Cravo: A Flor de Zeus que Enfeitou os Fuzis da Revolução Portuguesa

Das encostas do Mediterrâneo, onde os gregos o chamaram de flor divina, às lapelas de Oscar Wilde, ao Dia das Mães americano e aos fuzis dos soldados de Lisboa em 1974, o Cravo é a flor que já significou amor, luto, provocação e liberdade

 

Uma Flor de Muitos Significados

Na manhã de 25 de abril de 1974, uma mulher com um maço de flores nas mãos atravessou o centro de Lisboa e entregou uma delas a um soldado, que a enfiou no cano do fuzil. Poucas horas depois, a ditadura que governava Portugal havia quase 50 anos caiu praticamente sem tiros. As flores eram Cravos vermelhos.

Não foi a primeira vez que o Cravo carregou uma mensagem. Ele já havia sido flor de coroas gregas, símbolo de Maria, código secreto de Oscar Wilde e emblema do Dia das Mães.

Esta é a história de uma flor que mudou de sentido muitas vezes, sem nunca perder o perfume.

 

Dianthus caryophyllus — A Flor Divina do Mediterrâneo

O Cravo, Dianthus caryophyllus, pertence à família Caryophyllaceae. É uma planta perene de folhas estreitas e acinzentadas e flores de pétalas franjadas, nativa da região do Mediterrâneo. Seu local exato de origem é incerto, porque ele é cultivado há cerca de 2 mil anos.

O nome do gênero vem do grego dios, divino, e anthos, flor: a flor dos deuses. O epíteto caryophyllus e o nome português Cravo vêm da semelhança do seu perfume com o do Cravo-da-índia.

O gênero Dianthus reúne cerca de 300 espécies, entre elas a Cravina e o Cravo-poeta, Dianthus barbatus. Lineu descreveu o Cravo em 1753.

 

O Dianthus caryophyllus tem nome que vem do grego — Dios, de Zeus, e anthos, flor — literalmente a flor dos deuses ou flor de Júpiter.

 

De Coroas Gregas a Jardins Renascentistas

Os gregos já cultivavam o Cravo há cerca de 2 mil anos e o usavam em coroas e guirlandas. Um dos nomes em inglês, carnation, costuma ser ligado ao latim corona, coroa, ou a carnis, carne, pela cor rosada das flores antigas.

Na Idade Média e no Renascimento, o Cravo se espalhou pelos jardins europeus. Aparece em pinturas de noivados e casamentos como símbolo de amor e compromisso, muitas vezes na mão dos noivos retratados.

Jardineiros criaram centenas de variedades, com flores dobradas e cores do branco ao vermelho-escuro, listradas e mescladas.

 

O Cravo que Bebe Tinta e o Cravo Azul

O Cravo é uma das flores de corte mais duráveis. Colhido no ponto certo, dura semanas no vaso, o que o tornou uma das bases do comércio de flores.

Seus caules absorvem bem a água, e é por isso que o Cravo branco é usado em experiências escolares de capilaridade. Com o caule mergulhado em água com corante, a flor muda de cor em poucas horas.

O Cravo nunca teve flores azuis naturais, porque não produz os pigmentos dessa cor. Em 1997, a empresa australiana Florigene lançou o Moondust, um Cravo violeta-azulado que recebeu um gene da Petúnia. Foi uma das primeiras flores geneticamente modificadas vendidas no mundo.

 

O cravo vermelho tornou-se símbolo da Revolução dos Cravos de 1974 quando soldados portugueses colocaram flores nos canos dos fuzis ao depor a ditadura.

 

As Lágrimas de Maria e o Dia das Mães

Uma lenda cristã conta que, quando Maria viu Jesus carregando a cruz, chorou, e das lágrimas que caíram na terra brotaram os primeiros Cravos. Por isso a flor ficou associada ao amor materno.

Em 1907, a americana Anna Jarvis escolheu o Cravo branco, flor preferida da sua mãe, como símbolo do Dia das Mães. Com o tempo, criou-se o costume de usar Cravo vermelho para mães vivas e branco para as que já morreram.

Na Coreia do Sul, os filhos oferecem Cravos vermelhos aos pais no Dia dos Pais, em 8 de maio.

 

O Cravo Verde de Oscar Wilde

Em 1892, na estreia da peça O Leque de Lady Windermere, em Londres, Oscar Wilde pediu a amigos que usassem na lapela um Cravo tingido de verde. Quando perguntaram o que significava, ele respondeu que não significava nada, e que era justamente isso que ninguém ia adivinhar.

O Cravo verde, uma flor artificial, feita com tinta, virou símbolo do movimento estético e, depois, um código associado à homossexualidade na Inglaterra vitoriana. Mais de um século depois, foi retomado como símbolo de orgulho.

O vermelho também ganhou outro sentido político: no século 20, o Cravo vermelho passou a ser usado por movimentos operários e socialistas em manifestações do 1º de Maio.

 

Na era vitoriana, oferecer um buquê de cravos era declaração velada de amor — numa sociedade onde as emoções não podiam ser expressas diretamente.

 

Celeste Caeiro e o 25 de Abril

Em 25 de abril de 1974, os militares do Movimento das Forças Armadas derrubaram a ditadura do Estado Novo em Portugal. Celeste Caeiro trabalhava num restaurante de Lisboa que ia comemorar o aniversário com Cravos. Como o restaurante não abriu naquele dia, ela levou as flores para a rua e as ofereceu aos soldados, que as colocaram nos canos dos fuzis.

O gesto se espalhou pela cidade, e o golpe passou a ser chamado de Revolução dos Cravos. Todos os anos, em 25 de abril, os portugueses usam Cravos vermelhos para celebrar a data.

O Cravo é considerado flor nacional da Espanha, de Mônaco e da Eslovênia, e o Cravo escarlate é a flor oficial do estado americano de Ohio, em homenagem ao presidente William McKinley.

 

A Flor que Mudou de Sentido

O Cravo foi flor dos deuses na Grécia, lágrima de Maria, sinal de amor nos retratos de noivos, homenagem às mães, código de Oscar Wilde e símbolo de revolução.

Poucas flores tiveram tantos significados diferentes, e todos continuam vivos. Um mesmo Cravo vermelho pode estar numa lapela de casamento, numa homenagem ao Dia das Mães ou no cano de um fuzil em Lisboa. Quem o oferece escolhe o que ele quer dizer.

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Fontes

  • Wikipedia. Dianthus caryophyllus. Link
  • University of Arkansas. Plant of the Week: Blue Carnation – Moondust. Link
  • LGBT History Project. Green carnation. Link
  • Lit Hub. How Oscar Wilde Created a Queer, Mysterious Symbol in Green Carnations. Link
  • PMC. Studies on the mother flower carnation: past, present, and future. Link

 

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