Os Gigantes que Sustentam a Vida
Uma árvore parece uma coisa simples: tronco, galhos, folhas e raízes. Mas cada uma é uma solução engenhosa para um desafio antigo das plantas: crescer para cima, em direção à luz, sem desabar sob o próprio peso.
As árvores surgiram há mais de 380 milhões de anos, muito antes dos dinossauros, e mudaram o clima, os solos e a vida na Terra. Hoje, existem cerca de 3 trilhões delas no planeta e dezenas de milhares de espécies, das palmeiras da praia às sequoias da Califórnia.
Elas nos deram madeira, fogo, frutos, remédios, papel e sombra. Também viraram deuses, símbolos de nações e até nome de país, como o nosso. Esta é a história das árvores, seres vivos que moldaram a paisagem em que a humanidade nasceu e continuam sustentando a vida no planeta.
Lignina — As Primeiras Florestas do Devoniano
Árvore não é um grupo da botânica, e sim uma forma de vida. Plantas de famílias muito diferentes, como os Pinheiros, as Palmeiras, os Ipês e as Samambaias-açu, desenvolveram troncos altos de forma independente. O segredo de quase todas é a lignina, uma substância que endurece as paredes das células e permite que o tronco sustente toneladas de peso.
As primeiras florestas surgiram no período Devoniano. Em 2019, pesquisadores descreveram raízes fósseis de árvores com cerca de 386 milhões de anos em Cairo, no estado de Nova York, nos Estados Unidos. Era a floresta fóssil mais antiga conhecida até então.
Entre essas árvores estava a Archaeopteris, com raízes profundas e folhas parecidas com as de plantas atuais, que os pesquisadores descrevem como o começo do que as florestas viriam a ser. As primeiras florestas mudaram os solos, retiraram grandes quantidades de gás carbônico do ar e ajudaram a mudar o clima do planeta.
Carvão — Das Florestas Antigas à Mão Humana
No período Carbonífero, entre cerca de 360 e 300 milhões de anos atrás, florestas pantanosas cobriram grandes áreas da Terra. Muitas árvores dessa época, parentes das Cavalinhas e dos Licopódios atuais, caíram em pântanos e foram enterradas. Com o tempo, o calor e a pressão as transformaram em carvão mineral, o combustível que moveria a Revolução Industrial.
Mais tarde, surgiram as coníferas, como os Pinheiros e as Araucárias. Há mais de 100 milhões de anos, vieram as árvores com flores, que hoje formam a maior parte das florestas tropicais.
Os humanos cresceram entre as árvores e dependeram delas para lenha, abrigo, ferramentas, barcos e alimento, mas também as derrubaram em grande escala. Em 2015, um estudo publicado na Nature estimou que existem cerca de 3 trilhões de árvores na Terra. Segundo o mesmo estudo, esse número caiu cerca de 46% desde o início da civilização, e mais de 15 bilhões de árvores são cortadas por ano.
Fotossíntese — Carbono, Água e Remédios
As árvores fazem fotossíntese: usam a luz do sol para transformar gás carbônico e água em açúcares e liberam oxigênio. Parte desse carbono fica guardada por décadas ou séculos na madeira, nas raízes e no solo, o que torna as florestas grandes aliadas contra as mudanças climáticas.
Elas também movem água. As raízes puxam a umidade do solo, e as folhas a devolvem ao ar como vapor. Na Amazônia, essa transpiração alimenta correntes de umidade, chamadas de rios voadores, que levam chuva para outras regiões do Brasil e da América do Sul. Sem essa umidade, parte das lavouras e dos reservatórios do Centro-Oeste e do Sudeste receberia menos água. Nas cidades, as árvores também refrescam as ruas com sua sombra e com a água que evaporam.
Muitos remédios nasceram das árvores. A casca do Salgueiro guarda a salicina, que inspirou a criação da aspirina. A casca da Quina, dos Andes, deu a quinina contra a malária. E o Teixo-do-pacífico forneceu a base do paclitaxel, usado no tratamento de alguns tipos de câncer.
Yggdrasil — Árvores dos Deuses e dos Orixás
Em muitas culturas, a árvore é o eixo do mundo. Na mitologia nórdica, Yggdrasil, um enorme Freixo, liga o céu, a terra e o mundo dos mortos. Na Bíblia, o jardim do Éden tem a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.
Na Índia, foi sob uma Figueira-dos-pagodes, em Bodh Gaya, que Siddhartha Gautama teria alcançado a iluminação e se tornado o Buda. A árvore que cresce hoje no local é considerada descendente da original, e a espécie é chamada de Árvore Bodhi.
Na África Ocidental, o Iroko é uma árvore sagrada dos iorubás. No candomblé brasileiro, o orixá Iroko é cultuado na Gameleira-branca, que substituiu a árvore africana. Os terreiros amarram panos brancos em seus troncos, e muitas Gameleiras antigas são tratadas como seres sagrados, que não podem ser derrubados. Em várias partes da África, o Baobá, de tronco enorme e oco, também é árvore de reunião, de conselho e de memória dos ancestrais.
Matusalém — Os Recordistas e a Rede Subterrânea
Algumas árvores vivem milênios. Um Pinheiro-bristlecone da Califórnia, chamado Matusalém, tem cerca de 4.850 anos e é considerado o organismo vivo não clonal mais antigo confirmado. A localização exata é mantida em segredo para protegê-lo de vândalos. Ele já tinha séculos de vida quando as pirâmides do Egito foram construídas.
As árvores também guardam recordes de tamanho. A mais alta já medida é uma Sequoia-costeira da Califórnia chamada Hyperion, com cerca de 116 metros. Os anéis de crescimento das árvores antigas funcionam como arquivos do clima, capazes de registrar secas, frios extremos e até grandes erupções vulcânicas.
Outro segredo está no solo. Fungos micorrízicos se associam às raízes e trocam nutrientes por açúcares. Livros e documentários popularizaram a ideia de uma internet das florestas, em que árvores-mães alimentariam seus filhotes por essas redes. Em 2023, porém, uma revisão publicada na Nature Ecology & Evolution mostrou que as evidências de campo ainda são limitadas e que a ideia das árvores-mães não tem comprovação publicada.
Pau-brasil — Um País com Nome de Árvore
Segundo um estudo de 2022 na revista PNAS, existem cerca de 73 mil espécies de árvores no mundo, e cerca de 9 mil ainda não foram descritas pela ciência. A América do Sul concentra a maior parte dessa diversidade escondida.
O Brasil é o país com mais espécies de árvores registradas. Em 2017, o levantamento GlobalTreeSearch contou 8.715 espécies no país, das quais 4.333 só existem aqui. O próprio nome do Brasil vem de uma árvore, o Pau-brasil, cuja madeira vermelha era usada para tingir tecidos na Europa. A extração foi tão intensa nos primeiros séculos da colonização que a espécie, nativa da Mata Atlântica, hoje está ameaçada de extinção. Sua madeira ainda é disputada para fazer arcos de violino.
O risco não é só do Pau-brasil. O mesmo levantamento de 2017 estimou que cerca de 9.600 espécies de árvores no mundo correm risco de extinção, principalmente pelo desmatamento e pela exploração excessiva. No Brasil, a Mata Atlântica, a Amazônia e o Cerrado concentram boa parte dessas perdas.
Uma Herança que Cresce Devagar
As árvores surgiram há mais de 380 milhões de anos e transformaram o planeta: criaram solos, mudaram o clima, viraram carvão e sustentaram a vida de incontáveis espécies, inclusive a nossa.
Hoje, são deuses em alguns terreiros, remédios em hospitais, sombra em praças e nome de país. Mas também são cortadas aos bilhões todos os anos. Por isso, plantar e proteger uma árvore é um gesto de longo prazo: quem planta raramente vê a árvore adulta, mas quem vem depois colhe sua sombra, seus frutos e seu ar. É uma herança que cresce devagar, anel por anel, e que pode durar muito mais que uma vida humana.
Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!
Fontes
- ScienceDaily. 385-million-year-old forest discovered (Cairo, Nova York, 2019). Link
- Crowther, T. et al. Mapping tree density at a global scale. Nature, 2015. Link
- Gatti, R. C. et al. The number of tree species on Earth. PNAS, 2022. Link
- BGCI. GlobalTreeSearch, 2017, via Phys.org. Link
- Wikipedia. Ancient Bristlecone Pine Forest. Link
- Karst, J. et al. Positive citation bias and overinterpreted results lead to misinformation on common mycorrhizal networks in forests. Nature Ecology & Evolution, 2023. Link

