Um Fruto de Cabeça para Baixo
Quem morde um Caju não está comendo o fruto. A parte suculenta, amarela ou vermelha, é o pedúnculo, a haste que sustentava a flor e engordou. O fruto verdadeiro é a castanha, pendurada do lado de fora, protegida por uma casca cheia de óleo cáustico.
Essa anatomia estranha tem uma história à altura. O Caju serviu de calendário para povos indígenas e ganhou a proteção de Maurício de Nassau. Deu origem a bebidas sagradas e a uma música de Caetano Veloso. No Rio Grande do Norte, um único Cajueiro cobre uma área maior que um campo de futebol.
Esta é a história do fruto que o Brasil deu ao mundo pela metade.
Anacardium occidentale — A Noz que Se Produz
O Cajueiro, Anacardium occidentale, pertence à família Anacardiaceae, a mesma da Manga, do Pistache e da Aroeira. O nome do gênero junta 2 palavras gregas, ana, para cima, e kardia, coração, uma referência possível ao formato da castanha.
Ele é nativo da América do Sul tropical, com presença forte nas restingas e dunas do litoral nordestino. A palavra Caju vem do tupi akaîu, traduzida como noz que se produz. A tradição oral conta que os indígenas contavam a idade pelas floradas e safras do Cajueiro, e que o mesmo termo servia para dizer ano.
Em 1558, o frade francês André Thevet fez a primeira descrição escrita do Caju e comparou o fruto a um ovo de pata.
De Nassau a Goa — A Castanha Atravessa o Mundo
No século 17, durante o domínio holandês no Nordeste, Maurício de Nassau protegeu os Cajueiros por decreto e levou doces de Caju às cortes europeias. A castanha já era exportada do Brasil desde a década de 1550.
Entre 1560 e 1565, o Cajueiro chegou a Goa, na Índia, e de lá se espalhou pelo Sudeste Asiático e pela África. Em Goa, o pedúnculo fermentado e destilado virou o feni, aguardente de 40% a 42% de álcool que é hoje símbolo daquele estado indiano.
A geografia da produção mudou por completo. Em 2024, a Costa do Marfim liderou a produção mundial de castanha, seguida pela Índia. O Brasil, que já esteve entre os 5 maiores produtores em 2011, caiu para a 8ª posição em 2018.
Vitamina C, Castanha e o Óleo da Casca
O pedúnculo do Caju é rico em vitamina C, com teor várias vezes maior que o da Laranja, e também traz ferro. A castanha fornece proteínas, minerais e vitaminas do complexo B, além de gorduras insaturadas.
A casca da castanha guarda um líquido escuro e viscoso, o LCC, líquido da casca da castanha. Ele é rico em ácido anacárdico, cardol e cardanol, compostos de uso industrial. O cardanol entra na fabricação de resinas, tintas, vernizes e lonas de freio, e é estudado como matéria-prima para plásticos e revestimentos de origem vegetal.
Assim, um único Caju rende suco, doce, castanha e insumo industrial, praticamente sem desperdício.
Mocororó e o Torém — A Bebida Sagrada dos Tremembé
Para os povos indígenas do Ceará, o Caju é alimento e também ritual. Os Tremembé, de Itarema, fermentam o suco do pedúnculo e produzem o mocororó, bebida que atravessou gerações como marca de identidade do povo.
O mocororó está ligado ao Torém, dança circular que é o principal ritual dos Tremembé. Nela, os participantes cantam, dançam e compartilham a bebida fermentada, que também aparece entre os Kanindé de Aratuba.
Antes da colonização, o período de safra do Caju reunia grupos indígenas no litoral, e a abundância do fruto marcava o calendário de festas e deslocamentos.
A Castanha Crua que Queima
A castanha de Caju nunca chega com casca ao consumidor, e há uma boa razão. O ácido anacárdico e o cardol da casca são parentes químicos do urushiol, a substância da hera venenosa, e provocam queimaduras e dermatites na pele de quem os manuseia sem proteção.
Por isso, antes de ser descascada, a castanha precisa ser torrada ou cozida no vapor, processo que neutraliza a maior parte desses compostos. Durante séculos, o trabalho de quebrar castanhas deixou marcas nas mãos de quem fazia esse ofício.
O pedúnculo tem o problema oposto: é frágil e começa a fermentar poucos dias depois da colheita. Por isso quase não é exportado fresco, e a maior parte do Caju do mundo é descartada no campo depois de retirada a castanha.
Cajuína, Caetano e o Cajueiro de Pirangi
No Piauí, o suco de Caju é clarificado e cozido até ganhar cor de âmbar. É a cajuína, cuja produção tradicional foi registrada como Patrimônio Cultural do Brasil pelo IPHAN em 2014. Em 1979, Caetano Veloso gravou “Cajuína”, canção nascida de um encontro em Teresina com o pai do poeta Torquato Neto.
Em Pirangi do Norte, no Rio Grande do Norte, fica o maior Cajueiro conhecido. Plantado em 1888 pelo pescador Luís Inácio de Oliveira, ele cobre cerca de 8.500 m². Uma anomalia genética faz seus galhos crescerem para os lados e criarem raízes ao tocar o chão, virando novos troncos. Em 1994, entrou para o Guinness.
O Ceará responde por cerca de 60% da produção brasileira de Caju.
O Fruto que o Brasil Deu ao Mundo
Poucos frutos brasileiros viajaram tanto. O Caju saiu das restingas nordestinas, virou calendário indígena e bebida sagrada, ganhou a proteção de Nassau e se enraizou em Goa, na Costa do Marfim e no Vietnã.
Hoje, a castanha circula pelo mundo inteiro, enquanto o pedúnculo, a parte que os brasileiros mais amam, quase não sai do lugar onde nasceu. Para prová-lo em cajuína, suco ou mocororó, ainda é preciso vir ao Nordeste.
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