Alecrim: O Orvalho do Mar que Virou Sálvia e Erva da Memória

Das encostas do Mediterrâneo, onde a névoa do mar lhe deu o nome, aos buquês de casamento, às lembranças de guerra e aos estudos sobre memória, o Alecrim trocou de gênero em 2017 e virou oficialmente uma Sálvia

 

A Erva que Lembra

Poucas plantas têm uma relação tão antiga com a memória. Na Europa, o Alecrim foi durante séculos a erva da lembrança. Estava nos casamentos, para que os noivos não esquecessem os votos, e nos funerais, para que os vivos não esquecessem os mortos.

Shakespeare registrou essa tradição. A ciência moderna foi conferir se havia algo de verdade nela, e a botânica descobriu que o Alecrim estava no gênero errado havia mais de 250 anos.

Esta é a história de um arbusto pequeno e resistente, que nasceu perto do mar, conquistou as cozinhas do Mediterrâneo e nunca deixou de ser lembrado.

 

Salvia rosmarinus — O Orvalho do Mar

Durante mais de 2 séculos, o Alecrim se chamou Rosmarinus officinalis. Em 2017, estudos de genética mostraram que ele pertence ao gênero Salvia, e o nome aceito passou a ser Salvia rosmarinus, na família Lamiaceae, a mesma da Hortelã, do Manjericão e da Lavanda.

O nome antigo vem do latim ros marinus, orvalho do mar. O Alecrim é nativo do Mediterrâneo, de Portugal e do noroeste da Espanha, e cresce melhor perto do litoral, em solos pobres, pedregosos e secos.

É um arbusto perene de folhas estreitas como agulhas, verde-escuras por cima e esbranquiçadas por baixo, com pequenas flores azul-claras, lilases ou brancas. Suporta longos períodos sem chuva, e algumas variedades resistem a geadas de até 20 graus negativos.

 

Desde 2017, o Alecrim se chama Salvia rosmarinus — estudos genéticos o incluíram no gênero Salvia

 

Do Mediterrâneo Antigo aos Jardins do Mundo

Gregos e romanos conheciam bem o Alecrim. O médico grego Dioscórides o incluiu em seu manual de plantas medicinais no século 1. Segundo a tradição, estudantes gregos usavam coroas de Alecrim durante os estudos para ajudar a memória.

Na Idade Média, a planta se espalhou pelas hortas dos mosteiros europeus e ganhou fama como erva de proteção, queimada em quartos de doentes e usada em defumações.

Nos séculos seguintes, o Alecrim foi levado para jardins de todo o mundo. Por resistir à seca e ao calor, adaptou-se bem a climas quentes e hoje é cultivado das Américas à Austrália.

 

Cineol, Ácido Carnósico e o Conservante E392

O óleo essencial do Alecrim reúne cerca de 150 compostos, entre eles o 1,8-cineol, a cânfora e o ácido rosmarínico. As folhas são ricas em ácido carnósico, um antioxidante potente.

Por causa desses antioxidantes, o extrato de Alecrim é usado como conservante natural de alimentos. Em 2010, a União Europeia aprovou o uso definitivo do extrato como aditivo, com o código E392, para evitar que gorduras e óleos fiquem rançosos.

Em 2012, um estudo da Universidade de Northumbria, no Reino Unido, com 20 voluntários, encontrou relação entre o nível de 1,8-cineol no sangue, depois de inalar o aroma de Alecrim, e o desempenho em testes de velocidade e precisão. Os próprios autores alertaram para o tamanho pequeno da amostra.

 

Rosmarinus significa orvalho do mar — o Alecrim cresce nas encostas litorâneas do Mediterrâneo

 

A Erva dos Casamentos, dos Funerais e de Maria

Em Hamlet, a personagem Ofélia entrega flores e diz: aqui está o Alecrim, para a lembrança. Shakespeare também citou a planta em Romeu e Julieta e Conto de Inverno.

Na Inglaterra e em outras partes da Europa, o Alecrim ia nas coroas das noivas como símbolo de fidelidade, e ramos eram jogados sobre os caixões nos enterros. Na Austrália, ramos de Alecrim são usados até hoje no Dia de Anzac, em homenagem aos soldados mortos.

Uma lenda cristã conta que a Virgem Maria, na fuga para o Egito, estendeu seu manto azul sobre um arbusto de Alecrim de flores brancas, que desde então ficaram azuis.

 

A Sálvia Escondida e o Alecrim que Não É Alecrim

Por mais de 250 anos, os botânicos classificaram o Alecrim num gênero próprio. As análises de DNA mostraram que ele está no meio das Sálvias, e por isso foi incorporado ao gênero, que hoje reúne quase 1.000 espécies.

No Brasil, o nome Alecrim também designa plantas de outras famílias. A mais famosa é o Alecrim-do-campo, Baccharis dracunculifolia, um arbusto nativo da família Asteraceae, a mesma do Girassol.

As abelhas coletam a resina dos brotos do Alecrim-do-campo e produzem com ela a própolis verde. Rica em artepilina C, essa própolis é produzida sobretudo em Minas Gerais e é muito valorizada no exterior, especialmente no Japão.

 

Em Hamlet, Ofélia diz: aqui está o Alecrim, é para a lembrança — associação com a memória que atravessa séculos

 

Da Focaccia ao Banho de Ervas

Na cozinha do Mediterrâneo, o Alecrim acompanha cordeiro, porco, frango e batatas assadas, e perfuma a focaccia italiana. Suas folhas resistentes suportam longos cozimentos sem perder o aroma.

No Brasil, o Alecrim entrou na culinária e também na tradição popular. É usado em chás, em banhos de ervas e em defumações nas religiões afro-brasileiras, associado à alegria e à proteção.

A cantiga de roda “Alecrim Dourado”, que fala do Alecrim que nasceu no campo sem ser semeado, é conhecida por gerações de crianças brasileiras.

 

Uma Planta que Não Deixa Esquecer

O Alecrim cresceu nas encostas perto do mar, ganhou um nome poético em latim, esteve em casamentos, funerais e peças de Shakespeare, e acabou reclassificado pela genética como uma Sálvia.

Hoje, ele conserva alimentos, perfuma cozinhas e ainda aparece em homenagens aos mortos e em estudos sobre memória. Poucas plantas fizeram tanto para merecer a fama de erva da lembrança.

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Fontes

  • Wikipedia. Rosemary. Link
  • JSTOR Daily. Rosemary: The Herb of Ritual and Remembrance. Link
  • Moss, M.; Oliver, L. Plasma 1,8-cineole correlates with cognitive performance following exposure to rosemary essential oil aroma. Therapeutic Advances in Psychopharmacology, 2012. Link
  • FoodNavigator. Rosemary extracts get final EU approval for food preservation, 2010. Link
  • FBTS. Salvia rosmarinus Becomes New Member of Salvia Genus. Link

 

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