Caroço — Muitas Frutas com o Mesmo Nome
A palavra Ameixa reúne frutas bem diferentes. Há as roxas de polpa amarela, as vermelhas, as verdes e as pretas, umas doces, outras azedas, comidas frescas, secas, em compota ou transformadas em aguardente. O que elas têm em comum é o caroço duro e o parentesco dentro do gênero Prunus.
Essa família de frutas nasceu entre a Europa Oriental, o Cáucaso e a China e viajou com monges, agricultores e imigrantes. No Oriente, uma parente de nome parecido floresce em pleno inverno e virou símbolo nacional. No Ocidente, a ameixa seca ganhou fama graças a um viveirista francês na Califórnia.
Esta é a história das ameixas, sobretudo da Prunus domestica e da Prunus salicina, frutas com origem ainda discutida, que aparecem em sítios do Neolítico, que viraram umeboshi no Japão, ameixa seca na Califórnia e aguardente na Romênia e que, no Brasil, quase desapareceram por causa de uma doença.
Hexaploide — Uma Origem Ainda em Debate
As ameixas cultivadas pertencem ao gênero Prunus, o mesmo da cereja, do pêssego e da amêndoa. As 2 espécies de maior importância comercial são a ameixa-europeia, Prunus domestica, e a ameixa-japonesa, Prunus salicina, que apesar do nome é de origem chinesa. Há ainda outras espécies, como a Prunus cerasifera e o abrunheiro, Prunus spinosa.
A ameixa-europeia é hexaploide, ou seja, tem 6 conjuntos de cromossomos, enquanto a japonesa é diploide, com 2. Por muito tempo, achou-se que a europeia vinha de um cruzamento entre a Prunus spinosa e a Prunus cerasifera. Estudos mais recentes apontam a Prunus cerasifera como o único ancestral selvagem, a partir de formas com diferentes números de cromossomos.
As ameixas estão provavelmente entre as primeiras frutas domesticadas, com origens na Europa Oriental, no Cáucaso e na China. Restos de ameixas aparecem em sítios do Neolítico, ao lado de azeitonas, uvas e figos. Há também quem aponte o Irã como possível berço. A origem exata, portanto, ainda divide os pesquisadores.
Mosteiro — Monges, Rainhas e Viveiristas
Na Idade Média, as ameixas se espalharam pela Europa. No século 12, o agrônomo Ibn al-Awwam descreveu seu cultivo na Andaluzia, então sob domínio muçulmano. Nos mosteiros ingleses, os monges cultivavam ameixeiras, e o poeta Geoffrey Chaucer menciona a fruta em seus versos.
Com o tempo, surgiram variedades com nome e endereço. Nos séculos 17 e 18, a rainha-cláudia, de casca verde, ganhou seu nome em inglês, greengage, e a mirabela se firmou na França. No século 19, o viveirista inglês Thomas Rivers criou variedades como Early Rivers e Czar, e a Victoria, vendida a partir de 1844, ficou famosa sobretudo pelo marketing.
O caroço pede um cuidado. A amêndoa de dentro do caroço contém amigdalina, um glicosídeo cianogênico, substância que pode liberar cianeto. Por isso, o caroço não deve ser quebrado e comido. Mesmo assim, as amêndoas são prensadas para fazer óleo, e a madeira da ameixeira é usada por marceneiros amadores.
Escaldadura — A Ameixa que Quase Sumiu do Brasil
A ameixeira precisa de frio para florescer bem. A floração começa depois de certo acúmulo de calor na primavera, e em um bom ano cerca de 50% das flores são polinizadas e viram frutos. Tempo seco pode fazer os frutinhos caírem ainda pequenos, e a umidade fora de época favorece a podridão-parda.
No Brasil, as variedades precisam se adaptar a invernos amenos. Segundo a Embrapa, a Santa Rosa e a Satsuma pedem cerca de 500 a 600 horas de frio abaixo de 7,2 °C por ano, enquanto outras, como a Pluma 7 e a Amarelinha, precisam de menos de 300. A ameixa-japonesa domina o cultivo comercial no país, que se concentra no Sul, em São Paulo e no sul de Minas Gerais.
Nos anos 1970, a escaldadura das folhas, causada pela bactéria Xylella fastidiosa, quase acabou com os pomares do sul do Rio Grande do Sul ao Paraná. Plantas de Santa Rosa morriam em 2 a 3 anos. A recuperação veio com mudas livres da doença, obtidas em laboratório, e com novas variedades, como a Letícia e a Irati, lançada em 1991.
Mei — A Flor que Desabrocha no Inverno
No Oriente, uma parente de nome parecido tem outra história. A Prunus mume, chamada de mei na China e de ume no Japão, é nativa do sul da China, na região do rio Yangtzé. Apesar de ser conhecida como ameixa-japonesa ou ameixa-chinesa, ela é classificada entre os damascos.
Suas flores perfumadas, brancas, rosadas ou vermelhas, abrem em pleno inverno, entre janeiro e fevereiro no leste da Ásia. Por isso, simbolizam resistência, perseverança e esperança. A flor é uma das 3 Amigas do Inverno, ao lado do pinheiro e do bambu, e um dos 4 Cavalheiros da arte chinesa.
Em 21 de julho de 1964, o governo da República da China, em Taiwan, declarou a flor de mei sua flor nacional. No Japão, o Man’yōshū, antologia de poesia do fim do século 7, reúne 120 poemas sobre o ume. E as chuvas de junho e julho, quando os frutos amadurecem, são chamadas no leste da Ásia de chuvas da ameixa.
Umeboshi — Sal, Sol e Shissô
O ume chegou ao Japão nos períodos Asuka e Nara, levado por enviados que voltavam da China. A partir do período Heian, entre 794 e 1185, a fruta processada passou a ser consumida por suas qualidades nutritivas. Na era Kamakura, entre 1185 e 1333, o umeboshi já estava na mesa dos samurais.
No período dos Estados Combatentes, entre 1467 e 1568, os umeboshi eram levados aos campos de batalha. Só no período Edo, entre 1603 e 1868, se popularizaram entre o povo. Hoje, a província de Wakayama produz cerca de 60% do ume do Japão, e a variedade Nankō é uma das mais conhecidas.
O preparo segue o ritmo das estações. Os frutos são colhidos em junho, curados no sal por 1 mês e secos ao sol por 3 ou 4 dias depois da estação das chuvas. O método tradicional deixa cerca de 20% de sal, o que ajuda a conservar o alimento. Folhas roxas de shissô dão cor a uma das versões, e os frutos verdes também viram umeshu, licor feito com shōchū.
Pellier — Da Ameixa Seca à Aguardente
A ameixa seca começou no oeste da Ásia antiga e depois chegou à Europa. Na Califórnia, a história ganhou um nome. Em 1850, o francês Louis Pellier, vindo da região de Agen, famosa por suas ameixas secas, fundou com o irmão Pierre um viveiro perto de San José. Os primeiros pomares ocuparam o Vale de Santa Clara, e em 1960 a produção já tinha se mudado para o Vale do Sacramento.
Na mesma Califórnia, o melhorista Luther Burbank criou 113 variedades de ameixas e ameixas secas, entre elas a Santa Rosa, até hoje cultivada no Brasil. Por volta da virada do século 21, a indústria americana rebatizou as ameixas secas de dried plums, mas voltou ao nome prunes em 2019.
Em 2023, o mundo produziu cerca de 12,5 milhões de toneladas de ameixas, e a China respondeu por cerca de 55%. Romênia, Chile e Sérvia vieram em seguida. Na Romênia, cerca de 80% da produção vira țuică, uma aguardente de ameixa, parente do slivovitz dos Bálcãs e da pálinka húngara.
Compota — Uma Fruta de Muitos Caminhos
As ameixas são frutas antigas, com origem ainda discutida entre a Europa Oriental, o Cáucaso, o Irã e a China. Passaram por mosteiros, jardins de reis e viveiros de imigrantes até chegarem às feiras de quase todo o mundo.
No Oriente, uma parente floresceu no inverno e virou flor nacional e umeboshi. No Ocidente, virou ameixa seca na Califórnia e aguardente nos Bálcãs. No Brasil, as ameixas japonesas resistiram a uma doença que quase destruiu os pomares e seguem crescendo no Sul e no Sudeste. Em cada caroço, há milênios de seleção feita por agricultores, monges e pesquisadores.
Quer explorar mais sobre as plantas que moldaram civilizações? Conheça A História das Plantas!

