Cerca — Um Pedaço de Terra Separado do Mundo
Todo jardim começa com uma escolha. Alguém separa um pedaço de terra, cerca, escolhe o que vai crescer ali e decide o que fica de fora. Pode ser um canteiro no quintal, um pátio com um tanque de água ou um parque com milhares de árvores.
Essa ideia é muito antiga e atravessou culturas muito diferentes. Os egípcios plantavam fileiras de árvores ao redor dos templos, os persas dividiam o jardim em 4 partes, os reis da França usavam o jardim para mostrar poder e, no Japão, surgiram jardins quase sem plantas.
Esta é a história dos jardins, cujo nome lembra um espaço cercado, que aparecem nas pinturas do Egito antigo, que ganharam fama na Babilônia mesmo sem provas de que existiram ali, que deram à palavra paraíso seu sentido e que, no Brasil, ganharam com Roberto Burle Marx uma linguagem própria.
Paraíso — A Palavra que Nasceu de um Muro
As palavras contam parte da história. Segundo o Online Etymology Dictionary, o inglês garden e o francês jardin vêm do latim popular hortus gardinus, jardim cercado, que se apoiava numa palavra germânica, provavelmente o frâncico gardo. A raiz indo-europeia por trás dela significava agarrar ou cercar. O italiano giardino e o espanhol jardín vieram do francês.
A palavra paraíso tem origem parecida. Segundo a Wikipedia, ela vem do avéstico pairidaēza, que queria dizer cercado ao redor e indicava um jardim murado. O termo passou para o elamita e o acádio, depois para o grego parádeisos e o latim paradisus, e mais tarde foi usado para falar do Jardim do Éden.
No Egito, os jardins aparecem cedo. Segundo a Wikipedia, os primeiros eram pomares e hortas irrigados pelo Nilo, com canteiros divididos por muretas de terra. No tempo do faraó Tutmés I, entre 1504 e 1492 antes da era comum, o arquiteto Ineni tinha um jardim com 19 espécies de árvores. O templo de Amon, em Karnak, tinha 26 hortas.
Babilônia — Os Jardins que Ninguém Encontrou
Os Jardins Suspensos da Babilônia estão entre as 7 maravilhas do mundo antigo. Segundo a tradição, o rei Nabucodonosor II, que reinou de 605 a 562 antes da era comum, os construiu para a esposa, a rainha Amitis, que sentia falta das colinas verdes da Média, sua terra natal.
Mas a história tem lacunas. Segundo a Wikipedia, o babilônio Berosso, por volta de 290 antes da era comum, é a única fonte que atribui os jardins a Nabucodonosor. Outros autores, como Diodoro da Sicília, Estrabão e Quinto Cúrcio, também os descreveram. Nenhum texto babilônio menciona os jardins, e nenhuma prova arqueológica definitiva foi encontrada na Babilônia. Heródoto descreveu a cidade sem citá-los.
A pesquisadora Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, propôs outra explicação. Para ela, os jardins seriam os do rei assírio Senaqueribe, em seu palácio em Nínive. Senaqueribe deixou descrições de suas obras de água, chamou seu palácio e jardim de maravilha para todos os povos, e traços de seus aquedutos foram encontrados. Com o tempo, as 2 cidades teriam sido confundidas.
Versalhes — Um Jardim para Mostrar Poder
Na França do século 17, o jardim virou símbolo de poder. Em Versalhes, os primeiros jardins formais foram traçados nos anos 1630, no tempo de Luís XIII. A partir de 1661, Luís XIV iniciou grandes obras, e o paisagista André Le Nôtre aperfeiçoou ali o estilo do jardim formal francês, com eixos retos, canteiros desenhados e grandes espelhos de água.
Segundo a Wikipedia, os jardins ocupam cerca de 800 hectares. O Grande Canal, construído entre 1668 e 1671, tem cerca de 1.500 metros de comprimento. Há 55 fontes, com 620 jatos de água alimentados por 35 quilômetros de canos, e cerca de 200 mil árvores, nenhuma delas do tempo de Luís XIV, por causa dos replantios.
A água foi um problema constante. Ela nunca foi suficiente para manter todas as fontes ligadas ao mesmo tempo. A Máquina de Marly, que começou a funcionar plenamente em 1685 para bombear água do rio Sena, entregava só cerca de metade do previsto. Segundo a Wikipedia, os sistemas de água custaram cerca de 1/3 do orçamento das obras de Versalhes.
Chahar Bagh — O Jardim Dividido em 4
Na Pérsia, o jardim ganhou forma simbólica. O chahar bagh, que quer dizer 4 jardins, divide o espaço em 4 partes, muitas vezes separadas por canais de água que se encontram num tanque central. Segundo a Wikipedia, esse desenho representa o mundo e se inspira na ideia do Éden com seus 4 rios.
O exemplo mais antigo conhecido está em Pasárgada, a primeira capital do Império Aquemênida, fundada por Ciro, o Grande, no século 6 antes da era comum. Os jardins do palácio se estendiam por cerca de 3 quilômetros. Em 2011, a UNESCO reconheceu como Patrimônio Mundial o Jardim Persa, um conjunto de 9 jardins históricos do Irã.
O modelo viajou. O imperador mogol Babur levou o jardim persa para a Índia, começando pelo Aram Bagh, em Agra. Os jardins mogóis buscavam sombra, frutos, perfume e água corrente. Os jardins do Taj Mahal, irrigados por canais ligados ao rio Yamuna, seguem esse ideal de jardim do paraíso, assim como os jardins de Shalimar, em Lahore e na Caxemira.
Ryōan-ji — 15 Pedras que Nunca se Veem Juntas
No Japão, o jardim também virou texto. O Sakuteiki, escrito entre meados e o fim do século 11 e atribuído provavelmente a Tachibana no Toshitsuna, é o manual de jardinagem japonês mais antigo publicado. Ele registrou estilos do período Heian e tratava a colocação das pedras como o centro da arte, mandando o jardineiro seguir o desejo de cada pedra.
O jardim de pedras do templo Ryōan-ji, em Kyoto, leva essa ideia ao extremo. É um retângulo de cerca de 25 por 10 metros, com 15 pedras em 5 grupos sobre cascalho branco, que os monges rastelam todos os dias. A única vegetação é o musgo ao redor das pedras. Sentado na varanda, o visitante nunca vê as 15 pedras ao mesmo tempo.
A origem desse jardim é discutida. Muitas fontes o situam na segunda metade do século 15, mas outras propõem o século 16 ou o período Edo. Segundo a Wikipedia, as primeiras descrições, dos anos 1680, falam em 9 pedras, e o jardim foi refeito no fim do século 18, depois de um incêndio em 1779. Hoje, faz parte de um Patrimônio Mundial da UNESCO em Kyoto.
Burle Marx — O Jardim com Plantas do Brasil
No Brasil, o jardim ganhou uma linguagem moderna com Roberto Burle Marx, nascido em São Paulo em 1909 e morto no Rio de Janeiro em 1994. Segundo a Wikipedia, foi visitando o Jardim Botânico de Berlim, quando estudava pintura na Alemanha, que ele conheceu de perto a flora nativa brasileira. Mais tarde, plantas nativas passaram a aparecer em vários de seus projetos.
Entre suas obras estão o Parque do Flamengo, construído sobre um aterro no Rio de Janeiro, e o calçadão de Copacabana, concluído em 1970, com mosaicos de pedra portuguesa e árvores e palmeiras nativas resistentes à brisa do mar. Pelo menos 50 plantas levam seu nome, como o Philodendron burle-marxii.
Em 1949, ele e o irmão Guilherme compraram um sítio em Barra de Guaratiba, no Rio de Janeiro, e em 1985 Burle Marx o doou ao governo federal. Hoje, o Sítio Roberto Burle Marx é administrado pelo Iphan e reúne mais de 3.500 espécies de plantas. Em 26 de julho de 2021, a UNESCO o reconheceu como Patrimônio Mundial, na categoria paisagem cultural.
Floresta — O Jardim Volta para a Cidade
O jardim nasceu como um pedaço de terra cercado e virou muitas coisas. Foi horta de templo no Egito, lenda na Babilônia, palco de poder em Versalhes, imagem do paraíso na Pérsia, exercício de contemplação em Kyoto e laboratório de plantas nativas em Guaratiba.
Hoje, ele também sobe pelos prédios. Em Milão, o Bosco Verticale, projetado pelo escritório de Stefano Boeri e concluído em 2014, reúne em 2 torres centenas de árvores, milhares de arbustos e outras plantas, numa área verde comparada a cerca de 1 hectare de floresta. Das muretas de terra do Egito às varandas de Milão, o jardim continua sendo uma forma de escolher a natureza que queremos ter por perto.
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Fontes
- Garden, etimologia (Online Etymology Dictionary)
- Persian gardens (Wikipedia)
- Pasargadae (Wikipedia)
- Gardens of ancient Egypt (Wikipedia)
- Hanging Gardens of Babylon (Wikipedia)
- Gardens of Versailles (Wikipedia)
- Sakuteiki (Wikipedia)
- Ryōan-ji (Wikipedia)
- Roberto Burle Marx (Wikipedia)
- Sítio Roberto Burle Marx Named UNESCO World Heritage Site (ArchDaily)
- Bosco Verticale (Wikipedia)

