Margarida: A Simplicidade das Flores Silvestres

Branca e inocente, a margarida floresce nos campos e nas memórias, símbolo de pureza e infância.

Da ninfa grega que se transformou numa flor para escapar de um deus ao cravo no cano de espingarda dos manifestantes contra a Guerra do Vietnã, a margarida é a flor mais democrática do mundo — e um segredo botânico que poucos percebem.

A margarida parece simples. Pétalas brancas ao redor de um miolo amarelo — uma flor de criança, de campo, de jardim de avó. Mas por dentro guarda um segredo que a maioria das pessoas não sabe — o que parece uma única flor é na verdade uma inflorescência inteira, com dezenas de flores individuais. Cada pétala branca é uma flor. Cada ponto amarelo do centro é outra flor. A margarida não é uma flor — é uma multidão. Esta é a história da Bellis perennis — a bela perene que existe há mais de quatro mil anos.

 

Margaritēs — A Pérola da Europa e da Ásia Central

A margarida mais conhecida, Bellis perennis, é nativa da Europa e da Ásia Central — crescendo espontaneamente em prados, jardins, beiras de estradas e campos abertos. Seu nome vem do latim bellus — bonita — e do grego margaritēs — pérola — pelas pétalas brancas que irradiam ao redor do centro dourado como uma pérola luminosa. Pertence à família Asteraceae — a mais rica em espécies entre todas as famílias de plantas com flores, com mais de vinte e três mil espécies — da qual fazem parte também o girassol, o crisântemo, a dália e o zínia. Existe há pelo menos quatro mil e duzentos anos — os egípcios antigos a cultivavam com propósitos medicinais desde 2200 a.C. E os registros fósseis sugerem que a família Asteraceae surgiu há cinquenta e cinco milhões de anos — tornando a margarida uma flor com história muito mais longa do que parece.

A Margarida (Bellis perennis) tornou-se símbolo de pureza e simplicidade nas paisagens europeias

 

Da Grécia Antiga aos Mosteiros Medievais — Medicina e Mitologia

Na mitologia grega, a margarida nasceu da ninfa Belides — que, para escapar dos avanços de Vertumnus, deus das estações e dos pomares, implorou aos deuses para ser transformada em flor. Sua transformação criou a Bellis — a bela — que desde então floresce nos prados europeus. Os egípcios antigos usavam a margarida para aliviar dores de úlcera estomacal, gota e febre. Os assírios acreditavam que uma loção de margaridas esmagadas devolvia a cor natural aos cabelos brancos. No século XIII europeu era ingrediente comum no tratamento de ferimentos, febre e gota. Na Inglaterra medieval, remédios à base de margarida eram prescritos para doenças dos olhos — com a condição de que fossem acompanhados de palavras mágicas específicas. Uma flor que misturava farmácia e feitiçaria muito antes da medicina moderna separar as duas coisas.

 

Luteolina, Taninos e a Farmácia Disfarçada de Ornamental

A ciência confirmou parte das intuições medievais. A Bellis perennis contém luteolina, apigenina, taninos, saponinas e ácidos fenólicos com propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes, antibacterianas, antifúngicas, expectorantes e diuréticas comprovadas em estudos modernos. É usada em fitoterapia europeia para tratar tosse, bronquite, problemas digestivos e inflamações da pele. Externamente, compressas de flores frescas aliviam contusões, hematomas e feridas — uma aplicação que a medicina popular pratica há oito séculos. E um detalhe importante — a Leucanthemum vulgare, a margarida bem-me-quer de pétalas maiores, é uma espécie diferente da Bellis perennis, embora ambas sejam chamadas popularmente de margarida. São primas da mesma família, mas com composições químicas e usos medicinais distintos.

A Margarida inspirou artistas e movimentos estéticos que celebravam a natureza cotidiana

 

A Flor dos Espíritos Celtas e o Jogo do Bem-Me-Quer

Na mitologia celta, as margaridas eram consideradas as flores dos espíritos das crianças que morriam antes de ser batizadas — colocadas nas covas das crianças para proteger suas almas na jornada para o outro mundo. Era também símbolo de inocência, pureza e novos começos. O ritual de arrancar pétalas alternando bem-me-quer e mal-me-quer é uma das tradições populares mais universais ligadas a qualquer flor — presente em culturas que vão da Europa ao Brasil, sempre associado ao amor e à incerteza. Na Era Vitoriana, a margarida na linguagem das flores significava amor leal, afeição sincera e lealdade — era o presente ideal para declarar sentimentos que as convenções da época não permitiam dizer em voz alta.

 

O Cravo no Cano da Espingarda — A Margarida como Símbolo da Paz

Em 21 de outubro de 1967, cerca de cem mil manifestantes marcharam em Washington pedindo o fim da Guerra do Vietnã. Quando a marcha chegou ao Pentágono, jovens manifestantes enfiaram margaridas e flores nos canos das espingardas dos soldados que bloqueavam a entrada — criando um dos gestos mais icônicos da contracultura americana. A fotografia de Jan Rose Kasmir com uma margarida diante dos soldados tornou-se símbolo global do movimento hippie e da paz. A flor simples dos prados europeus havia se tornado o emblema de uma geração que escolheu a beleza contra a violência. A margarida foi a flor do flower power.

A Margarida representa a força das flores silvestres na cultura popular e no paisagismo

 

Asteraceae — A Família Botânica que Enganou Todo Mundo

O maior segredo da margarida é botânico — o que chamamos de flor não é uma flor. É uma inflorescência chamada capítulo — uma estrutura composta por duas categorias distintas de flores. As pétalas brancas ao redor são flores-liguladas ou flores-raio — cada uma delas é uma flor individual completa, geralmente estéril, cuja função é atrair polinizadores. O centro amarelo é formado por dezenas a centenas de flores-tubulosas — pequenas, perfeitas e férteis, responsáveis pela produção de frutos e sementes. A família Asteraceae — com mais de vinte e três mil espécies — é a maior família de plantas com flores do mundo precisamente porque essa estrutura composta em capítulo é extraordinariamente eficiente para a reprodução, concentrando muitas flores num único espaço para maximizar a polinização.

 

Da Criança que Arranca Pétalas ao Jardim Mais Popular do Mundo

A margarida é uma das flores ornamentais mais cultivadas do mundo — presente em jardins de todos os continentes, em vasos de apartamento e em campos de flores silvestres. Adapta-se com facilidade a diferentes solos e climas, resiste ao frio, floresce praticamente o ano inteiro em condições favoráveis e se reproduz abundantemente por sementes e por divisão de touceiras. No Brasil, chegou com os colonizadores europeus e se naturalizou especialmente no Sul e no Sudeste — onde floresce nos jardins com a mesma abundância que nos prados europeus de origem. Uma flor sem pretensões que inspirou filósofos, curou ferimentos medievais, acompanhou os mortos celtas, declarou amor vitoriano e parou uma guerra americana — tudo com a mesma discrição com que abre suas pétalas ao sol todas as manhãs. Quer conhecer mais histórias sobre as plantas que moldaram o mundo? Explore o reino das plantas em A História das Plantas.

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