Alho-poró: o vegetal apreciado desde o Egito Antigo

Do Mediterrâneo que o gerou ao símbolo nacional do País de Gales que o usa no capacete — o Alho-Poró é o vegetal que os soldados de Gales usavam na batalha para se distinguir dos inimigos e que o imperador Nero comia diariamente para proteger a voz

Do Mediterrâneo que o gerou ao elmo dos soldados galeses que o usavam para se distinguir dos inimigos — o Alho-Poró é o vegetal que o imperador Nero comia diariamente para proteger a voz, que a Bíblia menciona como saudade do Egito e que o País de Gales adotou como símbolo nacional.

O Alho-Poró tem um problema de identidade resolvido há muito tempo. Não é alho — não tem o bulbo arredondado do alho. Não é cebola — não tem o sabor pungente da cebola. É um longo cilindro branco e verde de sabor suave, levemente adocicado, que os egípcios comiam há 4.000 anos, que os romanos espalharam pela Europa e que a culinária francesa consagrou no bouquet garni e na Vichyssoise. Esta é a história do Allium porrum — o vegetal que está entre o alho e a cebola, literalmente e figurativamente, e que escolheu um país inteiro para representar.

 

Allium Porrum — O Vegetal Entre o Alho e a Cebola que Ninguém Sabe de Onde Vem

O Alho-Poró, Allium porrum — também classificado como Allium ampeloprasum var. porrum — pertence à família Amaryllidaceae — a mesma do alho, da cebola, da cebolinha e do alho-francês. É uma planta bienal — produz folhas e talo no primeiro ano e floresce e produz sementes no segundo — mas cultivada comercialmente como anual, colhida antes de florescer. Em vez de formar um bulbo arredondado como a cebola, o Alho-Poró produz um longo cilindro de folhas encaixadas, esbranquiçadas na zona subterrânea — a parte mais valorizada na culinária — e verdes na parte aérea. O falso caule branco é na verdade uma série de bainhas de folhas sobrepostas. A origem exata do Alho-Poró é incerta — é vegetal tão antigo que os botânicos não conseguem determinar sua origem selvagem com certeza. O alho-poró cultivado possivelmente derivou do Allium ampeloprasum, variedade silvestre que cresce das costas do sul do País de Gales e da Cornualha, na Grã-Bretanha, até o Irã. O Mediterrâneo e o Oriente Médio são as regiões de origem mais aceitas — e o vegetal era cultivado no Egito Antigo há pelo menos 4.000 anos.

 

 

Do Egito Antigo aos Romanos — A Jornada do Vegetal que a Bíblia Menciona com Saudade

O alho-poró era já utilizado pelos antigos Egípcios, Gregos e Romanos que depois levaram o vegetal a diversas partes da Europa. No Egito Antigo, era alimento comum — registros arqueológicos mostram seu cultivo em jardins e sua presença como oferenda nos templos. Na Bíblia, no livro dos Números, os hebreus que saíam do Egito com Moisés sentiam saudade dos alhos-porós que comiam no Egito — numa das primeiras referências documentadas ao vegetal. Hipócrates o prescrevia como diurético e expectorante. E os romanos foram os grandes difusores — responsáveis por espalhar o cultivo do Alho-Poró por toda a Europa, especialmente no que hoje é a França, a Inglaterra e o País de Gales. O imperador Nero era seu consumidor mais famoso — comia Alho-Poró diariamente acreditando que melhorava a qualidade da voz para seus discursos e performances. Seus contemporâneos o apelidaram de Porrophagus — comedor de alho-poró — num dos apelidos mais inusitados da história imperial romana.

 

Alicina, Quercetina e a Farmácia do Vegetal Mais Suave da Família do Alho

O Alho-Poró reúne as propriedades medicinais da família Allium numa forma mais suave e digerível. Contém alicina — o mesmo composto sulfurado do alho com propriedades antibacterianas e cardiovasculares documentadas — mas em concentração menor, tornando-o mais fácil de consumir por quem não tolera o alho cru. Rico em vitaminas A, C, K e do complexo B, ferro, cálcio, potássio, fósforo e manganês. A quercetina presente nas folhas tem ação antioxidante e anti-inflamatória documentada. As fibras prebióticas alimentam as bactérias benéficas do intestino. Tem ação diurética confirmada — que os romanos e Hipócrates já utilizavam empiricamente. E estudos modernos associam o consumo regular de vegetais do gênero Allium — incluindo o Alho-Poró — à redução do risco de certos cânceres, especialmente do estômago e do cólon.

 

 

O Alho-Poró na Bíblia, nos Mitos e nas Tradições Espirituais

O Alho-Poró tem presença nas tradições sagradas de culturas completamente diferentes. Na Bíblia, a menção no livro dos Números não é apenas gastronômica — é espiritual: os hebreus que saíam da escravidão do Egito sentiam saudade dos alimentos que comiam lá, incluindo o Alho-Poró. A nostalgia pela comida do cativeiro foi interpretada pelos rabinos como símbolo da tentação de retornar à servidão confortável em vez de enfrentar a liberdade incerta — tornando o Alho-Poró uma metáfora bíblica da condição humana. Na tradição druídica céltica, era planta associada à lua e às práticas de purificação. No folclore europeu medieval, plantar Alho-Poró próximo à porta protegia a casa de espíritos malignos — aproveitando as propriedades antimicrobianas do vegetal numa interpretação espiritual. E na medicina popular galesa, era usado em preparações para tratar feridas de guerra — ligando o símbolo nacional ao cuidado dos guerreiros que o carregavam nos elmos.

 

Dydd Gŵyl Dewi — O Dia em que Gales Usa Alho-Poró no Chapéu

De acordo com a mitologia do País de Gales, São David ordenou aos seus soldados galeses que envergassem a planta nos seus elmos numa batalha contra os Saxões que teria ocorrido num campo de alhos-porros. A batalha foi vencida — e o Alho-Poró tornou-se símbolo de identidade e vitória para os galeses. Todo dia 1º de março — o Dydd Gŵyl Dewi, o Dia de São David, padroeiro do País de Gales — os galeses usam Alho-Poró na lapela, no chapéu ou no casaco como símbolo nacional. É tradição que rivaliza com o trevo irlandês do Dia de São Patrício — outro vegetal que definiu a identidade de um povo inteiro. Shakespeare refere-se à tradição de envergar o alho-poró na sua peça Henrique V, onde Henrique diz a Fluellen que está envergando o alho-poró “porque sou galês, bem sabes, caro compatriota”. Uma hortaliça que encontrou um povo e decidiu representá-lo para sempre.

 

 

A Vichyssoise — A Sopa Fria que um Chef Francês Inventou em Nova York

O Alho-Poró é o ingrediente central de uma das criações gastronômicas mais elegantes e mais debatidas do século XX. A Vichyssoise — sopa cremosa fria de Alho-Poró com batata, creme e cebola — foi criada em 1917 pelo chef francês Louis Diat no Ritz-Carlton de Nova York. Diat se inspirou numa sopa quente que sua mãe fazia na Borgonha — e a serviu fria com creme numa versão refinada que imediatamente conquistou a aristocracia americana. O nome homenageia Vichy, cidade da região natal do chef. O paradoxo da Vichyssoise é que é uma sopa francesa criada em Nova York por um chef que nunca voltou a viver na França — e que tornou-se prato clássico da culinária francesa sem nunca ter sido francesa de origem. O Alho-Poró é também ingrediente indispensável do bouquet garni e do caldo de legumes clássico francês — dando suavidade e profundidade de sabor que a cebola não consegue reproduzir.

 

O Alho-Poró no Brasil — Da Culinária de Imigrantes ao Ingrediente Gourmet

O Alho-Poró chegou ao Brasil principalmente com os imigrantes europeus — italianos, franceses e alemães — que trouxeram seus hábitos culinários no século XIX e início do XX. Adaptou-se bem ao clima do Sul e do Sudeste brasileiro — onde o inverno mais frio favorece o desenvolvimento do falso caule branco e suculento. É cultivado principalmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. No mercado brasileiro, o Alho-Poró era ingrediente relativamente raro até os anos 1990 — quando a expansão da culinária francesa e italiana em restaurantes brasileiros popularizou seu uso. Hoje está presente em supermercados de todo o país e é ingrediente cada vez mais comum em risotos, quiches, sopas, gratins e refogados. A parte branca é a mais valorizada — mais suave e delicada. A parte verde pode ser usada em caldos e sopas. Da saudade que os hebreus sentiam do Egito ao elmo dos guerreiros galeses que venceram os saxões — o Alho-Poró percorreu 4.000 anos sendo simultaneamente alimento de faraós, protetor da voz de Nero, símbolo nacional de um país e ingrediente da sopa mais elegante do século XX. Quer explorar mais sobre os vegetais que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

 

Artigos Relacionados