devastada, pediu ao deus do Sol que a levasse ao mundo dos mortos para reencontrar seu amado. Tonatiuh deixou cair seus raios sobre a jovem — transformando-a numa flor de amarelo intenso como a luz do sol. Sobre ela pousou um colibri — a reencarnação de Huitzilin — abrindo suas pétalas e liberando seu aroma. Segundo a lenda, o amor de Xóchitl e Huitzilin viverá enquanto houver cempasúchil e colibris nos campos mexicanos. Essa lenda explica por que a flor guarda o calor do sol nas pétalas laranjas — e por que seu perfume é capaz de atrair e guiar as almas dos mortos de volta ao mundo dos vivos nas noites do Dia dos Mortos.

 

Cempasúchil — A Flor que Conecta os Vivos e os Mortos no Dia 2 de Novembro

O Dia dos Mortos mexicano — celebração pré-hispânica que se funde com o Dia de Finados católico — é o momento em que a Tagete atinge seu significado máximo. As pétalas da cempasúchil — que vão do amarelo intenso ao laranja profundo — guardam o calor do sol e representam o divino. Segundo a crença, seu perfume convida as almas e marca o caminho de volta para casa. Altares domésticos e comunitários — as ofrendas — são decorados com flores de cempasúchil. Pétalas são espalhadas em caminhos que vão da porta da rua até o altar, para guiar os espíritos dos mortos de volta à casa da família. O México cultiva a cempasúchil em 14 estados — com Puebla liderando com mais de 11.500 toneladas anuais de produção. A colheita movimenta milhões de dólares anualmente — concentrada nos meses de outubro e novembro. E as mudanças climáticas ameaçam essa produção — com chuvas torrenciais e secas prolongadas reduzindo drasticamente as safras dos produtores dos canais de Xochimilco, ao sul da Cidade do México.

 

 

O Segredo da Gema Amarela — A Tagete que Tinge os Ovos da Sua Geladeira

Um dos segredos mais surpreendentes da Tagete está na gema do ovo que você come no café da manhã. A luteína extraída das flores da Tagete é amplamente usada como corante natural na ração de galinhas — intensificando a coloração amarela das gemas dos ovos e da carne de aves. Sem esse corante, as gemas seriam muito mais pálidas. A indústria alimentícia usa o extrato de Tagete como corante natural em molhos para salada, sorvetes, laticínios, bebidas não alcoólicas, produtos de panificação, geleias e confeitaria. É o mesmo pigmento que colore os campos mexicanos de laranja intenso no Dia dos Mortos — e que colore discretamente dezenas de alimentos industrializados que consumimos sem saber. Além disso, a Tagete é inseticida e nematicida natural nas hortas — plantada como companheira de hortaliças, suas raízes liberam compostos que eliminam nematoides e afastam pragas, reduzindo a necessidade de pesticidas químicos.

 

México, Índia e o Mercado Global da Flor de Dois Usos

O México é o maior produtor de cempasúchil para uso ritual e ornamental — com Puebla liderando a produção nacional. Mas a Índia é o maior produtor mundial de Tagete para fins industriais — especialmente para extração de luteína, que é exportada para a indústria alimentícia e farmacêutica de todo o mundo. A Tagete é cultivada em mais de 50 países — da Índia ao Brasil, do Quênia à China. No Brasil, é chamada de cravo-de-defunto ou tagete e cultivada principalmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul — tanto para ornamentação quanto para uso em hortas como planta companheira. O movimento crescente de jardins orgânicos e hortas domésticas aumentou o interesse pela Tagete como alternativa natural aos pesticidas. Da montanha sagrada de Tonatiuh onde Xóchitl se transformou em flor à gema amarela do seu café da manhã — a Tagete percorreu séculos sendo simultaneamente flor sagrada dos mortos, tinta natural da indústria alimentícia e farmácia de jardim que protege as plantas ao redor. Quer explorar mais sobre as flores que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

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