Mel: A Doçura que Humanos, Abelhas e um Pássaro Negociam há Milênios

Das pinturas rupestres da Espanha à cera nos potes neolíticos da Anatólia, do pássaro que guia caçadores de mel na África às abelhas africanizadas que escaparam em Rio Claro, o Mel é o alimento que une humanos, insetos e flores há pelo menos 9 mil anos

 

Um Alimento Feito por Outra Espécie

O Mel é um dos poucos alimentos humanos que não vêm diretamente de uma planta ou de um animal abatido. Ele é fabricado por abelhas, a partir do néctar das flores, e guardado para alimentar a colmeia no inverno ou na seca.

Os humanos aprenderam cedo a tomar esse estoque. Primeiro escalando árvores e penhascos, depois criando as abelhas em potes, troncos e caixas. Na África, uma espécie de pássaro aprendeu a guiar os caçadores até as colmeias em troca da cera.

Do Neolítico aos templos egípcios, da Bíblia ao Alcorão, o Mel virou alimento, remédio, oferenda e bebida fermentada. Esta é a história da doçura mais antiga que a humanidade conhece.

 

Néctar, Enzimas e Evaporação

O Mel começa na flor. As abelhas-melíferas, Apis mellifera, sugam o néctar, uma solução de água e açúcares, e o armazenam no papo. Ali, enzimas como a invertase quebram a sacarose em glicose e frutose.

Na colmeia, o néctar passa de abelha em abelha e é espalhado nos favos. As operárias batem as asas para evaporar a água, até que o Mel fique com menos de 20% de umidade. Então selam os alvéolos com cera.

Cada tipo de Mel carrega o sabor, a cor e o aroma das flores visitadas. Mel de Laranjeira, de Eucalipto, de Assa-peixe ou silvestre: a planta de origem está em cada colherada.

 

A pintura na Caverna de Araña, em Valencia, Espanha, feita há 8.000 anos atrás, é a mais antiga representação de alguém coletando Mel

 

Das Pinturas de Bicorp aos Potes da Anatólia

Na Cueva de la Araña, em Bicorp, na Espanha, uma pintura rupestre com cerca de 8 mil anos mostra uma pessoa pendurada em cordas, coletando favos de uma colmeia selvagem enquanto as abelhas voam ao redor.

Em 2015, um estudo publicado na Nature analisou mais de 6.400 vasos pré-históricos e encontrou restos de cera de abelha em potes da Anatólia, na atual Turquia, com cerca de 9 mil anos. A exploração das abelhas acompanhou a expansão da agricultura pela Europa.

No Egito, relevos de cerca de 4.400 anos no templo solar do faraó Niuserre mostram apicultores retirando Mel de colmeias cilíndricas. Em Tel Rehov, em Israel, arqueólogos encontraram um apiário com cerca de 3 mil anos, com dezenas de colmeias de barro.

 

Xarope Natural contra a Tosse, Proibido para Bebês

O Mel é quase todo açúcar, principalmente frutose e glicose, com pouca água e acidez alta. Uma enzima das abelhas produz pequenas quantidades de peróxido de hidrogênio. Essa combinação dificulta o crescimento de bactérias e ajuda o Mel a durar muito tempo sem estragar.

Uma revisão Cochrane de 2018 concluiu que o Mel provavelmente alivia a tosse aguda em crianças mais do que nenhum tratamento, um anti-histamínico comum ou o placebo, com evidências de qualidade baixa a moderada.

A mesma revisão faz um alerta importante: o Mel não deve ser dado a bebês com menos de 12 meses. Ele pode conter esporos da bactéria do botulismo, que o intestino dos bebês ainda não consegue neutralizar.

 

A forma hexagonal do favo de Mel foi desenvolvido pelas abelhas por ser o mais eficiente em armazenar mais Mel usando menos cera

 

Terra de Leite e Mel, Oxum e o Alcorão

Na Bíblia, a terra prometida é descrita como uma terra que mana leite e Mel. No Alcorão, a 16ª surata se chama An-Nahl, A Abelha, e diz que do ventre das abelhas sai uma bebida de cores variadas que traz cura para os homens.

No Egito, um mito registrado em papiros conta que as abelhas nasceram das lágrimas do deus-sol Rá. Na Grécia, as sacerdotisas de Deméter eram chamadas de melissai, abelhas.

No Brasil, o Mel é oferenda de Oxum, a orixá das águas doces, do amor e da fertilidade no Candomblé. Por isso, em muitos terreiros, é associado à doçura e à prosperidade.

 

O Pássaro que Guia os Caçadores

Na Reserva do Niassa, em Moçambique, os caçadores de Mel do povo Yao têm um parceiro inesperado: o indicador-grande, Indicator indicator, um pássaro que se alimenta da cera das colmeias, mas não consegue abri-las sozinho.

Em 2016, um estudo publicado na Science mostrou que os pássaros reconhecem o chamado tradicional dos Yao, um som de “brrr-hm”. Quando ouviam esse chamado, a chance de o pássaro guiar os pesquisadores até uma colmeia subia de 33% para 66%.

Depois que os caçadores retiram o Mel, deixam a cera para o pássaro. Na Tanzânia, os Hadza mantêm uma parceria parecida, mas usam um assobio diferente, sinal de que cada povo desenvolveu sua própria língua com os pássaros.

 

Cada Mel é único, sendo produzido por flores próprias de cada local e estação

 

Abelhas Africanizadas e Abelhas sem Ferrão

Em 1956, o geneticista brasileiro Warwick Kerr trouxe rainhas de abelhas africanas para Rio Claro, em São Paulo, para criar abelhas mais produtivas nos trópicos. Em 1957, 26 enxames escaparam da quarentena e se cruzaram com as abelhas europeias.

As abelhas africanizadas se espalharam pela América do Sul e chegaram aos Estados Unidos em 1985. No Brasil, mais agressivas mas muito produtivas e resistentes, elas transformaram a apicultura nacional.

Muito antes delas, os povos indígenas já criavam as abelhas nativas sem ferrão, como a Jataí e a Uruçu, que produzem Mel mais líquido e ácido. O Brasil tem centenas de espécies dessas abelhas, e sua criação, a meliponicultura, cresce em todo o país.

 

A Primeira Doçura

O Mel acompanha a humanidade desde as cavernas. Foi colhido em penhascos, criado em potes de barro, oferecido a deuses e orixás e fermentado em bebidas como o hidromel, que muitos consideram uma das bebidas alcoólicas mais antigas.

Por trás de cada pote estão milhares de abelhas, milhões de flores e uma relação de milênios entre espécies. Poucos alimentos dependem tanto de uma parceria entre a natureza e as pessoas.

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Fontes

  • Roffet-Salque, M. et al. Widespread exploitation of the honeybee by early Neolithic farmers. Nature, 2015. Link
  • Atlas Obscura. Man of Bicorp Cave Painting. Link
  • AAAS. A Sweet Example of Human and Wild Animal Collaboration, 2016. Link
  • Cochrane. Honey for acute cough in children, 2018. Link
  • Wikipédia. Abelha africanizada. Link

 

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