Mel: a Seiva dos Deus que Sempre Forneceu Açúcar das Flores para a Humanidade

Das pinturas rupestres da Espanha de oito mil anos que mostram humanos colhendo mel ao Egito que o usava como moeda e oferenda aos deuses — o mel é o único alimento que nunca estraga.

Da pintura rupestre de 8.000 anos numa caverna em Valência, Espanha, ao pote encontrado intacto na tumba de um faraó egípcio, o Mel é o único alimento que não estraga — e o açúcar mais antigo que a humanidade conhece.

Antes da agricultura, da escrita e de qualquer civilização organizada, humanos já trepavam em cordas e cipós para surrupiar favos de abelhas selvagens de árvores e frestas de rochas. A pintura rupestre mais famosa do mundo sobre o Mel, encontrada na Caverna de Araña em Valência, Espanha, mostra exatamente isso — uma figura humana pendurada num cipó, alcançando uma colmeia, rodeada de abelhas. Ela tem 8.000 anos. Esta é a história do líquido dourado que as abelhas produzem há 100 milhões de anos — e o mais doce alimento a que os humanos tiveram acesso durante a maior parte da história. 

 

Apis Mellifera — A Abelha que Surgiu na África e Colonizou o Mundo

O Mel não é produto de uma planta — é produto de uma parceria entre plantas e insetos que começou há 100 milhões de anos, quando as primeiras flores surgiram e as abelhas coevoluíram com elas. O gênero Apis surgiu na África após a separação dos continentes — com o fóssil mais antigo conhecido, da espécie extinta Apis ambruster, datado de 12 milhões de anos. A Apis mellifera — a abelha produtora de Mel mais importante do mundo — é nativa da Europa, da África e da Ásia. Não existia nas Américas antes da colonização. No Brasil, os jesuítas trouxeram os primeiros enxames de Portugal em 1839, para o Rio de Janeiro. Antes disso, existiam apenas abelhas nativas sem ferrão — as meliponíneas — com as quais os povos indígenas já produziam Mel há séculos. Uma parceria de 100 milhões de anos entre flor e inseto — que a humanidade aprendeu a explorar há pelo menos 8 mil anos atrás.

 

A pintura na Caverna de Araña, em Valencia, Espanha, feita há 8.000 anos atrás, é a mais antiga representação de alguém coletando Mel

 

Da Caça ao Mel e à Apicultura do Egito — A Primeira Domesticação de um Inseto

Por milênios, obter Mel era ato de coragem e risco — escalar penhascos, enfrentar enxames e coletar colônias selvagens. Mas foi o Egito Antigo que deu o salto decisivo — há aproximadamente 4.400 anos, os egípcios descobriram que podiam induzir as abelhas a instalar colônias em potes de cerâmica feitos especificamente para esse fim. A apicultura havia sido inventada — a única domesticação bem-sucedida de um inseto na história humana. Desde a primeira dinastia egípcia, há 5.200 anos atrás, a abelha era símbolo do faraó do Baixo Egito — e o Mel era usado como alimento, moeda de troca, pagamento de impostos e ingrediente em rituais religiosos. Potes de Mel foram encontrados intactos em tumbas faraônicas com mais de 3.000 anos — ainda comestíveis.

 

Enzimas, Peróxido e o Único Alimento que Não Estraga Jamais

O Mel é extraordinário do ponto de vista químico — e sua longevidade quase infinita tem explicação científica. A baixa umidade — menos de 18% de água — cria um ambiente hostil ao crescimento de bactérias. O pH ácido — entre 3,2 e 4,5 — inibe microrganismos. E a glucose oxidase, enzima produzida pelas glândulas salivares das abelhas durante o processamento do néctar, gera peróxido de hidrogênio — um antisséptico natural. Além de não estragar, o Mel tem propriedades medicinais comprovadas — cicatrizante, antimicrobiano, imunoestimulante e prebiótico. O Mel de Manuka, da Nova Zelândia, é tão potente contra bactérias resistentes a antibióticos que é usado em curativos clínicos modernos. O Papiro de Ebers egípcio, de 3.550 anos atrás, já o prescrevia para tratar feridas e infecções — a medicina moderna chegou à mesma conclusão três milênios depois.

 

A forma hexagonal do favo de Mel foi desenvolvido pelas abelhas por ser o mais eficiente em armazenar mais Mel usando menos cera

 

Ambrosia Divina — O Mel Sagrado de Todas as culturas

Em praticamente todas as culturas que conheceram o Mel, ele foi sagrado. Para os gregos, era Ambrosia, o alimento dos deuses — bebida da imortalidade que Zeus recebeu como alimento quando bebê, escondido numa caverna em Creta. Na mitologia nórdica, o hidromel — Mel fermentado — era a bebida que dava sabedoria e poesia aos deuses. Na Bíblia, Canaã é descrita como a terra que mana leite e Mel — símbolo máximo de abundância e bênção divina. No hinduísmo, o Mel é um dos cinco néctares sagrados — o panchamrita — oferecido nas cerimônias de banho das divindades. Cleópatra usava Mel em rituais de beleza para a pele. E nos terreiros de Candomblé brasileiros, o Mel é oferenda de Oxum — orixá das águas doces, da beleza e do amor, cuja devoção inclui o Mel como símbolo de doçura e fertilidade.

 

A Terra da Lua de Mel — O Maior Segredo da Palavra

Um dos segredos mais curiosos da história do mel está escondido numa palavra que usamos até hoje. A expressão lua de mel vem de uma tradição nórdica e europeia medieval — recém-casados recebiam como presente Hidromel suficiente para beber durante um mês lunar completo, acreditando-se que a bebida de Mel fermentado aumentava a fertilidade e fortalecia o vínculo do casal. A expressão ‘lua-de-mel’ essa tradição milenar. O Mel também está na origem de palavras como melado, melaço, melífluo — que fala em voz mansa e doce — e até no nome da cidade de Melbourne, na Austrália, que significa riacho do moinho mas foi associada ao mel na tradição popular. Uma doçura tão divina para a existência humana que entrou nas palavras antes de entrar nos dicionários.

 

Cada Mel é único, sendo produzido por flores próprias de cada local e estação

 

Abelhas Sem Ferrão e o Mel Nativo Brasileiro

O Brasil tem um patrimônio apícola único — mais de 500 espécies de abelhas sem ferrão nativas, chamadas meliponíneas, que produzem méis com sabores, aromas e propriedades completamente diferentes do Mel convencional. O Mel de jataí, o Mel de mandaçaia, o Mel de uruçu e o Mel de tiúba são produtos de extrema raridade e valor — com sabores que variam do cítrico ao terroso, do floral ao amadeirado. Os povos indígenas brasileiros praticavam a meliponicultura — criação de abelhas sem ferrão — séculos antes da chegada dos europeus, numa tradição que o movimento de meliponicultores artesanais está resgatando com força crescente. O Nordeste brasileiro — especialmente o Ceará e o Piauí — é o maior produtor nacional de Mel convencional, com destaque para o mel de assa-peixe e de floradas do semiárido.

 

Do Favo Selvagem ao Mercado Global — e a Crise das Abelhas

O mercado global de Mel movimenta U$ 10 bilhões por ano — com a China liderando a produção mundial, seguida da Turquia, do Irã e da Argentina. O Brasil está entre os maiores exportadores — com Mel produzido principalmente no Sul e no Nordeste. Mas a história do Mel enfrenta hoje sua maior ameaça — o colapso das colônias de abelhas, causado pela combinação de pesticidas neonicotinoides, destruição de habitat, parasitas como o Varroa destructor e as mudanças climáticas. 1/3 de toda a alimentação humana depende da polinização das abelhas — não apenas do Mel, mas de frutas, legumes e grãos que sem elas não existiriam. A figura humana pendurada no cipó da Caverna de Araña há 8.000 anos arriscava a vida por um favo de mel. Hoje, a humanidade arrisca muito mais — a própria estabilidade dos ecossistemas alimentares que as abelhas sustentam. Quer conhecer mais sobre as plantas que conduziram nossa civilização? Descubra A História das Plantas!

 

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