Botânica: da Erva de Teofrasto ao DNA, a Ciência que Aprendeu a Ler as Plantas

Do jardim de Teofrasto aos nomes de Lineu, das ervilhas de Mendel à Flora Brasiliensis, a história da botânica ainda está sendo escrita, com milhares de espécies por descobrir

 

Olhar — A Ciência que Aprendeu a Ler as Plantas

Muito antes de existir a palavra botânica, as pessoas já observavam as plantas com atenção. Era preciso saber qual folha alimentava, qual raiz curava e qual fruto fazia mal. Esse conhecimento prático, passado de geração em geração, foi a semente de uma ciência inteira.

Com o tempo, a observação virou método. Filósofos gregos descreveram plantas em livros, médicos prensaram folhas em papel, jardins foram criados dentro das universidades e um sueco deu nomes em latim a milhares de espécies. Depois vieram o microscópio, as ervilhas de um monge e a leitura do DNA.

Esta é a história da botânica, a ciência que estuda a vida das plantas, que nasceu nos jardins da Grécia antiga, que ganhou uma língua comum no século 18, que encontrou no Brasil um de seus grandes campos de trabalho e que ainda tem milhares de espécies para descobrir.

 

Botanē — Uma Palavra que Vem do Pasto

A palavra botânica vem do grego antigo botanē, que significa pasto, erva, capim ou forragem. Ela deriva de boskein, que quer dizer alimentar ou pastar. Na origem, portanto, a ciência das plantas tem nome de comida para animais, um lembrete de como o interesse humano pelas plantas começou pelo uso.

Os primeiros registros escritos sobre plantas são bem anteriores aos gregos. Há textos da Índia antiga com conhecimento botânico de antes de 1100 antes da era comum, além de fontes do antigo Egito, escritos persas antigos e obras chinesas que seriam anteriores a 221 antes da era comum.

Esses textos reuniam sobretudo usos práticos, como alimentação, cultivo e remédios. Eles mostram que diferentes povos, em lugares distantes, criaram suas próprias formas de organizar o mundo vegetal. A botânica como disciplina de observação e explicação, porém, ganhou forma mais tarde, na Atenas do século 4 antes da era comum, com um aluno de Aristóteles.

 

Teofrasto fundou a botânica há 2.300 anos no jardim do Liceu de Atenas — abastecido com espécimes coletados nas campanhas de Alexandre, o Grande, tornando-se o primeiro jardim botânico científico da história

 

Teofrasto — O Orador Divino do Liceu

Teofrasto nasceu por volta de 371 antes da era comum em Eresos, na ilha de Lesbos. Seu nome de batismo era Tirtamo. O apelido Teofrasto, que significa orador divino, teria sido dado pelo próprio Aristóteles, por causa do seu jeito elegante de falar.

Ele foi colega próximo de Aristóteles e se tornou seu sucessor à frente do Liceu, a escola peripatética de Atenas, que dirigiu por cerca de 35 anos. Aristóteles deixou para ele sua biblioteca. Teofrasto escreveu 2 grandes obras sobre plantas. A Investigação sobre as Plantas tinha 10 livros, dos quais 9 sobreviveram, e As Causas das Plantas tinha 8, dos quais restam 6.

Na primeira, ele classificou as plantas pela forma de reprodução, pelo lugar onde vivem, pelo tamanho e pelo uso. Na segunda, tratou do crescimento e do cultivo. Por essas obras, costuma ser chamado de pai da botânica. Em testamento, deixou para a escola seu jardim, uma casa e colunatas, como lugar permanente de estudo.

 

Herbário — Folhas Prensadas e Jardins nas Universidades

Depois de Teofrasto, outro grego teve enorme influência. No século 1 da era comum, o médico Dioscórides escreveu De materia medica, uma obra em 5 volumes sobre plantas e seus usos. O livro foi lido por mais de 1.500 anos. Durante séculos, estudar plantas significou, em boa parte, ler e comentar os autores antigos.

Essa relação mudou no Renascimento. O médico e botânico Luca Ghini, de Bolonha, que viveu de 1490 a 1556, voltou a estudar plantas vivas. Com seus alunos, ele prensava plantas frescas entre folhas de papel e colava os exemplares secos em livros. O herbário dele se perdeu, e o mais antigo que existe hoje é o de Gherardo Cibo, de cerca de 1532.

Os jardins também mudaram de função. Em 1544, Cosimo I de Médici criou em Pisa, sob os cuidados de Ghini, o primeiro jardim botânico universitário da Europa. O de Pádua, de 1545, é considerado o mais antigo que continua no local original. Na Inglaterra, o primeiro foi o da Universidade de Oxford, em 1621.

 

O Jardim Botânico do Rio de Janeiro foi fundado por Dom João VI em 1808 para aclimatar plantas de interesse econômico — e hoje é um dos mais importantes centros de pesquisa botânica da América Latina

 

Lineu — Dois Nomes para Cada Planta

Até o século 18, muitas plantas eram identificadas por longas frases descritivas em latim. Cada autor podia usar a sua, e a mesma espécie aparecia com nomes diferentes em livros diferentes. Isso dificultava a comunicação entre botânicos de países distintos.

Em 1º de maio de 1753, o naturalista sueco Carl Linnaeus, conhecido no Brasil como Lineu, publicou em Estocolmo a obra Species Plantarum, em 2 volumes. A primeira edição lista 5.940 nomes de plantas, organizados em cerca de mil gêneros e agrupados em 24 classes. Foi o primeiro trabalho a usar de forma consistente um nome de 2 partes para um grande grupo de plantas.

Nesse sistema, cada espécie recebe o nome do gênero e um segundo nome, o epíteto. Uma tanchagem antes descrita por uma frase longa virou simplesmente Plantago media. Por isso, o livro é o ponto de partida da maior parte dos nomes científicos de plantas. Já o sistema de classes de Lineu, baseado na contagem de estames e estigmas, era artificial, como ele mesmo reconhecia, mas era fácil de usar.

 

Ervilha — Células, Herança e DNA

A botânica também ajudou a revelar estruturas invisíveis a olho nu. Em 1665, o inglês Robert Hooke usou um microscópio primitivo para observar pedaços de cortiça e, pouco depois, tecidos vegetais vivos. Foi ele quem criou o termo célula, hoje usado em toda a biologia.

Outro avanço veio de um jardim de mosteiro. Entre 1856 e 1863, o monge Gregor Mendel cultivou e testou cerca de 28 mil plantas, a maioria ervilhas, em Brno, na atual República Tcheca. Ele apresentou seus resultados em 1865 e publicou o trabalho em 1866. O estudo foi quase ignorado por 35 anos, até ser redescoberto em 1900 por Hugo de Vries e Carl Correns.

No fim do século 20, o DNA passou a reorganizar a botânica. Em 1998, o Grupo de Filogenia das Angiospermas publicou uma classificação das plantas com flores baseada em sequências genéticas. Em 2000, a Arabidopsis thaliana, uma pequena planta da família da mostarda, teve o primeiro genoma vegetal sequenciado, com cerca de 135 milhões de pares de bases.

 

Estima-se que 2.000 novas espécies de plantas sejam descobertas e descritas por ano — numa corrida silenciosa contra o desmatamento que ameaça extinguir espécies antes que a ciência sequer saiba que existem

 

Flora — O Brasil nos Livros de Botânica

No Brasil, a botânica ganhou uma casa em 1808. Em 13 de junho daquele ano, o príncipe regente D. João assinou o decreto que deu origem ao Jardim Botânico do Rio de Janeiro, criado para aclimatar especiarias das Índias Orientais, como noz-moscada, canela e pimenta-do-reino. Hoje, ele guarda cerca de 6.500 espécies e um herbário com mais de 600 mil exemplares.

Pouco depois, entre 1817 e 1820, os bávaros Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptist von Spix percorreram cerca de 10 mil quilômetros pelo país. Martius levou para a Europa de 25 mil a 30 mil exemplares, de cerca de 7.300 espécies. A partir de 1840, ele começou a Flora Brasiliensis, concluída só em 1906, muito depois de sua morte.

A obra tem 15 volumes, 40 partes e mais de 10 mil páginas, com o tratamento de 22.767 espécies, das quais 5.689 eram novas para a ciência. Mais de 1 século depois, o projeto Flora do Brasil 2020, coordenado pelo Jardim Botânico do Rio, reuniu quase mil cientistas e registrou cerca de 46,9 mil espécies nativas de plantas, algas e fungos, das quais 55% só existem no Brasil.

 

Descoberta — Uma Ciência Ainda em Aberto

A botânica começou com a pergunta mais simples, sobre o que se pode comer, e virou uma ciência que lê células e genomas. Passou pelo jardim de Teofrasto, pelas folhas prensadas de Ghini, pelos nomes de Lineu e pelas ervilhas de Mendel.

O trabalho está longe de terminar. Segundo o Jardim Botânico de Kew, são conhecidas cerca de 350 mil espécies de plantas vasculares, e ainda podem faltar até 100 mil por descrever. Cerca de 2.500 novas espécies de plantas recebem nome a cada ano. A estimativa do mesmo relatório é que 3 em cada 4 dessas plantas ainda sem nome já estejam ameaçadas de extinção. Para a botânica, descobrir também virou uma corrida contra o tempo.

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