Uma Árvore que Não É Árvore
A bananeira parece uma árvore, mas é uma erva gigante. O que parece um tronco é um pseudocaule, formado por bainhas de folhas enroladas umas sobre as outras. Depois de dar o seu cacho, esse caule morre, e novos brotos nascem da base.
A fruta também engana. A Banana que comemos não tem sementes viáveis, e as bananeiras são multiplicadas há milênios por mudas. Quase todas as Bananas de exportação do mundo são clones de uma única variedade.
Da Nova Guiné à Índia, da África às plantações da América Central, a Banana viajou com os humanos, virou símbolo religioso, deu nome a regimes políticos e hoje enfrenta um fungo que pode mudar o que chega às feiras. Esta é a história da fruta mais comum das fruteiras.
Musa — Duas Espécies Selvagens com Sementes Duras
A bananeira pertence ao gênero Musa, da família Musaceae. As Bananas cultivadas descendem principalmente de 2 espécies selvagens do Sudeste Asiático: a Musa acuminata e a Musa balbisiana. As 2 têm frutos cheios de sementes duras, quase sem polpa.
Ao longo de milhares de anos, os agricultores selecionaram plantas com mais polpa e menos sementes. Muitas das Bananas atuais são triploides: têm 3 conjuntos de cromossomos, o que as torna estéreis e sem sementes.
Em 1753, Lineu batizou a Banana de Musa paradisiaca, numa referência ao fruto proibido do paraíso. Antes disso, em 1736, ele tinha estudado a primeira bananeira a florescer na Europa, numa estufa na Holanda.
De Kuk à Índia, à África e às Américas
Os indícios mais antigos de cultivo de Banana vêm do pântano de Kuk, nas terras altas da Nova Guiné. Ali, restos microscópicos de plantas, os fitólitos, mostram que agricultores cultivavam bananeiras há cerca de 7 mil anos.
Da Nova Guiné e do Sudeste Asiático, a Banana chegou à Índia, onde se criaram muitas variedades, e depois à África, levada por rotas do Oceano Índico. No século 1, Plínio, o Velho, falou de uma árvore da Índia cujos frutos alimentavam os sábios, história que inspirou o nome Musa sapientum, a Banana dos sábios.
Depois do século 15, a Banana atravessou o Atlântico e se espalhou pelas Américas. No século 20, virou uma das frutas mais comercializadas do mundo.
Potássio, Amido e uma Fruta Levemente Radioativa
A Banana é rica em potássio, carboidratos, vitamina B6 e fibras. Quando verde, tem muito amido resistente, que se transforma em açúcar à medida que ela amadurece. Por isso a Banana madura é mais doce e mais macia.
O amadurecimento é regulado pelo etileno, um gás que a própria fruta produz. Uma Banana madura dentro de um saco fechado acelera o amadurecimento de outras frutas.
Por causa do potássio, a Banana tem uma pequena quantidade natural de potássio-40, um isótopo radioativo. É tão pouco que os físicos usam a “dose equivalente de uma Banana” como forma bem-humorada de explicar que pequenas doses de radiação fazem parte do dia a dia.
A Noiva de Durga e o Fruto do Paraíso
Na Índia, a bananeira é planta sagrada. No festival bengali de Durga Puja, uma bananeira enfeitada com um sári, a Kola Bou, é banhada no rio e colocada junto à imagem da deusa. As folhas de bananeira servem de prato em festas e cerimônias, e a planta aparece em casamentos como símbolo de fertilidade e prosperidade.
Na Europa, a Banana chegou tão cercada de exotismo que foi associada ao paraíso. Alguns autores medievais chegaram a sugerir que ela, e não a Maçã, seria o fruto proibido do Éden, ideia que inspirou o nome dado por Lineu.
Em muitas culturas tropicais, o coração da bananeira, a flor roxa na ponta do cacho, é comido e usado em rituais.
A Gros Michel e a Ameaça à Cavendish
Até os anos 1950, a Banana mais exportada do mundo era a Gros Michel, de sabor forte. Uma doença causada por um fungo, o mal-do-Panamá, destruiu as plantações da América Central e do Caribe, e a indústria trocou de variedade.
A substituta foi a Cavendish, batizada em homenagem ao 6º Duque de Devonshire, William Cavendish. Por volta de 1834, seu jardineiro, Joseph Paxton, cultivou na estufa de Chatsworth, na Inglaterra, bananeiras recebidas das Ilhas Maurício. A Cavendish responde por quase toda a exportação mundial de Banana.
Por serem clones, as Cavendish têm pouca defesa contra doenças. Uma nova raça do fungo, a Raça Tropical 4, chegou ao Caribe em 2019 e ameaça repetir o que aconteceu com a Gros Michel.
Repúblicas das Bananas, Carmen Miranda e a Prata
Em 1904, o escritor americano O. Henry usou pela primeira vez a expressão república das bananas, inspirado em Honduras. O termo passou a descrever países dominados por empresas estrangeiras de frutas. Em 1928, uma greve nas plantações da United Fruit Company em Ciénaga, na Colômbia, terminou num massacre de trabalhadores, episódio que Gabriel García Márquez retratou em Cem Anos de Solidão.
A brasileira Carmen Miranda fez da Banana um símbolo tropical em Hollywood, com seus chapéus de frutas. No filme Entre a Loura e a Morena, de 1943, dançou cercada de Bananas gigantes.
No Brasil, a Banana é uma das frutas mais consumidas, nas variedades Prata, Nanica, Maçã, Ouro e da Terra. O país está entre os maiores produtores do mundo, e quase toda a produção é consumida internamente.
A Fruta que Vive de Clones
A Banana saiu dos pântanos da Nova Guiné, perdeu as sementes, virou fruto do paraíso para Lineu, noiva de deusa na Índia e símbolo de exploração na América Central. Hoje, está em todas as fruteiras do mundo.
Sua força e sua fraqueza são a mesma: por viver de clones, a Banana é uniforme, prática e barata, mas vulnerável. O futuro da fruta depende de voltar a buscar diversidade nas bananeiras selvagens e nas variedades tradicionais.
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