Planta, Bebida, Entidade e Religião — A Árvore de Muitos Nomes
Poucas palavras no Brasil carregam tantos significados quanto Jurema. É uma árvore espinhosa da Caatinga, uma bebida preparada com a casca de sua raiz, uma entidade do mundo espiritual e o nome de uma religião nascida no Nordeste.
Por trás de cada um desses sentidos estão quase 3 séculos de história documentada. Ela passa pelos rituais indígenas denunciados à Inquisição, pelo romance de José de Alencar e pela molécula que intrigou os químicos no século 20.
Esta é a história de uma planta que resistiu à seca, ao fogo e à perseguição, e que hoje é patrimônio cultural da Paraíba.
Mimosa tenuiflora — A Árvore Espinhosa do Semiárido
A Jurema-preta, Mimosa tenuiflora, é uma árvore da família Fabaceae, a mesma do Feijão e do Pau-brasil. Tem espinhos nos galhos, folhas miúdas divididas em dezenas de folíolos e flores brancas reunidas em espigas perfumadas. Chega a 8 m de altura e pode passar de 4 m em menos de 5 anos.
Ela ocorre do sul do México ao Nordeste brasileiro, passando por El Salvador, Honduras, Panamá, Colômbia e Venezuela. No Brasil, é símbolo da Caatinga e aparece do Ceará à Bahia. No México, é chamada de Tepezcohuite. Durante décadas, os botânicos a classificaram como Mimosa hostilis, nome que ainda circula como sinônimo.
A palavra jurema tem origem indígena. O mesmo nome designa a árvore, a bebida feita de sua raiz, o mundo espiritual dos encantados e a religião que nasceu em torno dela.
1739 — O Primeiro Registro Escrito
A Jurema já era usada pelos povos indígenas do Nordeste antes da chegada dos portugueses. O primeiro registro escrito conhecido é de 1739. Nesse ano, o governador de Pernambuco pediu ao rei D. João V providências contra o uso da bebida pelos indígenas das missões da Paraíba.
Em 1743, o frei capuchinho José de Calvatam denunciou o ritual à Inquisição. Ele descreveu participantes em transe que só despertavam quando o mestre os tocava com o maracá, ao som de um canto. Pouco depois, o Diretório pombalino para Pernambuco proibiu as “juremas contrárias aos bons costumes”.
A perseguição não apagou o ritual. Entre povos como os Xukuru-Kariri, Pankararu e Potiguara, a Jurema seguiu viva, passada de geração em geração.
Taninos, Cicatrização e a Árvore que Recupera o Solo
A casca da Jurema-preta é rica em taninos e compostos fenólicos com ação antimicrobiana e cicatrizante. No Nordeste, é remédio popular para feridas, inflamações e dor de dente. No México, a casca em pó do Tepezcohuite é aplicada sobre queimaduras e ferimentos de pele.
A ciência já testou esse uso. Um ensaio clínico mexicano de 2007 obteve bons resultados com um extrato da casca no tratamento de úlceras venosas nas pernas.
Na Caatinga, ela é uma espécie pioneira: está entre as primeiras árvores a ocupar áreas desmatadas ou queimadas. Suas raízes fixam nitrogênio no solo e preparam o terreno para outras plantas.
As Cidades da Jurema — O Reino dos Mestres e Caboclos
Na Jurema Sagrada, também chamada de Catimbó-Jurema, a árvore é a morada dos encantados. O mundo espiritual se divide em cidades e reinos habitados por Mestres, Mestras, Caboclos e Reis. Nas sessões, juremeiros e juremeiras usam o cachimbo, o maracá e a fumaça para chamar essas entidades.
O vinho da Jurema, preparado com a casca da raiz, é o sacramento central do culto. A religião reúne raízes indígenas, africanas e católicas: orações cristãs e santos convivem com os encantados.
O berço dessa tradição é Alhandra, na Paraíba, a 40 km de João Pessoa. Ali viveu Maria do Acais, uma das juremeiras mais conhecidas da história do culto. O Sítio do Acais, onde fica a Capela de São João Batista, é protegido pelo patrimônio histórico estadual desde 2015.
Nigerina, DMT e o Mistério da Bebida
Em 1946, o químico pernambucano Oswaldo Gonçalves de Lima isolou da raiz da Jurema um alcaloide que batizou de nigerina. Em 1959, uma equipe liderada por Irwin Pachter mostrou que a nigerina era a dimetiltriptamina, o DMT. É a mesma molécula presente na Chacrona, uma das plantas da Ayahuasca.
A casca da raiz concentra de 1% a 1,7% de DMT. O caule tem cerca de 0,03%.
Aqui está o mistério. Tomado pela boca, o DMT costuma ser destruído por enzimas do sistema digestivo. Na Ayahuasca, o cipó bloqueia essas enzimas. O vinho da Jurema, tradicionalmente, é preparado sem um ingrediente com essa função. Como a bebida produz efeito é uma pergunta que os pesquisadores ainda debatem.
Iracema, Catimbó e Patrimônio — A Jurema na Cultura Brasileira
Em 1865, José de Alencar fez da Jurema um elemento central de Iracema. A heroína é a guardiã do segredo da bebida sagrada dos Tabajara, e é o licor da Jurema que leva Martim ao sonho.
Em 1938, a Missão de Pesquisas Folclóricas, organizada por Mário de Andrade, gravou sessões de catimbó na Paraíba. É um dos primeiros registros sonoros do culto. Na mesma época, terreiros de Jurema eram alvo frequente de batidas policiais.
Em julho de 2025, a Assembleia Legislativa da Paraíba reconheceu a Jurema Sagrada como patrimônio cultural imaterial do estado.
Três Séculos de Registro — e a Árvore Continua de Pé
Dos documentos da Inquisição às leis de patrimônio, a Jurema atravessou quase 3 séculos de perseguição e preconceito sem desaparecer. Sobreviveu em aldeias, sítios e terreiros, e hoje ganha espaço também nas cidades.
Na Caatinga, a mesma árvore fornece lenha, estacas e remédio, e é das primeiras a recuperar o solo degradado. Planta, bebida, entidade e religião, a Jurema resume em um só nome o encontro de povos indígenas, africanos e europeus no Nordeste.
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Fontes
- Medeiros, Guilherme. O uso ritual da jurema entre os indígenas do Brasil colonial. CLIO Arqueológica, n. 20, 2006. Link
- Resistance: Rebellion and Resistance in the Iberian Empires. Jurema (verbete). Universidade de Évora. Link
- Wikipédia. Jurema-preta. Link
- Wikipedia. Oswaldo Gonçalves de Lima. Link
- Jornal da Paraíba. Jurema Sagrada como patrimônio imaterial da PB. Link
- UTEP Herbal Safety. Tepezcohuite. Link
- Wikipédia. Missão de Pesquisas Folclóricas. Link

