Uma Árvore que Não Vive Sozinha
A Castanheira é um dos gigantes da Amazônia. Passa dos 40 m de altura, vive séculos e derruba no chão ouriços que pesam até 2 kg. Mesmo assim, não consegue se reproduzir sozinha.
Para dar frutos, ela precisa de abelhas grandes, e essas abelhas precisam de orquídeas. Para espalhar as sementes, precisa das cutias. E para continuar existindo, precisa de uma floresta inteira ao redor.
Por trás de cada castanha que chega ao supermercado há uma rede de relações que os cientistas ainda estão desvendando, e uma história econômica em que o Brasil perdeu a liderança para a Bolívia. Esta é a história da árvore que só funciona em equipe.
Bertholletia excelsa — A Gigante da Família da Sapucaia
A Castanheira, Bertholletia excelsa, pertence à família Lecythidaceae, a mesma da Sapucaia e do Jequitibá. É a única espécie do seu gênero. Foi descrita pelos naturalistas Humboldt e Bonpland, que viajaram pela América do Sul entre 1799 e 1804. O nome homenageia o químico francês Claude-Louis Berthollet, e excelsa significa elevada.
Ela ocorre na Amazônia do Brasil, da Bolívia, do Peru, da Colômbia, da Venezuela e das Guianas, em florestas de terra firme. Chega a 45 m de altura, com troncos de 1 a 2 m de diâmetro, e pode viver mais de 500 anos.
O fruto, o ouriço, leva cerca de 14 meses para amadurecer depois da floração. É uma cápsula lenhosa de 2 a 3 kg que guarda de 8 a 24 sementes, as castanhas.
Castanhais Plantados por Mãos Humanas
Os povos da Amazônia comem castanha há milhares de anos. Escavações na Caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, no Pará, encontraram restos de castanha entre os vestígios dos primeiros habitantes da região, com cerca de 11 mil anos.
Pesquisas genéticas sugerem que os povos indígenas também ajudaram a espalhar a árvore. A baixa diversidade genética entre castanhais distantes indica que as sementes viajaram com as pessoas, e muitos castanhais podem ser florestas cultivadas há séculos.
No século 20, a castanha virou produto de exportação e sustentou a economia de cidades como Marabá, no Pará. Durante décadas, o Brasil foi o maior exportador mundial.
Selênio e Rádio numa Semente
A castanha é uma das fontes naturais mais concentradas de selênio, um mineral antioxidante. A quantidade varia muito conforme o solo, mas 1 ou 2 castanhas podem cobrir a necessidade diária de um adulto. Comer muitas todos os dias pode levar ao excesso de selênio, que causa queda de cabelo, unhas frágeis e problemas digestivos.
A castanha também é rica em gorduras insaturadas, proteínas, magnésio e fósforo.
E guarda uma surpresa: ela é radioativa. Segundo as Universidades Associadas de Oak Ridge, a castanha tem níveis de rádio até 1.000 vezes maiores que os de outros alimentos. A causa é o enorme sistema de raízes da árvore, que absorve bário do solo e, junto com ele, o rádio, quimicamente parecido. A maior parte desse rádio não fica retida no corpo.
A Árvore que Ninguém Pode Derrubar
Para o seringueiro e ativista Chico Mendes, assassinado em 1988 no Acre, a Castanheira era prova de que a floresta em pé vale mais do que derrubada. A partir da sua luta surgiram as Reservas Extrativistas, onde famílias vivem da coleta de castanha e látex sem desmatar.
A Castanheira ganhou proteção especial por lei, e seu corte em florestas nativas é proibido no Brasil.
Nas áreas desmatadas da Amazônia, é comum ver Castanheiras gigantes isoladas no meio do pasto. Sem a floresta, sem as abelhas e sem as cutias, elas deixam de se reproduzir e acabam morrendo, e por isso viraram símbolo da floresta que falta.
A Abelha, a Orquídea e a Cutia
A flor da Castanheira tem uma espécie de capuz que só abelhas grandes e fortes conseguem levantar. Entre elas estão as abelhas-das-orquídeas, do grupo Euglossini. Os machos dessas abelhas coletam perfumes de orquídeas para atrair as fêmeas, e por isso as orquídeas da floresta também fazem parte da história.
Depois que o ouriço cai, só alguns animais conseguem abrir sua casca dura, e a cutia é o principal deles. Ela roe o ouriço, come parte das castanhas e enterra outras como reserva, às vezes a mais de 400 m de distância. As que ela esquece germinam.
Por isso os plantios de Castanheira produzem pouco. A Fazenda Aruanã, no Amazonas, plantou mais de 1 milhão de árvores desde 1970, um caso raro de cultivo em grande escala.
Um Fungo e a Virada da Bolívia
A castanha é tradição de Natal na Europa e nos Estados Unidos, em misturas de nozes e em panetones. No Brasil, é presente nos mercados de Belém e do Norte, e o nome oficial usado no comércio é castanha-do-brasil.
A liderança mundial mudou por causa de um fungo. Em 1998, a União Europeia reduziu o limite permitido de aflatoxina, uma toxina produzida por fungos, de 20 para 4 partes por bilhão. A Bolívia se organizou com testes e laboratórios comuns, e o Brasil não. Em 2019, a Bolívia respondia por 74% das exportações mundiais, e o Brasil por 11%.
Hoje, parte da castanha coletada no Brasil é vendida crua à Bolívia, que a processa e exporta por um preço muito maior.
A Floresta Inteira numa Castanha
A castanha que chega à mesa parece simples, mas depende de uma floresta inteira. Uma árvore de 500 anos, abelhas que buscam perfume em orquídeas, cutias que esquecem onde enterraram sementes e povos que espalharam castanhais há milhares de anos.
Por isso, a Castanha-do-Pará é também um argumento. Cada ouriço coletado no chão da floresta mostra que a Amazônia de pé pode alimentar, gerar renda e continuar viva.
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