Látex — O Leite Branco que Mudou a Indústria
Quando a casca da Seringueira é cortada, escorre um líquido branco e grosso, o látex. Seco e trabalhado, ele vira borracha, um material elástico e impermeável que entrou em pneus, mangueiras, luvas, sapatos e uma infinidade de objetos do mundo moderno.
Essa árvore amazônica fez fortunas e causou tragédias. Encheu de ouro cidades como Manaus e Belém, prendeu trabalhadores em dívidas no fundo da floresta, foi levada em forma de sementes para a Ásia e, um século depois, deu origem a uma luta ambiental que ganhou fama no mundo todo.
Esta é a história da Hevea brasiliensis, a Seringueira, cuja seiva foi apresentada à ciência francesa em 1736, que ganhou o nome inglês rubber por apagar riscos de lápis, que construiu o Teatro Amazonas, que perdeu a liderança para as plantações asiáticas e que teve em Chico Mendes um de seus grandes defensores.
Hevea — Uma Árvore Alta da Bacia Amazônica
A Seringueira é nativa da bacia amazônica e pertence à família das Euforbiáceas, a mesma da mamona. Na natureza, pode chegar a 43 metros de altura. Nas plantações, as árvores ficam menores, porque a extração do látex limita o crescimento. O tronco é cilíndrico e, às vezes, tem a base inchada, em forma de garrafa.
O látex corre em vasos na casca, que sobem pelo tronco em espiral, com uma inclinação de cerca de 30 graus. As folhas têm 3 folíolos. As flores masculinas e femininas são separadas, de cor creme-amarelada, sem pétalas e com cheiro forte. O fruto é uma cápsula com 3 sementes grandes, que se abre de forma explosiva quando madura.
A árvore precisa de clima tropical ou subtropical, com pelo menos cerca de 1.200 milímetros de chuva por ano e sem geadas. Uma única geada pode deixar a borracha de uma plantação quebradiça. Hoje, por causa das introduções feitas pelo homem, a Seringueira cresce em regiões tropicais do mundo todo, sobretudo no Sul e no Sudeste da Ásia.
Caoutchouc — Da Bola Olmeca ao Apagador de Priestley
O uso da borracha nas Américas é muito antigo, mas começou com outra árvore. Há cerca de 3.600 anos, os olmecas já faziam uma borracha parecida com o látex da Castilla elastica, usada nas bolas do jogo de bola mesoamericano. Na Amazônia, a Seringueira foi chamada no Brasil de árvore-da-borracha-do-pará, por causa da província do Grão-Pará.
Na Europa, o material chegou pela ciência. Em 1736, o francês Charles Marie de La Condamine apresentou amostras de borracha à Academia Real de Ciências da França e registrou o nome caoutchouc. Em 1751, foi apresentado um trabalho de François Fresneau, publicado em 1755, que descrevia muitas das propriedades do material.
O nome inglês veio de um uso doméstico. Em 1770, o químico Joseph Priestley percebeu que a borracha servia para apagar marcas de lápis, e daí veio a palavra rubber, de esfregar. Depois, o escocês Charles Macintosh criou tecidos impermeáveis com borracha. Em 1839, o americano Charles Goodyear redesenvolveu a vulcanização, que deixou a borracha resistente ao calor e ao frio.
Sangria — O Corte que Faz a Árvore Chorar
A extração do látex é chamada de sangria. O seringueiro faz cortes na casca, atravessando os vasos de látex, com profundidade suficiente para fazer o líquido escorrer sem prejudicar o crescimento da árvore. O látex escorre pelo corte e é recolhido em pequenos recipientes presos ao tronco.
A primeira colheita acontece de 7 a 10 anos depois do plantio. A quantidade de látex varia muito de uma árvore para outra e de um clone para outro, por isso as plantações modernas usam clones selecionados. Com a idade, a produção diminui, e as árvores costumam ser derrubadas entre 25 e 30 anos.
A madeira, que antes era queimada, hoje costuma ser aproveitada na fabricação de móveis. As sementes também guardam uma defesa química. Elas concentram glicosídeos cianogênicos, substâncias que protegem a planta contra quem tenta comê-las. Nas plantações, sobretudo na Malásia, o trióxido de arsênio foi muito usado contra insetos, bactérias e fungos, um lado pouco lembrado desse cultivo.
Teatro — O Ouro Branco de Manaus e Belém
A borracha vulcanizada abriu um mercado gigantesco, e a Amazônia viveu um período de riqueza. Segundo a Wikipedia, as exportações passaram de mais de 2.100 toneladas em 1855 para 10 mil toneladas em 1879. O auge e boa parte dos abusos aconteceram entre cerca de 1879 e 1912.
Manaus e Belém ganharam teatros luxuosos. O Teatro Amazonas começou a ser construído em 1884 e foi inaugurado em 31 de dezembro de 1896, com escadarias e colunas de mármore de Carrara, telhas da Alsácia, paredes de aço de Glasgow, móveis franceses e 198 lustres italianos, 32 deles de vidro de Murano. A primeira ópera, La Gioconda, foi apresentada em 7 de janeiro de 1897.
A borracha também redesenhou fronteiras. Em 1903, pelo Tratado de Petrópolis, a Bolívia cedeu o Acre ao Brasil, que se comprometeu a construir uma ferrovia contornando as cachoeiras do rio Madeira. A Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ficou pronta em 1912, tarde demais para dar lucro, e sua construção teria matado cerca de 6 mil trabalhadores.
Wickham — As Sementes que Foram para a Ásia
A virada veio de sementes levadas para fora do país. Em 1873, 12 mudas germinadas no Jardim Botânico de Kew, em Londres, foram enviadas à Índia e morreram. Pouco depois, Henry Wickham levou cerca de 70 mil sementes do Brasil para Kew, das quais só cerca de 4% germinaram. Em 1876, cerca de 2 mil mudas seguiram para o Ceilão e 22 para Singapura.
As plantações asiáticas cresceram rápido. As árvores chegaram a Java em 1883, e em 1898 já existia uma plantação na Malásia. Mais produtivas e baratas, essas lavouras derrubaram o preço da borracha amazônica. Na Amazônia, o cultivo esbarrou no mal-das-folhas, uma doença causada pelo fungo Pseudocercospora ulei, nativo da região.
Até Henry Ford tentou plantar Seringueiras no Pará. Em 1928, ele criou Fordlândia, às margens do rio Tapajós, numa concessão de cerca de 10 mil quilômetros quadrados. Pragas, solo ruim e revoltas de trabalhadores, como a Quebra-Panelas, de 1930, levaram o projeto para Belterra em 1934. Em 1945, as terras foram vendidas de volta ao governo brasileiro, com prejuízo de mais de 20 milhões de dólares.
Empate — Seringueiros, Soldados e Chico Mendes
A riqueza da borracha teve um preço humano alto. No Putumayo, na fronteira do Peru com a Colômbia, a Peruvian Amazon Company, de Julio César Arana, foi responsável pela morte de mais de 40 mil indígenas, segundo a Wikipedia. Os crimes foram documentados pelo cônsul britânico Roger Casement entre 1910 e 1911.
Na Segunda Guerra Mundial, a Amazônia voltou a ser chamada. Entre 1942 e 1945, o Nordeste mandou cerca de 54 mil trabalhadores para os seringais, 30 mil deles do Ceará. Cerca de 30 mil desses soldados da borracha morreram na floresta, e só cerca de 6 mil voltaram para casa, por conta própria.
Décadas depois, um seringueiro de Xapuri, no Acre, virou símbolo mundial. Chico Mendes, nascido em 1944, ajudou a fundar o sindicato dos seringueiros em 1975 e liderou os empates, bloqueios pacíficos contra a derrubada da floresta. Foi assassinado em 22 de dezembro de 1988. Em 1990, foi criada a Reserva Extrativista Chico Mendes, com quase 1 milhão de hectares.
Seiva — Uma Árvore entre a Floresta e a Fábrica
A Seringueira é uma árvore da Amazônia que mudou a indústria do mundo. Seu látex virou caoutchouc nos salões franceses, apagador nas mãos de Priestley e borracha vulcanizada nas fábricas de Goodyear. Na floresta, encheu Manaus de mármore italiano e prendeu seringueiros em dívidas e violência.
Hoje, a maior parte da borracha natural vem da Ásia. Em 2022, Tailândia, Indonésia e Vietnã responderam por cerca de 61% dos 15,1 milhões de toneladas produzidos no mundo. No Brasil, São Paulo é o maior produtor nacional. Na Amazônia, o legado de Chico Mendes e das reservas extrativistas lembra que a floresta em pé também sustenta quem vive dela.
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