Fruta-pão: A Árvore do Pacífico que Causou o Motim do Bounty

Selecionada por navegadores do Pacífico há 3 mil anos, a Fruta-pão foi fermentada em covas, virou lenda no Havaí, motivou o motim do Bounty e chegou ao Pará em 1801

 

Ulu — A Árvore que Dá Pão

Existe uma árvore cujo fruto, cozido ou assado, tem textura e cheiro que lembram pão fresco. Foi por isso que ela ganhou o nome de Fruta-pão. Em ilhas do Pacífico, uma única árvore pode alimentar uma família durante boa parte do ano.

Essa árvore foi selecionada por navegadores que cruzaram o oceano Pacífico em canoas, ganhou lendas no Havaí e foi o motivo de uma viagem marítima famosa: a do navio Bounty, que terminou num motim.

Esta é a história da Artocarpus altilis, parente da Jaca e do Figo, uma fruta que já foi enterrada para fermentar por anos, que atravessou oceanos em vasos e que hoje cresce em quintais do Norte e do Nordeste do Brasil.

 

Camansi — A Fruta que Perdeu as Sementes

A Fruta-pão descende de uma parente cheia de sementes, a Artocarpus camansi, nativa da Nova Guiné, das ilhas Molucas e das Filipinas. É da família das Moráceas, a mesma da Jaca, da Amora e do Figo. A árvore pode chegar a 26 metros de altura, com folhas grandes e recortadas.

Há cerca de 3 mil anos, durante a expansão dos povos austronésios pelo Pacífico, os navegadores levaram a planta de ilha em ilha. Ao longo de gerações, escolheram as árvores que davam frutos com menos sementes. Na Polinésia, surgiram variedades sem nenhuma semente, que só se multiplicam por brotos das raízes ou mudas.

Uma árvore pode produzir 200 frutos ou mais por safra. No Pacífico Sul, a média fica entre 50 e 150 frutos por ano, redondos ou ovais, com peso entre 250 gramas e 6 quilos. Por isso, em muitas ilhas, a Fruta-pão virou um dos alimentos centrais da dieta, ao lado do Inhame e do Taro, cultivados pelos mesmos navegadores.

 

A fruta-pão tem flores macho em longas espigas e flores fêmeas em cabeças redondas que viram o fruto — e as variedades cultivadas não têm sementes, só se multiplicam por brotos da raiz

 

Bounty — O Motim por Causa de uma Fruta

Em 1769, o naturalista inglês Joseph Banks viu a Fruta-pão no Taiti. Anos depois, donos de plantações no Caribe passaram a pedir a fruta como comida barata para as pessoas escravizadas que trabalhavam nas lavouras de cana. Banks apoiou a ideia, e a Marinha britânica organizou uma expedição.

O navio Bounty, comandado por William Bligh, saiu da Inglaterra em dezembro de 1787. No Taiti, a tripulação passou quase 5 meses e recolheu mais de mil mudas em vasos. Em 28 de abril de 1789, já no caminho de volta, o oficial Fletcher Christian liderou um motim. Bligh e 18 homens leais foram largados num bote e navegaram mais de 3.500 milhas náuticas até Timor.

Bligh voltou à Inglaterra e, entre 1791 e 1793, comandou uma segunda viagem, no navio Providence. Desta vez, as mudas chegaram a Santa Helena, a São Vicente e à Jamaica. Mas as pessoas escravizadas recusaram a fruta: sabiam que ela vinha de quem não se importava com elas.

 

Fermento — O Pão Guardado Debaixo da Terra

Nas ilhas do Pacífico, a safra de Fruta-pão chega em ondas, com muita fruta de uma vez e meses de escassez. Para atravessar esses períodos, os polinésios criaram uma técnica de conservação: a fermentação em buracos no chão.

Os frutos são descascados, lavados e colocados em covas forradas de folhas. Ali fermentam por semanas e viram uma pasta azeda e densa, chamada de masi, māhi ou mā, conforme a ilha. Há relatos de covas que tinham conteúdo comestível mais de 20 anos depois de enterradas, uma reserva de comida para tempos de seca, tempestade ou guerra. É o mesmo princípio de outros fermentados que conservam vegetais, como o chucrute e o kimchi.

Fresca, a fruta também é versátil. Verde, é cozida, assada ou frita como Batata e Mandioca. Madura, fica macia e adocicada e pode virar doces. Rica em amido, a Fruta-pão é estudada hoje como alternativa para segurança alimentar em regiões tropicais, porque uma árvore produz muito alimento ocupando pouco espaço e exigindo pouco cuidado depois de crescer.

 

Domesticada na Oceania, a fruta-pão foi levada de ilha em ilha nas canoas polinésias — como não dá semente, cada árvore do Pacífico foi plantada por mãos humanas

 

Kū — O Deus que Virou Árvore

No Havaí, a Fruta-pão se chama ʻulu e tem uma origem lendária. Segundo a tradição havaiana, ela nasceu do sacrifício do deus Kū. Numa das versões da história, numa época de fome, ele teria se enterrado para salvar a família, e do lugar onde desapareceu brotou uma árvore carregada de frutos.

A lenda resume o papel da árvore nas ilhas: alimento que surge para acabar com a fome. A Fruta-pão chegou ao Havaí levada por navegadores polinésios e se tornou símbolo de fartura. Em havaiano, a palavra ʻulu também aparece ligada à ideia de crescer e se multiplicar.

No Taiti e em outras ilhas, a árvore inteira era aproveitada. A madeira, leve, era usada em casas e canoas. O látex branco que escorre do tronco servia para vedar embarcações e até como cola para capturar pássaros. As fibras da casca interna eram batidas para fazer tecidos. Uma só planta dava comida, ferramenta, barco e roupa.

 

Caribe — Da Recusa à Mesa

No Caribe, a história da Fruta-pão mudou com o tempo. A recusa inicial das pessoas escravizadas mostra que comida também é questão de escolha, de memória e de dignidade, e não só de calorias. A fruta que chegou como comida imposta pelos donos das plantações acabou criando raízes na região. Com o tempo, a árvore se espalhou por quintais, roças e beiras de estrada, e a fruta passou a fazer parte da cozinha de vários países.

Hoje, São Vicente, Granada, Jamaica, Trinidad e Tobago e Martinica têm receitas tradicionais com Fruta-pão. Assada na brasa, frita, cozida em sopas ou servida com peixe salgado, ela virou parte da identidade caribenha. O que começou como projeto colonial ganhou outro significado nas mãos de quem a cozinhava.

No Pacífico, a Fruta-pão continua central. Organizações de pesquisa no Havaí mantêm coleções com dezenas de variedades vindas de diferentes ilhas, para preservar a diversidade genética selecionada ao longo de 3 mil anos. Mudas dessas variedades vêm sendo distribuídas para regiões tropicais que enfrentam falta de alimentos.

 

Assada ou cozida, a polpa da fruta-pão fica macia, com textura e sabor que lembram miolo de pão fresco — daí o nome que ela recebeu em várias línguas

 

Caiena — Como a Fruta-pão Chegou ao Pará

No Brasil, a Fruta-pão chegou pelo Norte. Em 1801, mudas vindas de Caiena, na Guiana Francesa, foram levadas ao Pará por iniciativa do governador Francisco de Souza Coutinho. Na época, a fruta estava cercada de expectativas: muitos governantes acreditavam que ela poderia acabar com a fome nas colônias.

Pouco depois, o ministro Rodrigo de Souza Coutinho, irmão do governador, recomendou que a planta fosse incluída num jardim botânico planejado para a Bahia. A árvore se espalhou pelo litoral e pelas áreas quentes do país, onde encontrou o clima úmido de que precisa.

Hoje, a Fruta-pão é comum em quintais e beiras de estrada no Norte e no Nordeste. Os brasileiros costumam distinguir 2 tipos: a fruta-pão de massa, sem sementes, comida cozida ou assada, e a de caroço, cujas sementes são cozidas e comidas como castanhas. No Nordeste, costuma ser cozida e comida com manteiga, como se fosse pão, no café da manhã ou no lanche da tarde.

 

Pão — Uma Árvore que Alimenta Ilhas

A Fruta-pão nasceu de uma parente cheia de sementes na Nova Guiné e foi transformada por navegadores do Pacífico em uma fruta sem sementes, capaz de alimentar ilhas inteiras. Foi enterrada para fermentar, ganhou um deus no Havaí e virou motivo de um motim no mar. É uma fruta cheia de histórias de fome, viagem e sobrevivência.

Do Caribe ao Pará, chegou cercada de promessas de acabar com a fome, foi recusada e depois adotada. Hoje, em quintais brasileiros, cada fruto verde cozido com manteiga carrega uma viagem de milhares de anos e milhares de quilômetros, das canoas do Pacífico aos navios ingleses e às estradas do Pará.

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