Capim — A Gramínea que Virou Floresta
O Bambu parece uma árvore, mas é uma gramínea, parente do Arroz, do Trigo e do Milho. Seus colmos ocos, divididos em nós, podem passar de 30 metros de altura e crescem numa velocidade que impressiona até botânicos. Em poucos meses, um broto vira um caule do tamanho de um prédio. E, quando floresce, muitas vezes todas as plantas da mesma espécie florescem juntas, depois de décadas de espera.
Essa planta acompanhou a humanidade de muitas formas. Virou casa, andaime, flauta, papel, comida e até filamento de lâmpada. Na China, também virou símbolo de caráter, pintado por artistas há séculos.
Esta é a história dos bambus, a subfamília Bambusoideae, plantas que florescem em intervalos de décadas, já provocaram fome na Índia, ajudaram Thomas Edison a vender suas lâmpadas e têm no Brasil uma das maiores diversidades de espécies nativas das Américas.
Colmo — O Capim Gigante Sem Anéis de Crescimento
Os bambus formam a subfamília Bambusoideae, dentro da família das Poáceas, a mesma dos capins e dos cereais. São mais de 1.400 espécies em cerca de 115 gêneros, distribuídas por regiões tropicais e temperadas da Ásia, da África, da Oceania e das Américas.
Diferente das árvores, o Bambu não tem câmbio, a camada que faz o tronco engrossar ano após ano e forma os anéis de crescimento. Seus feixes de vasos ficam espalhados pela parede do colmo. Por isso, o diâmetro do broto que nasce do chão é praticamente o mesmo que o caule terá quando adulto.
O crescimento é rápido. Algumas espécies crescem até 91 centímetros em 24 horas, cerca de 1 milímetro a cada 90 segundos, segundo o Guinness. O Bambu-gigante-japonês, Phyllostachys bambusoides, já foi observado crescendo 120 centímetros em um único dia. O Dendrocalamus sinicus tem colmos que chegam a 46 metros de comprimento e 36 centímetros de diâmetro.
Tiras — Os Livros de Bambu da China
Na China, o Bambu foi um dos primeiros suportes da escrita. Os textos eram escritos em tiras finas de Bambu, amarradas umas às outras com cordões, formando rolos que podiam ser enrolados e guardados. As tiras mais antigas que sobreviveram são do século 5 antes da era comum, no período dos Reinos Combatentes.
No início da dinastia Han, as tiras de Bambu eram o material padrão para livros e documentos. Só foram abandonadas por volta do século 4, quando o papel se espalhou. Muitos textos clássicos chineses circularam primeiro nesse formato.
O Bambu também virou estrutura de construção. Em Hong Kong, andaimes de Bambu amarrados à mão ainda sobem pelas fachadas de arranha-céus. Na China continental, o governo proibiu o uso desses andaimes em prédios com mais de 6 andares. A combinação de leveza, resistência e flexibilidade fez do Bambu um material de obra em várias regiões da Ásia e das Américas.
Fibras — Resistência, Brotos e Pandas
A resistência do Bambu vem de suas fibras compridas, distribuídas ao longo do colmo. Testes com o Bambusa tulda mostraram resistência à tração de até 400 megapascais. Em geral, o Bambu tem resistência comparável à das madeiras duras e macias mais fortes, o que explica seu uso em casas, pontes, pisos e móveis.
Os brotos jovens de muitas espécies também são comestíveis. Mas eles contêm taxifilina, uma substância que libera cianeto. Por isso, precisam ser descascados e cozidos por pelo menos 20 minutos, trocando a água, antes de ir à mesa. Na Ásia, entram em sopas, refogados e conservas.
Alguns animais dependem quase totalmente da planta. O Panda-gigante, na China, se alimenta sobretudo de brotos, caules e folhas de Bambu. O Panda-vermelho, no Nepal, e os lêmures-do-bambu, em Madagascar, também têm o Bambu como base da dieta. Para esses animais, a saúde das florestas de Bambu é questão de sobrevivência.
Cavalheiro — O Bambu na Pintura Chinesa
Na tradição chinesa, o Bambu virou um exemplo moral. Seu caule reto representa a pessoa sábia, que pode ser dobrada pelas dificuldades, mas não se quebra. O interior oco simboliza a mente limpa e aberta, pronta para receber boas ideias.
Por isso, pintar Bambu se tornou uma forma de cultivar o caráter. O Bambu faz parte dos Três Amigos do Inverno, ao lado do Pinheiro e da flor de Ameixeira. O Pinheiro e o Bambu não murcham no inverno, e a Ameixeira floresce no frio. Juntos, representam firmeza diante das adversidades.
O pintor Wen Tong ficou famoso por seus bambus, e dele vem uma expressão chinesa que diz que ele tinha bambus inteiros no coração, ou seja, já via a obra pronta antes de pintar. Livros de pintura como o Manual do Estúdio dos Dez Bambus, de 1633, e o Manual do Jardim da Semente de Mostarda, com sua seção de bambus publicada em 1701, ensinaram gerações de artistas.
Mautam — A Flor que Traz a Fome
Muitos bambus passam décadas sem florescer. Algumas espécies florescem a cada 65 ou 120 anos, e o Phyllostachys bambusoides tem o intervalo mais longo conhecido, de 120 anos. Quando florescem, muitas vezes todas as plantas da mesma espécie florescem ao mesmo tempo e depois morrem.
No nordeste da Índia e em Mianmar, o Melocanna baccifera floresce a cada 48 a 50 anos, num fenômeno chamado mautam. A floração produz uma enorme quantidade de sementes, e os ratos se multiplicam com tanta comida. Quando as sementes acabam, os ratos invadem as aldeias e devoram os grãos guardados, provocando fome.
Em dezembro de 1958, um mautam provocou fome no estado de Mizoram. Um grupo criado para ajudar as vítimas, a Frente Nacional Mizo da Fome, mais tarde virou a Frente Nacional Mizo, que liderou uma grande revolta em 1966. O fenômeno voltou entre 2007 e 2008. Por isso, na região, a floração do Bambu é vista há gerações como sinal de tempos difíceis.
Filamento — De Kyoto às Florestas do Acre
Em 1880, um pesquisador de Thomas Edison encontrou, nos bosques em volta do santuário Iwashimizu Hachimangu, em Yawata, perto de Kyoto, no Japão, um Bambu de fibras fortes e flexíveis. Transformado em filamento, ele manteve uma lâmpada acesa por mais de 1.200 horas seguidas. Lâmpadas com esse Bambu foram fabricadas de cerca de 1881 até 1894, e hoje um monumento a Edison fica perto do santuário.
O Brasil tem uma relação própria com o Bambu. O país tem cerca de 256 espécies e variedades nativas, em 34 gêneros, e 68,8% delas só existem aqui. É o país das Américas com o maior número de espécies nativas e endêmicas. As maiores concentrações estão na Mata Atlântica e na Amazônia.
No Acre, florestas nativas abrigam mais de 4,6 milhões de hectares com 2 espécies de Bambu. Em 2011, a Lei 12.484 criou a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu, para estimular o uso da planta na economia brasileira. A ideia é aproveitar espécies nativas e cultivadas em construções, móveis, artesanato e recuperação de áreas degradadas.
Nó — Uma Planta que Cresce de Uma Vez
O Bambu é uma gramínea que virou floresta. Cresce em uma velocidade impressionante, não engorda com os anos e pode passar mais de um século sem florescer. Na China, guardou livros antigos e virou símbolo de caráter. Na Índia, sua floração já trouxe ratos e fome.
Também iluminou lâmpadas de Edison por mais de uma década e cobre milhões de hectares nas florestas do Acre. No Brasil, terra de centenas de espécies nativas, o Bambu ainda tem muito a mostrar, como material de construção, alimento e símbolo de uma planta que se dobra sem quebrar. Cada nó do colmo marca uma etapa desse crescimento rápido, que parece não ter fim.
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Fontes
- Bamboo (Wikipedia)
- Mautam (Wikipedia)
- Bamboo painting (Wikipedia)
- Thomas Edison: The Incandescent Light Bulb and Japanese Bamboo (Governo do Japão, Highlighting Japan)
- A diversidade dos bambus no Brasil (Associação Catarinense do Bambu)
- Artigo: Bambu nativo busca escala com lições da Ásia (Embrapa)
- Lei nº 12.484, de 8 de setembro de 2011 (Planalto)

