A Planta que Engana o Corpo
Quem mastiga uma folha de Hortelã sente um frescor que não existe. Nada esfriou na boca. O que acontece é que uma molécula da planta, o mentol, ativa os mesmos sensores que o corpo usa para detectar o frio.
Essa sensação simples ajudou a ciência a descobrir como sentimos temperatura, pesquisa que rendeu o Prêmio Nobel de Medicina de 2021. Mas a Hortelã já era famosa muito antes disso: está nos mitos gregos, no Evangelho, nas xícaras do Marrocos, no quibe e no mojito.
Esta é a história de uma erva que se espalha por qualquer canteiro, cruza com as vizinhas e engana os sentidos.
Mentha — Um Gênero de Híbridos
As hortelãs pertencem ao gênero Mentha, da família Lamiaceae, a mesma do Manjericão, do Alecrim e da Sálvia. São ervas perenes e aromáticas, nativas da Europa, da Ásia e da África, que se espalham por caules subterrâneos, os rizomas.
As espécies de Mentha cruzam entre si com muita facilidade, e por isso sua classificação é complicada. A Hortelã-pimenta, Mentha × piperita, é um híbrido natural entre a Hortelã-d’água, Mentha aquatica, e a Hortelã-verde, Mentha spicata. Ela é estéril e só se multiplica por pedaços de rizoma.
No Brasil, o nome Hortelã designa várias plantas do gênero. A mais comum nas hortas é a Hortelã-verde, ao lado de híbridos como a Hortelã-rasteira.
Do Dízimo do Evangelho às Xícaras do Marrocos
A Hortelã é usada no Mediterrâneo desde a Antiguidade. No Evangelho de Mateus, Jesus critica os fariseus que pagavam o dízimo da Hortelã, do endro e do cominho, mas esqueciam a justiça e a misericórdia. Gregos e romanos a usavam para perfumar ambientes, temperar alimentos e aliviar o estômago.
A Hortelã-pimenta só foi reconhecida como planta distinta no fim do século 17, na Inglaterra, e ganhou nome científico com Lineu em 1753. Ao longo dos séculos, a Hortelã se espalhou por jardins e cozinhas do mundo inteiro.
No Marrocos, o chá de Hortelã com chá verde e muito açúcar virou símbolo de hospitalidade. É servido em copos pequenos, derramado do alto para formar espuma.
Mentol, o Receptor do Frio e o Nobel
O mentol é o principal composto da Hortelã-pimenta e de outras espécies. Ele se liga a uma proteína das terminações nervosas chamada TRPM8, que normalmente dispara quando a temperatura cai. O cérebro recebe o sinal de frio, mesmo sem nenhuma mudança real de temperatura.
Os cientistas David Julius e Ardem Patapoutian usaram o mentol, de forma independente, para identificar esse receptor. As descobertas sobre os receptores de temperatura e tato renderam aos 2 o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 2021.
Na medicina, o óleo de Hortelã-pimenta em cápsulas de liberação intestinal tem boas evidências contra a síndrome do intestino irritável. Uma revisão de 2022 com mais de 1.000 participantes encontrou melhora dos sintomas e da dor abdominal em relação ao placebo. O mentol não deve ser aplicado no rosto nem inalado por bebês e crianças pequenas, porque pode afetar a respiração.
Minta, a Ninfa que Virou Erva
Na mitologia grega, Minta era uma ninfa amada por Hades, o deus do mundo dos mortos. Perséfone, esposa de Hades, com ciúmes, a transformou numa planta rasteira. Hades, sem poder desfazer a transformação, deu a ela um perfume doce, para que fosse sentida sempre que pisada.
Por essa ligação com Hades, a Hortelã também aparecia em ritos funerários gregos. O nome do gênero, Mentha, vem do nome da ninfa.
No Brasil, a Hortelã entra em banhos de ervas e defumações da tradição popular, usada para limpeza e renovação.
O Poejo e a Planta que Invade o Canteiro
Nem toda Hortelã é inofensiva. O Poejo, Mentha pulegium, muito usado em chás caseiros no Brasil, contém pulegona. Em doses altas, sobretudo na forma de óleo essencial, essa substância causa lesões graves no fígado, e há registros de mortes pelo consumo do óleo. O chá fraco, em pequenas quantidades, é diferente do óleo concentrado, que nunca deve ser ingerido.
Outro segredo da Hortelã está embaixo da terra. Os rizomas se espalham rapidamente e podem tomar um canteiro inteiro em uma estação. Por isso, muitos jardineiros plantam Hortelã em vasos ou em recipientes enterrados.
Os híbridos também guardam surpresas: como a Hortelã-pimenta não produz sementes férteis, todos os seus pés no mundo vêm de mudas clonadas.
Quibe, Mojito e o Mentol da Índia
A cozinha árabe trouxe a Hortelã para o dia a dia brasileiro. Ela está no quibe, no tabule, na coalhada seca e no charuto de folha de uva. Também vai em sucos, como o de abacaxi com Hortelã, e no mojito cubano.
A Índia produz cerca de 80% do óleo de Hortelã e do mentol do mundo. O cultivo se concentra no estado de Uttar Pradesh, com a Hortelã-japonesa, Mentha arvensis, rica em mentol. O país passou de importador a líder mundial a partir dos anos 2000.
O mentol está em balas, chicletes, cremes dentais, pomadas e cigarros, e é um dos aromas mais consumidos pela indústria.
A Erva que Sentimos como Frio
A Hortelã começou como uma ninfa transformada em planta, virou dízimo no Evangelho, chá de hospitalidade no Marrocos e tempero do quibe brasileiro. No laboratório, ajudou a revelar como o corpo sente o frio e rendeu um Nobel.
É uma planta de contrastes: fácil de cultivar e difícil de controlar, refrescante e às vezes perigosa, antiga nos mitos e moderna na ciência.
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Fontes
- NobelPrize.org. The Nobel Prize in Physiology or Medicine 2021 – Press release. Link
- NCCIH. Peppermint Oil: Usefulness and Safety. Link
- American Journal of Gastroenterology. Peppermint Oil Treatment for Irritable Bowel Syndrome, 2021. Link
- CSIR. From importing menthol mint to becoming a leading exporter. Link
- Horto Didático UFSC. Poejo, menta-pulégio. Link

